Albert Camus

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim,
mas apenas um começo...

Albert Camus






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Mais um gole de abstração

No post anterior me restringi ao indivíduo, ou melhor, ao ser isoladamente: folha, peixe e pássaro. E se tratássemos de uma coletividade? Se, por exemplo, um povo qualquer estivesse aprisionado, seria válido que alguns integrantes perdessem suas vidas em busca da liberdade de seus compatriotas? Esse é o assunto que permeará o presente post.

 

Digamos que o povo “A” viva há tempos sob a repressão do povo “B”. Este, desde que invadiu as terras daquele o mantém sob o seu domínio. Nesse caso, portanto, a liberdade inexiste. O povo “A” não tem vontade própria e se resume a servir o povo “B”. Quais as possíveis opções do povo “A” readquirir sua liberdade? É obviamente difícil imaginar que o povo “B” acostumado à serventia do “A” resolva por um lapso de bondade conceder-lhe de volta sua liberdade. A via pacífica, portanto, fica praticamente, se não totalmente obstruída.

 

Caberá como último recurso ao povo “A” reconquistar sua liberdade através do embate direto, inclusive físico, com o povo “B”. Se “A” está sob jugo de “B” conclui-se que este é, digamos do ponto de vista da força, inferior aquele. O fim almejado é a liberdade. O meio é a guerra. Na guerra sempre há perdas. Vidas se vão. É chegada à hora, portanto, de um povo escolher entre viver eternamente prisioneiro, à espera de um milagre, ou lutar pela liberdade, mesmo que isso desemboque num morticínio.

 

Alguns povos por não suportarem mais a opressão optaram pela segunda alternativa. Enfrentaram, pois, os seus algozes. Uns venceram e conquistaram a sonhada liberdade. Outros, no entanto, foram derrotados ou ainda dizimados.

 

Antes de prosseguirmos é preciso que concebamos o seguinte: quando se luta pela liberdade, o frágil costuma tornar-se forte. Por um tempo foi difícil explicar como povos frágeis e oprimidos venceram povos fortes e opressores. A resposta é simples: os que lutam pela liberdade lutam com mais força e empenho e estão dispostos a morrer por ela. Os que lutam por dinheiro ou status, por exemplo, não são portadores do mesmo ímpeto. Não há na vida recompensa maior que a liberdade. Para os que lutam pela liberdade a guerra é a batalha. Para os que lutam pela opressão a guerra é mais uma batalha.

 

Queiram, por um instante, se ver sob a opressão. Imaginem seus descendentes sofrendo o mesmo. Pensem ainda na total ausência de perspectiva de toda uma geração e tantas outras que virão. Nenhum povo suporta tal situação para sempre por mais pacífico que o seja. Lutar por sua liberdade e a de seus semelhantes não é perder a vida, mas tornar possível salvar inúmeras vidas. O exposto se configura em minha resposta à indagação elaborada no primeiro parágrafo. Apesar da redundância, a vida nasce para ser livre!



:: Escrito por: Camus às 10h53
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Sobre a vida e a liberdade*

Especialmente para Locke, mas também para alguns escritores depois dele, vida, liberdade e propriedade são direitos naturais. Não se aceita, ainda à luz do aludido inglês, que haja interferência, por exemplo, estatal, nesse tripé de direitos. São, pois, direitos invioláveis.

 

O valor de tais direitos é incalculável! Alguém se habilita a dizer quanto vale a vida ou a liberdade? Já em relação ao terceiro direito, até devido a sua estrutura palpável, é possível atribuí-lo um valor. É certo que muitos morreram pela liberdade, enquanto outros se entregaram, buscando com isso se manter vivos. Muitos, ao longo da história, pagaram por suas vidas com a liberdade. Outros, porém, pagaram pela liberdade com suas próprias vidas. Mas, há vida sem liberdade? Há liberdade sem vida? Pensemos!

 

O presente post tratará dos dois primeiros direitos, deixando a propriedade, o terceiro direito, para um futuro não moroso, embora indeterminado.

