Albert Camus

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim,
mas apenas um começo...

Albert Camus






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Entre ondas

Não regue a insistência; Não vou deixá-la agora; Não tente me mandar, que eu não vou embora; Um mundo por fazer, um grão nunca foi feito; Não há como negar, eu sou imperfeito; Largue-me, por favor, a hora é agora; O que havia aqui já está lá fora; Por vezes é assim, por vezes nada somos; Diga-me como entender tantos abandonos? Faço tudo que puder; Deixo tudo por fazer; Quero me ver além do que teu olhar crer; Sempre estive andando, nunca estive certo; Não sei para onde vou, se é o teu deserto; A vida é assim, não quer dizer que eu seja; Quero domar a fera antes que você veja; Não queira ir agora, agora ninguém vai; Não pense em esvair o que nos satisfaz; Dia, noite, sempre, nunca, inverno, verão, felicidade, tristeza; Tudo cabe entre uma e outra onda de densidade e leveza.



:: Escrito por: Camus às 12h27
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A complexa simplicidade de “Vavá”

A defesa utilizada por Nelson Passos Alfonso, advogado de Genival Inácio da Silva, vulgo “Vavá”, irmão do presidente da república, trata-se muito mais de uma tese corrente no país do que de um subterfúgio advocatício: o homem “simples” não comete deslizes morais! É válido lembrar que a aludida tese já foi utilizada várias vezes em favor do mandatário máximo da nação. Indaga-se: a defesa em questão está amparada na realidade?

 

Nelson Passos alegou que o seu cliente não tem “preparo” para ser o autor da obra que dizem ter a sua assinatura. A simplicidade de “Vavá” o impediria de praticar lobby, tendo em vista que ele, sequer, sabe se comportar diante de um ministro de Estado. Questiona-se, de já, desde quando “pouca cultura” é garantia de idoneidade moral? A absurda teoria do bom selvagem, de autoria de Rousseau, advoga em linhas gerais que o homem nasce puro e a sociedade o corrompe. Teria “Vavá”, após sua fase natural de pureza, sido corrompido? Ou “Vavá” mantém-se puro, como quer o seu advogado, apesar de toda a avassaladora influência do meio social? O que Rousseau teria a nos dizer sobre “Vavá”, o questionador de sua honrosa teoria?

 

Há pouco o presidente Lula da Silva creditou à pobreza a responsabilidade pela violência (absurdo já derrubado neste blog). Os pobres e simples cidadãos (?) não são, segundo o próprio Lula, tão puros assim. Seria “Vavá” uma ilustre exceção? O que o tornaria como tal: o fato de ser irmão do presidente?

 

“Vavá” é detentor do pré-requisito primordial para a prática de lobby, qual seja, ser irmão do presidente da república. Quem em sã consciência vai se negar a um pedido do irmão do presidente? Poucos! Ademais, os ministros de Estado, figuras com as quais “Vavá” supostamente não saberia se comportar, são encarregados do seu irmão Lula da Silva. Teriam os senhores ministros a petulância de se negar a realizar um favor ao irmão do presidente? Tenho sérias dúvidas. 

 

Se, por fim, o cargo de presidente da república não requer, pelo menos depois do Lula da Silva, “preparo”, por que a prática de lobby o exigiria?

 

Deixo-vos com duas perguntas tão simples quanto “Vavá”: um símio é “simples”? Um símio rouba? Se for simples, segundo a honrosa teoria acima exposta, não pode roubar, nem mesmo bananas.



:: Escrito por: Camus às 12h41
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À Luz que reveste a lua

Não há amo como antes, entre ríspidos instantes; Agora, agora a amo infinitamente mais, como a distância que separa nossas capitais; Sou vacilante em demonstrar o que sinto entre as imagens que pinto, mas o que sinto é progressivamente delirante; Continuo, num contínuo, a seguir os sinais e observar o véu lilás que tanto apanhou tuas lágrimas que cortaram tuas maçãs como se fossem cristais; Confesso-me lento e difícil, mas me esquivo do ócio que há no vício; As bélicas estações que tanto nos separaram, finalmente passaram, e nós ficamos em paz, contando as embarcações fantasmas estacionadas num inexistente cais; O ato de amar tornou-se maior que o ator coadjuvante que o encenou sob os aplausos da platéia que restou; Desculpe-me não saber escrever sobre o que sinto nem sobre para quem sinto, me falta, de fato, um ás; Ocorre que minhas palavras não atingem o além; Mantenha-me iluminado e um dia tu darás a luz que tanto necessito. Que os arcângelos digam amém! E que, na serenidade da lua, comece o desejado rito.

 

Enquanto bebia o teu vinho tinto, os poemas se desfizeram na cicuta avassaladora que a envenenou de amor.



:: Escrito por: Camus às 13h24
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