
Ainda me encontro sob o efeito dos escritos do espírito vultoso de Franz Kafka. Reli A Metamorfose, depois O Veredicto (impossível não detectar a semelhança entre tais obras), e a agora estou mergulhado n’ O Processo.
Já vos falei que curiosamente e de maneira inconsciente minhas mãos buscam os livros que melhor interpretam o momento derradeiro. Não sei nem quero tentar explicar o motivo pelo qual o exposto se manifesta, apenas vivenciá-lo em sua intensidade como tenho feito desde tempos imemoriais.
Recentemente, como exposto no escrito pretérito e ao contrário da metamorfose de Gregor, personagem de Kafka, abandonei a forma de inseto e adquiri a forma humana. Gregor, a exemplo de mim, não foi o único a ser metamorfoseado. Toda a sua família sofreu metamorfose. Não que ela tenha se transformado em inseto, mas, diante da metamorfose e da morte de Gregor, ela sofreu intensa modificação. Diria que com a morte de Gregor a sua família ganhou uma vida nova.
É comum querermos para os nossos o melhor. Igualmente comum é o fato de, por vezes, exagerarmos a tal ponto que fazemos tudo por eles. Achando ofertar o bem, estamos destinando-os ao mal. Não se trata exatamente de uma queixa, mas sempre fui exigido em demasia pela família. Sempre fui a válvula, o centro, o responsável pelas opções que os seus integrantes abdicavam de fazer, impondo-me os mais variados naipes de poderes.
Ocorre que há tempos via a vida passar enquanto me encontrava parado. Chegou um momento em que ela havia passado tanto que a distância ganhou ares infinitos. Quando a vida passa e as pessoas ficam, estas deixam de viver. Foi então que sofri a metamorfose. Mudei de cidade e passei a respirar novos ares e enxergar horizontes outros, ao lado daquela que me ilumina o caminho. Nunca cultivei raízes, mas ainda assim partiu o coração ver a mãe em prantos, o pai em dúvida e as irmãs boquiabertas, além dos amigos que ora achavam loucura imediata, ora achavam sanidade tardia.
Os dias passaram e com eles a vida. Constatei então que também estava passando. Havia voltado a andar, a sorrir, a pensar no impossível. Verifiquei com o tempo o mal que estava provocando na minha família ao fazer tudo por ela. Bastou que eu a deixasse para que ela, por si só, tomasse as rédeas da situação, que as coisas começaram a acontecer. Os seus integrantes sempre puderam fazer o que eu fazia, mas por ter alguém para tal, abdicavam do direito de agir tornando-se apáticos, inertes e acomodados.
Feliz a metamorfose que me atingiu e respingou na minha família. Hoje somos melhores separados do que fomos outrora juntos. Nos fazíamos mal. Não nos merecíamos. Hoje distantes estamos mais próximos do que antes, quando sob o mesmo teto brincávamos de família e nos iludíamos com uma falsa felicidade. Obrigado mãe, pai e irmãs, além do pequeno grande irmão, por tudo. Estarei sempre com vocês. Desculpem-me pelo excesso de zelo.
Não! Não fui vítima prematura e indefesa da senhora de certezas incertas. Portanto, enxuguem as lágrimas. Também não desisti de escrever no (ao) juvenília. A minha ausência deve-se a um furacão de nome Luz, o primeiro do ano. Este me levou necessariamente para alhures. Calma! Ao contrário dos temíveis furacões, que arrastam milhares de vida, o furacão Luz, por seu turno, me arrastou em direção à vida. Sinceramente, desculpem-me os valorosos e poucos amigos que formei, mas sai do inferno e hoje me encontro no céu.
Imaginem água de coco e/ou enzima na garganta, olhar no mar, cabelos ao vento, companhia indescritível ao lado... Não mereço tanto, mas espero um dia fazer por merecer. Sim, estou na Veneza brasileira, esta, melhor que a original.
Flagrei-me, há alguns dias, relendo A Metamorfose de Kafka. Sou viciado em doses cavalares de questionamentos. Tudo que ocorre à volta ou corre em volta ponho rapidamente em xeque. Não engulo nada sem ler o rótulo, caso contrário seria um marxista qualquer e estamparia a face do Che no peito. Assim sendo, me voltei a tentar entender os motivos pelos quais minhas mãos em parceria com meus olhos me fizeram regressar à obra de Kafka.
Estou vivenciando a obra de Kafka ao contrário. Um dia acordei e constatei admirado que não era mais um inseto. Tinha me tornado um homem, mas que isso, um homem apaixonado pela vida.
Quero, por fim, vos dizer que gradativamente voltarei à constância de sempre. E, que acabo de ganhar uma garrafa de vinho, uma vez que apostei com um cético que continuaria escrevendo após minha partida.
Abraços e aguardem respostas aos comentários anteriores.