 

Permitamos-nos alguns segundos de pura abstração. Imaginem uma folha pregada num galho de uma árvore. Ela está lá, mas não dispõe de liberdade, uma vez que se encontra fixa – A propósito, é possível ser livre e imóvel? Será que determinados corpos estão condenados a não ser livres? – A liberdade dessa pequena folha desembocará irremediavelmente no seu fim. Ao se soltar do galho ela cairá em liberdade, mas logo morrerá e o seu verde dará lugar a um amarelo seco e sem vida. Tal liberdade deve ser buscada? É melhor viver preso ou morrer livre? Obviamente é melhor viver livre! Mas se for impelido a optar, o que fazer? Por alguns segundos ou talvez minutos de liberdade a folha renunciou há dias indefinidos de vida.

 

Aos tripulantes que estão com náuseas, por favor, sintam-se inteiramente à vontade para desembarcar do navio fantasma. Aos que quiserem ficar envio-lhes um recado: vamos continuar derivando num mar de abstração, onde os tubarões têm asas e as águias nadadeiras. Eis uma outra abstração: Há sobre uma mesa, um aquário contendo um peixe. Ele está vivo, mas não se encontra livre. O que faria se lhe fosse dada à possibilidade de derrubar o aquário e, por fim, ter seus ínfimos instantes de liberdade? Seria salutar trocar várias respirações por algumas poucas?

 

Continua abaixo...



:: Escrito por: Camus às 11h55
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Tal postura coloca a liberdade sobre a vida. É preciso que concebamos que não há liberdade sem vida, logo não se deve colocar aquela sobre esta. Não quero com isso diminuir a valia da liberdade, tantas vezes merecidamente louvada no juvenília, apenas condicioná-la à vida. E o contrário, seria possível? Há vida sem liberdade? Fisiologicamente sim! Agora, indiscutivelmente, muitos irão dizer que os miseráveis não vivem. Tudo bem! Acontece que se eles não vivem não há como se tornarem livres.

 

Alguém pode pensar sobre os casos da folha e do peixe o seguinte: se eles não fizessem isso morreriam de qualquer forma e o que é pior: sem ter se quer o gosto da liberdade. Ocorre que a liberdade é tão imprescindível que não devemos tê-la somente instantaneamente, mas de maneira contínua.  

 

Quando se busca a liberdade é preciso levar consigo a vida. Não sejamos reles suicidas. Os casos acima citados são diferentes do seguinte: há um pássaro aprisionado numa gaiola. Uma vez livre correrá perigo, mas não terá a morte como certa e praticamente instantânea. É válido que o pássaro pague o preço de correr perigo pela liberdade de voar.

 

Ainda bebendo em fontes como a de Locke é válido lembrar que a condição para a liberdade é a responsabilidade irrestrita. Seja livre, mas seja responsável. A sua liberdade vai até onde começa a do outro. Dessa forma, posso vos afirmar, a liberdade vai até o limite da vida. Ela não pode de maneira alguma suplantar a vida. Baseado no exposto é possível ter posicionamentos sobre questões polêmicas como aborto, tráfico de drogas, dentre tantas outras.

 

É preciso, por fim, que fique claro: necessitamos desfrutar de nossos direitos naturais. Sem um deles, os demais se tornam estéreis. Não há, até mesmo por uma questão óbvia, liberdade sem vida. Não há, que não fisiologicamente, vida sem liberdade. Somente respirar não é vida é fisiologia.

 

*Texto escrito por Camus e C Henrique C.



:: Escrito por: Camus às 11h52
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O personagem e o nada

Todo dia pela manhã avistava-se o personagem regando, desde tempos imemoriais, a sua inestimável fobia de tentar. Esta localizada no centro do jardim da sua vida. O cair das noites trazia consigo um par de mãos trêmulas colhendo o que plantara nas repetitivas manhãs: o nada. Tudo, segundo a percepção daquele personagem, se configurava num risco e todo risco era desnecessário.

 

Pensava o nosso personagem: os que amam a vida evitam se arriscar por medo de morrer. É possível viver sem riscos? Eis uma pergunta na qual ele nunca respondeu. Não se permitia tentar acertar por não tolerar a possibilidade de erro. Acontece que nada de grande se faz sem essa possibilidade. As conquistas têm seus preços. Assim, evitando morrer, morria todos os dias sem ao menos ter o direito a um sepultamento digno.

