
Com a devida vênia da Luz vos deixo a seguir com um texto que escrevi para o Fora do Lugar, em 14 de outubro de 2005.
Duas cidades
Toda grande história é notadamente marcada por dificuldades, proibições e desafios. Seus protagonistas, caso queiram ter um final feliz, precisam transpor algumas barreiras, a saber, as distâncias que os separam, as normas que os inibem e o olhar avassalador do tempo, que requer pressa, mesmo quando não se pode andar.
Vivemos a mesma história, mas em cidades diferentes e distantes. Eu me encontro na cidade temporal e você na cidade espiritual. Tomás de Aquino as denominou respectivamente de humanitas e christianitas, lembra? Alias, tu tens notícias do velho Tomás?
Minha cidade é marcada pela razão, enquanto que a sua se move pela fé, pela revelação. Sou um reles munícipe da cidade dos homens e você, por seu turno, uma expressiva integrante da cidade dos deuses. Sou um ser carnal, repleto de pecados imperdoáveis e defeitos incorrigíveis. Você é uma diva, simplesmente uma irretocável diva. Somos, portanto, dois moradores de duas cidades pertencentes a dois mundos.
Para vivermos carecemos um do outro, logo, precisamos ocupar o espaço que nos separa. Será que a retidão de sua cidade aceitaria um ser tão errado? Será que a minha cidade, avassaladoramente pecaminosa, seria digna de vossa divina presença? O que tu achas de nos encontramos no purgatório, onde tu não és completamente deusa nem eu completamente homem? Dessa forma, poderia obrar milagres e você realizar besteiras. Quem sabe assim dizimaríamos as nossas indiferenças?
Como fui me apaixonar por uma deusa? Como você foi se encantar por um pecador? Temos que optar: ou abdico da minha condição de homem ou tu perdes tua condição de deusa. Lembre-se, a junção de um homem com uma deusa poderá desembocar na deificação do homem ou na humanização da deusa. Em qualquer dos casos haverá a unificação das cidades. Rezo, apesar de pecador, todos os dias para que isso ocorra. Que as indolências humanas se tornem ações divinas!
Numa dessas noites entregues ao vão me deparei com uma imagem que há tempos me abandonara. Na ausência da lua, que se encontrava nos bastidores das nuvens, me concentrei em coisas comumente periféricas. Lancei então o olhar em direção a uma poça de água, onde pude visualizar e me espantar com o meu rosto, tão diferente estava em relação à última vez que o vi. A vida parece ter passado depressa demais para alguém quase sempre lento. Não me lembro quando exatamente minhas retinas refletiram minha imagem no espelho, mas sei que tinha feições bem distintas daquelas que me saltavam aos olhos naquele instante de nostalgia. Sentei-me, ignorando o olhar de curiosos, ao lado daquele reflexo e comecei a percorrer cautelosamente seus traços deformados pela erosão do tempo. Eu não mais parecia comigo. Adquiri novas e profundas linhas que não se encontravam em lugar algum. Havia envelhecido sem a menor percepção. A fisionomia de menino tinha cedido lugar a uma outra ainda não descoberta. Tento lembrar quando foi que esqueci de mim...
Incitado não só pelo comentário do JEE no post pretérito, mas por algumas designações a mim dirigidas nos últimos tempos, proponho uma regressão aos prenúncios de meu envolvimento com a escrita, como forma de ofertar uma possível explicação para o fato de as pessoas me considerarem “contraditório”, “utópico” e “exagerado” para citar apenas três qualificações.
Quando pequeno tinha preferência pela pintura e não pela escrita. Ocorre que, após alguns anos sonhando em me tornar um grande pintor, me desencantei diante da minha visível ausência de talento com os pincéis. Buscando melhor sorte adentrei então no mundo da escrita, onde me encontro até os dias que correm apesar da ausência de vocação.
Ao me encantar pela escrita tive como primeiro propósito, a exemplo dos anos de pintura, agradar as pessoas. Buscava a satisfação dos olhos que me liam. Foi assim quando, em decorrência de seu aniversário, escrevi algo para minha mãe ou quando impus às primeiras namoradas à condição de receptoras de minhas escritas. A felicidade das pessoas proporcionava um orgasmo entre a alma e o espírito.
Hoje, porém, me preocupo meramente em escrever. Não quero agradar pessoas apenas defender posicionamentos. Tal mudança de postura me tornou um ser constantemente criticável. Com o tempo passei a gostar das críticas que recebia, de modo que não mais consigo viver sem elas. São elas que me oxigenizam. Elas me incitam à escrita.
