
Ao se estabelecer uma relação comparativa entre o mal e o bem é lugar comum concluir que o pêndulo aponta para o primeiro. Aqui não nos cabe relativismos do tipo o que é considerado bem para um pode ser mal par o outro. A definição de bem ora utilizada pode ser a exposta por Espinosa, a saber: o esforço de se preservar. Diria mais: o esforço de preservação. Toda ação contrária a esse empreendimento é um mal.
Há quem explique o mal advogando o final dos tempos, conforme previsões catastróficas, enquanto outros, no entanto, preferem acreditar se tratar de um período transitório, cuja finalidade é anunciar o ingresso de uma nova fase. Santo Agostinho afirmou que o mal não existe, de modo que o que consideramos como tal na verdade é a ausência do bem. Platão, em direção similar, garantiu que o mal pertence ao mundo dos sentidos e que este é irreal, transitório e mutável.
O fato é que os principais valores morais que herdamos do judaísmo e do cristianismo estão sendo sensivelmente bombardeados e invertidos diante de olhos cegos e mãos atadas. A inversão desses valores tem gerado o mal ou pelo menos afastado muitos do bem.
Em tempos de índices alarmantes de violência, a percepção do mal aumenta, embora muitos tenham a ele se adequado, a ponto de se tornarem indiferentes. Antes de imaginarmos a violência como um estágio necessário pelo qual a humanidade tem que passar, como querem alguns, é preciso verificar que o seu crescimento deve-se a algumas leis retrógradas e, sobretudo, à impunidade, responsável proeminente por sua escalada. A prática do crime teve seu custo reduzido e seu benefício ampliado.
Mas, o que torna o mal (ou ausência do bem) proeminente em relação ao bem? De que forma explicar a sua aparente condição majoritária? Por que uns tantos preferem o mal ao bem? Alguns, por influência rousseauniana, responderiam que a sociedade tornou os indivíduos maus. Contudo, é preciso compreender que a ação do indivíduo, seja ela má ou boa, é de responsabilidade moral e não coletiva.
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A violência é um dos assuntos mais mencionados nesta terra de Macunaíma. Discute-se o tema na mesa de bar, no congresso, nas ruas, residências e também na presidência, onde equivocadamente é vista como a imagem refletida de um espelho de nome pobreza. Os números e acontecimentos que engrandecem a violência são divulgados todos os dias a espectadores indiferentes a eles.
Há tempos as pessoas não se chocam com a violência. A sensibilidade é como as fantasias dos carnavais que animaram outrora. Estão entregues ao esquecimento destinado às peças que se amontoam no guarda-roupa. Ficam na memória, mas não no corpo. Assistimos às cenas de violência com indiferença, enquanto deliciamos uma boa refeição ou conversamos com alguns amigos sobre as últimas do esporte.
Qual o problema em ser indiferente a algo? O tratamos de maneira comum, corriqueira, enfim, normal. É como se não houvesse nada de errado. Então, que a violência seja bem-vinda ao nosso convívio. Vamos aceitá-la sem lamentações. Afinal, muitos, diante das ações ineficazes (ou ausência de ações) das autoridades, propalam que não há mesmo o que fazer. E as caminhadas em favor da paz? Pouco importa. Os bandidos e os dirigentes do país não vão se comover com rostos anônimos expostos em camisetas. Muda-se a fisionomia dos traços faciais estampados no peito, mas a violência persiste com a mesma cara. O que fazer? Um bom começo seria mudar a forma retrógrada de pensar a violência. Enquanto pensarmos errado, agiremos de maneira equivocada. Miséria é contributiva (como a riqueza pode ser) para a violência, não determinante. A violência pode nos escolher, mas somente nos tornaremos violentos se a escolhermos.
Voltemos à indiferença. Ao continuarmos neste pique a indiferença dos homens de hoje será reles quando comparada a dos homens de amanhã. Senão vejamos! É comum a exibição de programas televisivos referentes à violência. Neles é possível visualizar cenas de cadáveres estendidos no chão. Observem que ao lado desses corpos é comum a presença de crianças brincando e sorrindo ingenuamente para o cinegrafista (afinal, a condição de criança não cessa apesar do terror). Vejam por onde anda o futuro do país. Essas crianças de tanto presenciar tais cenas começam a considerá-las normais. Assim sendo, quando estiverem maiores e passarem por uma rua onde haja um cadáver dificilmente se chocarão. Como estranhar o que visualizo todos os dias? Estendendo o raciocínio é possível afirmar que não há nada de errado em sofrer, já que sofro todos os dias; não há nada de errado em ser alvo ou praticante da violência, pois é o que ocorre todos os dias. A violência abrupta que ai se encontra precisa ser vista como algo execrável e incomum. Perdemos nossa primeira camada de anticorpos contra a violência: a sensibilidade.