 

Com o rolar do tempo, entre uma e outra dose de desistência patética, começou a desconfiar que a omissão se traduzia num equívoco. Justamente o que evitava a todo preço o consumia incessantemente. Esquivava-se de um tropeço sem saber que o chão era sua cama. Enfim, ao tentar se proteger da chuva, mergulhou num mar de lama.

 

Alguns homens tanto pensam na morte que esquecem de viver. Outros, porém, vivem tão intensamente, que procuram esquecer que um dia regressarão ao pó. A diferença é que uns, por medo de morrer, não vivem, enquanto que outros vivem justamente pelo medo de morrer. É preciso viver, ou pelo menos tentar viver tudo, pois a vida logo será nada. Logo todos nós nos resumiremos a um quadro na parede, um sentimento no coração, algumas linhas escritas e lembranças de ocasião.

 

O nosso personagem precisou ser posto, pela pena de um autor onipresente, num beco sem saída para que adquirisse consciência do que perdera. Tentando evitar o fracasso tornou sua vida um eterno fracasso. Teve esse temeroso ser o corpo totalmente queimado por ter passado a vida inteira evitando talvez queimar uma única mão. Entre uma mão e um corpo inteiro ele optou inconscientemente por este último. Acontece que de nada adianta uma mão sem um corpo, mas um corpo pode muito sem uma mão.

 

Adorava ganhar, desde que os ganhos não lhe gerassem perda, qualquer que fosse. Ocorre que em toda vitória há derrotas e em toda derrota há vitórias. Não há ganho completo nem perda total. Sempre é possível salvar algo. Porém, é impossível nos salvaguardarmos de tudo.

 

Hoje, todavia, o nosso personagem volta uma vez mais à cena, dessa vez, diante de aplausos estridentes de mãos fictícias e rostos ocultos perdidos na multidão, que representam fielmente o que se construiu ao longo do tempo: nada. Diferentemente da época pretérita, ele se presta a cantar sem platéia e escrever sem leitores, sabendo ele que se trata de um bom recomeço. Se pudéssemos aprender sem viver, teria esse personagem se tornado um autor, mas sua omissão o condenou a ser um reles personagem de uma trama qualquer.



:: Escrito por: Camus às 11h26
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730 voltas em torno do sol

Sou oriundo de um fevereiro qualquer, perdido na esquina do tempo, mas os janeiros são os meses que mais alegram este ser naturalmente triste. Talvez por isso tenha, ao longo da vida, me atrasado para os encontros com a alegria.

 

Os motivos pelos quais tenho verdadeira adoração por janeiro são vários. Assim sendo, me limito a enumerar três: o reencontro com a Luz, a lembrança do senhor de olhos azuis e o nascimento do singelo e dono de si, juvenília. Objetivo apresentá-los, caros juvenílicos, a esse triângulo, cujos vértices são povoados de alegria.

 

Tornei-me, vida atrás, por força das circunstâncias repletas de intolerância um ser obscuro. Sempre, especialmente depois disso, me alimentei de Luz, mas vivia moribundo vagando pela escuridão. Após anos de incessante busca reencontrei, enfim, a Luz que reveste a lua e que me ilumina o caminho. Contavam-se vinte e um dias do mês de janeiro. A Luz para os que não sabem é alguém que me fez voltar a viver após anos ignorando a vida e bailando com a senhora de certezas incertas, a pani ou morte. Se, anteriormente, tivesse descoberto a beleza da vida teria, certamente, produzido vidas e assim poderia me manter vivo enquanto durassem os meus. Não o fiz! Estou por acabar, logo urge aproveitar os dias que, felizmente, anunciam prazer.

 

No mês de janeiro faleceu o senhor de olhos azuis, o pai da Luz. O que teria isso de alegre? À primeira vista nada. Mas algo me leva a acreditar que o referido senhor partiu para que nós chegássemos. Ademais, seus ensinamentos estão aqui conosco. Tu estás, talvez, mais vivo do que estaria se não tivesse nos privado de vossa inestimável companhia física. Faça festas por onde andas e anuncie a nossa ida.

 

No dia 22 do mês em curso o juvenília completará, sem nenhuma demonstração de tontura, 730 voltas em torno do astro rei. Tantas elucubrações vieram à tona por meio dele. Pensamentos foram expelidos do íntimo da intimidade e passaram a permear o exterior sem medo ou constrangimento. Tirei muitos trapos em forma de escritos da escuridão das gavetas e os expus ao sol.

