Albert Camus

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim,
mas apenas um começo...

Albert Camus






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De instrumento de ações a articulador e praticante de atitudes

Após um profundo e quase interminável mergulho, regresso à superfície. Afinal, ainda necessito respirar. Segue, conforme anunciado, a segunda e, possivelmente, última parte do texto pretérito.

 

Inicio retomando a indagação que findou o post do distante dia 13 de julho, a saber: o que faz com que uns pratiquem o mal em detrimento do bem? A partir dessa pergunta surgem outras tantas: O que norteia a má ação? A atitude, seja ela má ou boa, é uma determinação ou uma escolha? Fatalismo ou livre arbítrio? Resultado de fatores sociais ou individuais? O fito do presente post não é responder a tais inquietações, mas ofertar uma mensagem comumente ignorada em solo pátrio.

 

Recorro, pois, a duas abordagens clássicas, quais sejam: a sociocultural e a da escolha intencional. A primeira advoga que a ação independe da vontade do indivíduo, além de ser estabelecida por forças externas, que, por seu turno, se originam na sociedade. A segunda, contrariamente, considera que a ação resulta de uma escolha deliberada, feita pelo agente.

 

A pressão social gerada pela expectativa de afluência, segundo Robert Merton, faria com que os indivíduos buscassem quaisquer meios, inclusive maus e ilegítimos, para atingir as expectativas que a sociedade internalizou em suas mentes. A ação das pessoas seria orientada pela contradição que há entre a expectativa social e a, digamos, capacidade individual. O fosso que separa tais extremos geraria sentimentos como frustração e revolta. Segundo tal pensamento, se não me são ofertadas as condições necessárias para que tenha dinheiro e bens desejáveis, me resta tomar. A propósito, Oscar Wilde afirmou que pedir é mais indigno que tomar.

 

Entrementes, tal abordagem apresenta uma visível limitação traduzida na seguinte pergunta: por que nem todos os indivíduos submetidos às mesmas forças sociais tornam-se motivados para a prática do mal? Há moradores de locais pobres e violentos que são seguidores da retidão. É razoável acreditar que a partir das influências recebidas, cada indivíduo escolhe entre as alternativas disponíveis. Muitas vezes as pessoas agem com se espera que elas ajam. No entanto, estas mesmas pessoas podem agir de maneira diferenciada, isto é, contrariando uma expectativa social. Então, o que de fato leva alguém a agir de uma determinada forma? Uma série de fatores! Influências externas, decisões internas baseadas no que vem de fora, mas também no que parte de dentro. Não se pode perder de vista que o indivíduo não é somente um instrumento das ações, mas também um articulador e praticante de atitudes. Não consigo me imaginar, talvez por ausência de criatividade, a serviço de uma força oculta, designada de sociedade, como querem alguns célebres pensadores tupiniquins. Considerar os indivíduos meros pacientes e inferiorizar drasticamente a sua importância no complexo social é um absurdo que, talvez, nem Camus, o argelino, entenderia.



:: Escrito por: Camus às 19h27
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