É de se indagar o seguinte: o que terá ocorrido? A resposta aparentemente complexa é na verdade por demais simples. Há, por exemplo, no Brasil uma forma de pensar majoritária, na qual alguns, dentre os quais me enquadro, não concordam. Quando estes manifestam seus posicionamentos é óbvio que eles receberão críticas da maior parte das pessoas, uma vez que estarão contrariando a forma de pensar “oficial”, isto é, comum à maioria. Se por um acaso a maior parte das pessoas gostar do que foi escrito é provável que os “escritores contraditórios” não tenham atingido o seu fito, a saber, contrariar a forma de pensar predominante. Assim, desde que passei a contrariar esse modus de pensamento, por considerá-lo nefasto, não mais consegui agradar. Foi assim que tive de me decidir entre agradar as pessoas ou contrariá-las. Optei por esta e me afastei peremptoriamente daquela.
Por isso mesmo, sempre que alguém for designado de contraditório é preciso que se faça a seguinte pergunta: contraditório ao quê? A quem? Contraditório à forma de pensar! Contraditório aos que pensam de forma concernente ao pensamento majoritário! Dito isso, não cultivem dúvidas de que, felizmente, sou um exemplo fidedigno de contradição.
Há alguns dias fui vítima de uma tentativa de assalto. Alguns dos que souberam do ocorrido se apressaram em dizer, mesmo que em tom amigável: “Bem feito, quem mandou ser contra o desarmamento!”.
Vamos primeiramente relatar em forma de síntese o que houve e, posteriormente, extrair algumas conclusões acerca da afirmação acima. O relógio marcava aproximadamente 16:30h. Cerca de duas quadras me separavam do local onde trabalho, considerado razoavelmente seguro. Caminhava pelo passeio, afugentando-me dos rigorosos raios solares, comuns nessas paragens, especialmente nesse período do ano. Levava um documento nas mãos e uma série de abstrações na cabeça. De repente fui surpreendido por duas pessoas, uma visivelmente de menor, numa bicicleta, que logo foi jogada ao chão. Apontaram uma arma em direção ao meu peito e disseram repetidamente em voz uníssona: Pára porra! Pára! Pára! Eles estavam à minha frente, de modo que davam como certo o êxito da abordagem. Eu, inexplicavelmente, os surpreendi (não só a eles, mas a mim também) e corri sem direção definida, passando ao lado deles. Enquanto corria, lembro que olhei para trás e vi um dos elementos mirando-me com sua arma. Imaginei que fosse atirar, mas, felizmente, não houve tiro e eu entrei numa oficina, onde recebi guarita de um grupo de mecânicos que logo se armaram com ferramentas e tijolos de uma construção ao lado. Os assaltantes sumiram como um passe de mágica.
Foi-me oferecido água. Enquanto bebia ouvia os mais variados comentários, seguidos de indagações e suposições, comuns em amontoados humanos. Dizia um dos presentes: “não é possível que estejam assaltando aqui, nesse horário”. Um outro, visivelmente revoltado, manifestou-se da seguinte forma: “nessas horas não tem polícia”. “Você saiu de algum banco?”. “Você tem dinheiro?”. Respondi duplamente não. Alguém no meio da pequena multidão que aos poucos se formava disse: “a arma atirou sabiam?”. Pessoalmente acho que não. Curiosamente a rua onde tudo ocorreu estava sendo palco de um velório. Apresso-me a dizê-los, que o velado não foi vítima de arma de fogo, mas de falência múltipla dos órgãos (não os órgãos estatais, embora estes também estejam falidos).
Agora, relembremos o comentário feito no parágrafo inicial: “Bem feito, quem mandou ser contra o desarmamento!”. E se eu não fosse teria mudado algo? Claro que não! O que estava sendo referendado era o fim ou não do comércio legal de armas e munição e não o desarmamento civil, uma vez que os bandidos continuariam armados. Independente do resultado eu não estaria portando uma arma. Ademais, a arma dos assaltantes dificilmente seria oriunda do comércio legal. E se a campanha do “SIM” tivesse saído vitoriosa teria mudado algo? Claro que sim! O que houve comigo iria acontecer cada vez mais, tendo em vista que as pessoas de bem seriam rigorosamente (ainda mais) privadas da compra de armas e munições no comércio legal, logo não teriam como se defender. Os assaltantes chegaram até mim por saber que eu dificilmente estaria portando uma arma. E se eu fosse, por exemplo, um policial será que eles teriam me abordado? Assim, posso afirmar que a alegação acima não procede.
O ocorrido também nos serve para uma outra reflexão, a saber: os defendentes do famigerado desarmamento alegam que ao reagir, a vítima aumenta em 181 vezes a possibilidade de ser atingida por uma bala. É óbvio, uma vez que os atingidos deixam registros, sejam nos IMLs ou nos hospitais, enquanto que aqueles que reagem e obtém êxito não vão a uma delegacia dizerem que matou ou baleou alguém. Eu, por exemplo, não perdi meu tempo indo à polícia dizer que fui vítima de um assalto mal sucedido, logo não serei, a exemplo de inúmeros, enquadrado no rol daqueles que reagiram a um assalto e obtiveram êxito.