 

O juvenília surgiu um dia depois do ressurgimento da Luz. Coincidência? Claro que não! Por detrás de todo Camus, inclusive o que se encontra na parte de cima desta página, há uma Luz. Em torno de toda Lua, seja ela cheia, crescente ou minguante, há uma Luz. Se eu tivesse olhado atentamente para a lua ou para mim, especialmente naquela época de busca, teria encontrado a Luz e a felicidade nasceria bem antes. Mas parece que eu precisava sofrer para valorizar o prazer que estava por vir.

 

O meu primeiro contato com Camus também se deu aos 22 dias de janeiro, este pertencente ao ano de 1990. Digo isso somente para constar, uma vez que a aludida ocorrência já foi publicada. É por conta do exposto, que cultivo a maior afinidade com janeiro. Tenho empreendido esforços para tornar todos os meses janeiros, toda escuridão, Luz e todos os que se foram senhores de olhos azuis. Somente não quero que todos os blogs se tornem juvenílias. Por favor, isso não. Um é remediável. Mais de um é overdose.

 

Por fim, agradeço pela paciência e tolerância de todos os leitores que por aqui passaram. Vocês fazem parte da história do juvenília. Ao juvenília dedico parabéns por mais um ano e, aproveitando o ensejo, agradeço por continuar me refletindo, agora em cores azul e preta. Vejo-me sempre que olho para você. Fico feliz em saber que você, que um dia foi feito por mim, hoje, de alguma forma, me faz. Parabéns Juvenília. Tu és a conseqüência imediata de minha causa maior: a Luz.



:: Escrito por: Camus às 12h55
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Sobre Serra, Alckmin, suposições e a vala comum

Muitas são as conclusões sobre as chances, performances e obstruções dos dois principais presidenciáveis do PSDB. Porém, considero válida uma reflexão, embora em forma de sinopse, sobre duas questões até então apresentadas como cruciais.

 

As sondagens que colocam Serra numa situação mais favorável que a de Alckmin precisam ser analisadas com acuidade, uma vez que trazem somente dados quantitativos e universos diferentes. Não é possível comparar quantitativamente dois candidatos com oportunidades visivelmente distintas. O fato de ter sido Serra o candidato tucano na última eleição presidencial lhe ofertou uma maior exposição, o que o tornou mais conhecido que Alckmin. Então, quanto maior a exposição pública maior a aceitação? Não! Se assim fosse Lula seria imbatível. Ademais, a exposição também pode gerar desgaste. Ocorre que para alguém ser aceito ou não é preciso que seja conhecido, especialmente do ponto de vista eleitoral. Como rejeitar o que nunca se ouviu falar?

 

A porcentagem de aceitação do prefeito paulistano é extraída de um universo maior que aquele de onde é retirada a aceitação do governador de São Paulo. Isso não quer dizer que a exposição do nome do Alckmin poderá levá-lo ao mesmo patamar ocupado atualmente por Serra.

 

Fala-se constantemente num documento assinado por Serra, como resposta à campanha publicitária do PT durante o pleito para a Prefeitura de São Paulo, no qual ele se comprometia, em caso de vitória, a permanecer à frente do executivo municipal até o fim de sua gestão, em 2008, o que por tabela o impediria de se candidatar a presidente em 2006. Analisemos o fato.

 

Serra ao assinar o tal papel caiu na armadilha publicitária do Partido dos Trabalhadores. Imaginem vocês se Marta, caso tivesse assinado papel similar e tivesse conquistado a eleição, não concorreria ao governo do Estado. Talvez não, mas pessoalmente acho difícil. Nos enveredemos então por um caso real. Uns ignoram e outros esquecem, mas Antonio Palocci assinou e registrou em cartório um documento no qual se comprometia a concluir o mandato de quatro anos à frente da Prefeitura de Ribeirão Preto, mas como se sabe ele quebrou sua palavra ao assumir o Ministério da Fazendo no início do governo Lula da Silva. Nesse caso, salvo engano, ninguém questionou tal atitude.

 

Observa-se a adoção de dois pesos e duas medidas. Palocci pôde, Serra não. Em sendo Serra o candidato caberá a ele questionar se o PT tem a devida moral para exigir do tucano que suas promessas sejam cumpridas. Agora é necessário questionar se mandar os escrúpulos às favas em troca da possibilidade de ganhar a eleição não seria cair na vala comum: os fins justificam os meios? Pessoalmente acho que uma coisa não justifica a outra. A ausência de escrúpulos por parte de Palocci, por exemplo, não concede o direito de Serra também errar. Esquecendo sua palavra, Serra estará se comparando aos que ora critica. Há situações em que as pessoas são levadas a optar por algo, de modo que não se pode, tempos depois, simplesmente, ignorar tal opção, bem como a honra.

 

Temo que se torne absurdamente comum o homem se curvar ao relativismo moral. 



:: Escrito por: Camus às 16h02
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Desabafo

Pela primeira vez começo a escrever um post pelo fim: a epígrafe. Sempre coloco o rótulo após vedar o frasco. Também, pela primeira vez, será a minha vontade que reinará em detrimento das aspirações do juvenília. Já afirmei de maneira reiterada, que esse blog tem vida própria, de modo que, por vezes, me escapa o controle, mas nesse caso fugirei à regra, espero. A liberdade é tão significativa que até mesmo os elementos inanimados a reivindicam.

 

Os que me conhecem nos trâmites físicos estranharão um desabafo vindo de minha parte. Isso porque se trata, penso eu, de algo inédito, ou pelo menos de uma raridade inconteste. Os que me conhecem nos trâmites virtuais (não seria conhece o juvenília?) terão uma percepção não muito díspar.

 

Quem, dentre vós, não se deparou com a seguinte situação: dois caminhos e uma escolha? Optamos por um percurso, quase sempre o mais imediatamente cômodo, com o desejo que ele nos leve de encontro ao nosso objetivo. Acontece que, por vezes, após anos andando concluímos que trilhamos o caminho errado. O que fazer? Urge volver!

 

O problema é que perdemos algo que não há como resgatar, a saber: o tempo. Esta palavra de cinco letras é um recurso não renovável. Podemos ganhar tempo, desde que, antes, não o tenhamos perdido. Trata-se, pois, de um docente que devora seus discentes. Enfim, perdi algo que não posso reconquistar. Isso não impede, por exemplo, que eu realize o que planejei, ou seja, que eu trilhe o outro caminho e me depare com o meu fim. Para tanto se faz necessário andar mais rápido, o que não é fácil para um ser comumente moroso.

 

Poderia destinar, e seria uma atitude mais cômoda, a culpa a um ser supremo ou às linhas de minhas mãos. Porém, atribuo conquistas e derrotas, ganhos e perdas de tempo a mim mesmo. Sou responsável pelo pouco que fiz e, especialmente, pelo muito que deixei de fazer. Também devo me responsabilizar pelo que há por fazer.

 

Para quê tudo isso? Elementar, caro leitor: após conhecer o mal que me aflige e me degrada sigo o encalço da providência do remédio, que poderá me livrar de uma frustração contínua.

 

Hoje sei que não sou tão diferente como tantas vezes propalei, no máximo sou menos igual que os iguais. Tenho que admitir que menosprezei do alto da montanha os ventos mais rasteiros e agora, sem vento algum, estou temporariamente impedido de voar.

 

Encontro-me ferido de morte, mas com sorte irei me reerguer e então, caminharei para o norte, embora, por vezes, olhe para o sul, onde irei encontrar o que equivocadamente preteri em algum momento insano e destituído da devida coragem e da necessária humildade.



:: Escrito por: Camus às 16h19
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Um papo estranho

Lembro-me desde os primórdios de minha gênese do que me disse certo senhor, enquanto contemplava o cair da tarde numa praça incerta e perdida no tempo. Passados alguns instantes de reiterada quebra de uma das principais regras de minha mãe – não converse com estranhos – ouvi do aludido senhor, do alto, certamente, de seus mais de oitenta anos: “Você olha pra mim com receio por ignorar a verdade: os antigos sabem mais que os novos!”. Pensei: será?

 

Comumente deparo-me com tal idéia. Meu avô disse-me o mesmo. Em livros de antropologia é comum lermos que os líderes de determinadas tribos são os mais experientes, isto é, os mais antigos. A liderança, neste caso, não foi feita para ser exercida por jovens. Assim sendo, a variável etária estaria sobreposta a uma outra variável: a capacidade. Estariam os antigos se defendendo, desde sempre, do que viria depois: o desprezo sistemático e desumano dos mais jovens pelos idosos? Como diria Roberto Campos: “Envelhecer é naufragar!”.

 

Ocorre que desde a época em que ouvi o senhor em questão pronunciar sua tese me ponho a pensar a respeito. Vejamos: se a verdade é filha do tempo, como ouvimos comumente, inclusive dos mais antigos, não seríamos nós, os novos, quem estaria com ela, nos preparando ou não para passá-la aos novos jovens quando nos tornarmos antigos? Sei que há vários sábios, verdadeiros gigantes antigos, que já se foram, mas deixaram suas marcas e nos entregaram suas verdades. O que esses gigantes descobriram, considerando o seu tempo, nem eu nem a parcela majoritária da população mundial teria descoberto. Mas, por outro lado, é preciso conceber que os anões, quando colocados sobre os gigantes podem enxergar mais do que os próprios gigantes. Isso se dá pelo fato de os anões (jovens) serem posteriores aos gigantes (velhos).

 

Estaria eu, com isso, discordando do que me disse o senhor da praça? Claro que não. Pelo contrário, estou justamente confirmando sua tese, embora com a apresentação de uma interpretação diferente, qual seja os antigos somos nós, os jovens, e não ele. Do ponto de vista histórico eu sou bem mais velho que o inesquecível senhor da praça.

 

Sempre que meu avô me diz se tratar de um jovem de nove décadas, digo-lhe, de pronto, que sou um velho próximo das três décadas.



:: Escrito por: Camus às 15h35
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A casa do tirano

É sabido que, por vezes, relato meus (des)encontros com alguns seres retrógrados. Antes que alguém suponha que estimulo tais acontecimentos, visando assim criar sordidamente fatos para minhas escritas, digo que essas pessoas estão espalhadas como pragas em plantações, de modo que evitá-las é sempre difícil. Bom que seja assim, pois acabamos por ofertá-las um tratamento adequado, ou seja, o enfrentamento. Dessa forma, posso até perder a batalha, mas não serei conivente com o que elas (tais pessoas) designam de vitória.

 

Não é que eu não me encontre com outras pessoas, mas ao expor às primeiras, concomitantemente, apresento formas de pensar e agir nas quais condeno. Ademais, por vezes, também aprendemos com os erros, tanto os nossos quanto os dos outros. Enfim, tais pessoas são para mim o que os ratos de laboratórios são para os cientistas: aplico-lhes algum estímulo e observo seu comportamento.

 

Justificada a minha suposta predileção por relatos referentes aos perdidos no tempo e no espaço, lanço-me, uma vez mais, a mais nova discussão. Segunda-feira última, enquanto tentava almoçar, disse-me um petista, apresentando-me na face traços sérios, que, apesar de inúmeros equívocos, o “PT defende a liberdade de imprensa”. Eu o indaguei se era uma piada.  Ele, por sua vez, disse-me que os fatos falam por si. Que fatos? Nunca houve tanta liberdade de imprensa nesse país, afirmou certo de que a questão estaria fechada.

 

Vamos a dois fatos, já que eles falam por si. O que houve com o jornalista estrangeiro que teve a infeliz idéia de divulgar a predileção do presidente Lula da Silva por cachaça? E agora, o que houve com o apresentador Boris Casoy, conhecido crítico do governo petista? É preciso conceber que o PT em geral e o presidente Lula da Silva em particular são favoráveis à liberdade de expressão desde que não se publique nada contrário aos seus interesses.

 

A infelicidade foi tamanha que o interlocutor caiu em tentação. Disse-me: “O que o jornalista fez (referindo-se ao jornalista estrangeiro) não se faz. É preciso respeitar as pessoas. Afinal de contas estamos falando do presidente da república, que tem uma biografia invejável”. “Quanto ao Boris – prosseguiu – ele fala demais”. Viram caros leitores o viés totalitário e contrário à liberdade de imprensa, que ele diz ser bandeira petista. Basta conversar por dez minutos, ou talvez menos, com um ser perdido no tempo e no espaço que ele lança seu veneno. A língua é maior que a boca. Mais tempo, menos tempo ela aparece. 

 

Ao dizer “(...) estamos falando do presidente da república, que tem uma biografia invejável”, o interlocutor me fez crer que se fosse sobre um cidadão comum, a crítica seria permitida, mas como se trata do mandatário máximo da nação, o intocável “pai dos pobres” pós-moderno... Outra impressão que tive da aludida afirmação foi a seguinte: um passado limpo (apesar da cabeça do Lula sempre ter sido – no meu entender – permeada por idéias sujas) legitima um presente poluído. Você fez algo de bom, então tem um bônus que lhe credencia a fazer algo de ruim. Quanto ao Boris, caros leitores, é preciso saber que o seu contrato foi desfeito com a Record, cuja diretoria afirmou que o governo não admitia críticas e, dessa forma, ameaçou o corte de publicidade estatal no “Jornal da Record”, além de ter sugerido nomes para substituir Casoy na bancada do aludido programa.

 

Agora, volto a frisar o seguinte, como o fiz diante do meu interlocutor, num país onde o presidente afirma ser o atual regime venezuelano demasiadamente democrático o autoritarismo e a ofensa à liberdade de imprensa são fichinhas. Numa democracia como essa qualquer tirano sente-se em casa, não é mesmo companheiro Chávez? O Brasil é uma casa onde o medíocre entra pela porta e a excelência sai pela janela.



:: Escrito por: Camus às 14h26
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Apenas assim

Vocifera-se um recomeço, especialmente, após um tropeço; Mas o que acabou: a forma da poesia, o prazer do verso ou a dor do reverso? Fala-se em fim, mas será que houve um início? Princípio e desfecho, neste caso, nada mais são que estátuas de gesso paradas no tempo sem tempo para andar; Passado e futuro satisfazem o vício de buscar a salvação, se não antes, depois do precipício; Todo ano a mesma litania: renova-se a esperança, pereço todo dia para em seguida aparecer no trottoir de uma esquina sem nome, número ou codinome; Nunca vi um povo desesperado esperar tanto por um regresso sem partida; Há ventos femininos, mas não velas, danças de acasalamento, mas não músicas; O olhar feliz é marcado por prantos e miram sem fé um santo qualquer; Sopro a vela para andar e a espirro pra correr; Corro lento, mas ando rápido, pois o tempo teima em apagar teus rastros; Pago pelo prazer de viver continuamente, sem me preocupar com os supostos finais e recomeços, apenas com os volumes que ainda tenho por ler e reler; Fecho os olhos para o início e os ouvidos para o fim: é melhor assim, sem começo nem desfecho, apenas e sem pena, assim.



:: Escrito por: Camus às 18h18
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Os preços e o túmulo de Smith

Já vos indaguei neste juvenília a razão dos preços livres estarem abaixo dos preços controlados pelo Estado, lembram?

 

Com um mínimo de sensibilidade também é possível notar que há, especialmente no Brasil, um discurso sistemático contrário ao livre mercado, certo? Neste caso a injustiça é tão significativa que chega a ponto de atribuir ao mercado todas as mazelas sociais, eximindo, por outro lado, o Estado interventor do ônus causado. É bem verdade que o mercado também apresenta suas distorções, até porque as potencialidades são díspares, mas assemelhá-lo ao Diabo e, concomitantemente, conceder ao Estado o status de um Deus é um absurdo superior a todos os pecados do mundo. Se a mão do mercado é invisível, como diria Smith, o braço do Estado não o é.

 

Pois bem, é digno de nota que, nos últimos dez anos, os preços controlados pelo Estado tiveram aumento 3,5 vezes maior que a média dos preços livres. Mas logo o Estado, tido por muitos como salvador da pátria, fixando preços acima do mercado? Um olhar desatento conclui precipitadamente que os preços administrados pelo Estado são inferiores aos praticados pelo mercado, tendo em vista que se trata de preços referentes a produtos e serviços públicos, mas não é isso o que acontece. O Estado é tão bom, perante o olhar comum, que concede migalhas aos pobres. Esquecem (ou não) os que assim pensam, que dessa forma a pobreza está garantida ao invés de enfrentada.

 

Mas quais seriam os motivos dos preços livres estarem em média abaixo dos preços administrados? Os preços livres caíram devido ao aumento da competitividade ocasionado, por exemplo, por inovações tecnológicas e ganho de produtividade. Já os preços administrados foram elevados por sua natureza mesma. Assim, ao intervir nos preços, o Estado comumente gera escassez e torna a demanda superior à procura, causando distorção. Veja, por exemplo, o caso dos transportes, gás e luz. O aumento nesses setores tem afastado a possibilidade das pessoas os utilizarem.

 

Segundo o economista Rodrigo Constantino em Preços Administrados ou Livres? artigo recentemente publicado, “alterar artificialmente os preços de mercado causa uma perda de eficiência em seu funcionamento, pelo elevado ruído nas informações transmitidas”. Isso porque os preços são mecanismos de informação para os compradores e vendedores. É nos preços que se encontram as preferências subjetivas de produtores e consumidores. Dessa forma, a partir do momento que há intervenção nos preços as informações são obviamente desvirtuadas.

 

Ainda assim há incautos que fazem Smith se sacudir no túmulo ao intitularem o país de neoliberal (o autor de A Riqueza das Nações não conhecia tal terminologia, mas se a conhecesse, seguramente, a acharia um absurdo se atribuída a países como o Brasil) e até mesmo liberal. Com tanta intervenção, duvido. 



:: Escrito por: Camus às 13h24
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Dops Pós-moderno

Do ponto de vista político o ano de 2005 nos acenou um adeus moribundo. Não bastasse a chuva de corrupção que inundou todo o ano, especialmente a sua segunda metade, o Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, o mesmo que defendeu insistentemente a proibição da venda legal de armas, veio a público advogar a idéia de que a Polícia Federal deve criar uma espécie de comitê gestor das eleições e dos partidos, sob a alegação de que há experiências semelhantes em outros países e a necessidade de moralizar os pleitos eleitorais.

 

De maneira bem compreensível o ministro quer expor à bisbilhotice oficial (a cada dia o país se torna mais interventor) políticos, chefes partidários, tesoureiros de legenda, dentre tantos outros. Seriam eles, a partir de então, reféns dos olhos estatais. O ministro ao invés de sugerir melhorias instrumentais à Justiça Eleitoral para que esta possa efetivamente coibir falcatruas, acrescenta uma perigosa mistura à democracia, a saber: a intervenção de órgãos de segurança do Estado. Se os políticos já são por demais reféns do Leviatã (prato cheio para corrupção), imaginem agora.

 

É no mínimo estranho que um ministro pertencente a um governo que saqueou a moralidade tenha a intenção de moralizar as eleições no país. Justo ele, que a exemplo do mandatário maior da nação não deu forma aos projetos maciçamente divulgados. Justo ele que falou num plano de segurança que ninguém conhece, pois nunca se tornou prático. Agora vem propor a infeliz idéia de uma lista de pessoas que passariam a sofrer investigações. Será que o presidente Lula da Silva e sua trupe estarão dentre as figuras que irão ser refletidas pelas retinas estatais ou o novo/velho mecanismo perseguirá somente adversários políticos?

 

Ademais, somente na caixa craniana de um senhor como este cabe que um corrupto deixa pegadas de seus atos ilegais. Os ratos do dinheiro público, senhor ministro, não depositam o queijo, ou melhor, o dinheiro em contas regulares. Fazer a exposição gratuita de lideranças através de investigações somente irá satisfazer os interesses políticos daqueles que se encontram no poder.

 

Querem os portadores do poder, controlar a sociedade e submetê-la a seus caprichos e à sua vocação totalitária. Querem tornar suas, as atribuições concernentes às instituições eleitorais. Tenhamos cuidado, pois volta e meia o fantasma totalitário nos assombra.



:: Escrito por: Camus às 09h53
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Descoberta

Sempre achei que meu lugar fosse aqui; Hoje, porém, sei que é alhures; Nunca cultivei quaisquer dúvidas de que minhas pernas eram suficientemente fortes para andarem sozinhas; Até me descobrir prisioneiro da mais absurda inércia.



:: Escrito por: Camus às 12h55
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