Prometi, no post anterior, responder à indagação nele elaborada, a saber, por que Bush é designado de assassino enquanto que Castro e Chávez são tidos como heróis?
Antes, porém, quero uma vez mais deixar claro que não advogo as ações do governo Bush na íntegra. Feito o devido esclarecimento vamos então, a uma possível resposta, que, na verdade, me parece óbvia.
No caso específico do Brasil é digno de nota afirmar que há um predomínio dos pressupostos que representam a esquerda na cultura política (conjunto de atitudes, crenças, valores que correspondem a uma certa unidade). Não é difícil visualizar tal afirmativa no quotidiano. Olhem à sua volta e perguntem a si mesmos o seguinte: A maioria dos intelectuais brasileiros representa a esquerda ou a direita? Qual a inclinação política dos nossos artistas, aliás, onde estavam eles há alguns dias, se não defendendo causas absurdas como o desarmamento e o mandato do deputado José Dirceu? Qual a tendência dos docentes, àqueles que nos ensinam (quem estudou numa universidade sabe exatamente o que estou falando)? Quais os clássicos realmente valorizados em nossa pindorama, Marx ou Mises? Qual o livro mais lido, o Manifesto do Partido Comunista ou A Ação Humana? Que rosto encontra-se estampado nas camisetas dos jovens, Guevara ou qualquer personalidade que tenha, ao contrário deste, efetivamente ofertado uma valiosa contribuição à humanidade? Por fim, para não me tornar enfadonho, quem é mais odiado, Bush ou Chávez?
O país tem uma cultura política compatível com os anseios da esquerda e, por conseguinte, contrária aos valores de direita. Aprendemos com a esquerda que a direita representa o mal, ao passo que a esquerda é a verdadeira encarnação do bem. Uma representa a decadência, enquanto que a outra a salvação. Tal processo ideológico tem sido tão intenso e, por vezes, camuflado que não nos damos conta das distorções que são feitas. Por exemplo, o mundo torce para que Augusto Pinochet seja punido pelas suas atrocidades, mas poucos destinam a mesma torcida para um outro sanguinário, a saber, Fidel Castro.
Vivemos num país onde uma política editorial dominada, há décadas, pela militância esquerdista, oculta dos brasileiros autores e livros, simplesmente por serem contrários às mentiras que nos são passadas irresponsavelmente. Thomas Sowell e seus impagáveis The Vision of the Anointed (A Visão dos Ungidos) e Affirmative Action Around the World: An Empirical Study (Ação Afirmativa ao Redor do Mundo: Um Estudo Empírico) representam de maneira fidedigna o que digo. Poucos sabem, mas os volumes que nos chegam recebem pequenas alterações, não é mesmo senhor Emir Sader?
Assim, as esquerdas criam em seus comitês técnicos e consultivos causas que parecem ter nascido naturalmente no seio do povo, que na verdade nada mais é que uma grande massa de manobra, que reage a estímulos a exemplo dos cães de Pavlov. Enfim, a resposta à indagação feita no início do presente texto passa necessariamente pelo fato de haver uma cultura política predominantemente de esquerda que contempla propósitos como o anti-americanismo. Dessa forma, de nada adiata a economia de um país ser, por exemplo, supostamente liberal se a sua cultura política é socialista. Tal situação tem tornado aparentemente verdadeiro e imprescindível o que é falso e nefasto, gerando assim, um terreno cultural favorável às esquerdas. A idéia aqui exposta parece uma conspiração, mas os detentores de um mínimo de sensibilidade poderá visualizá-la na prática.
Não sou um defensor voraz do presidente George Bush, nem tampouco seu admirador incondicional, mas não sou favorável às mentiras propaladas pela esquerda mundial, que tem, através da criação de mitos absurdos, o desígnio de desestabilizar o governo norte-americano.
No Brasil, o país do passado, Bush é tido como um assassino, enquanto que o proto-ditador da Venezuela, Hugo Chávez, é ovacionado como modelo a ser seguido. O ditador Fidel Castro, por sua vez, embora seja o responsável pelo fuzilamento de inúmeras pessoas, é ídolo de uma multidão de desavisados, que mal sabe o significado da palavra imperialismo, mas, no entanto, estão lá gritando, fazendo jus ao seu papel, qual seja, de massa de manobra, nada mais. Indaga-se, portanto, por que Bush é designado de assassino enquanto que Castro e Chávez são tidos como heróis, santos e acima de qualquer suspeita? O que justificaria essa absurda prática de dois pesos e duas medidas?
Sugiro que você, caro leitor, atente para as três situações expostas a seguir. Tratam-se de mentiras que gradativamente adquiriram o status de verdade.
Recentemente Hugo Chávez resolveu alardear ao mundo a Operação Balboa, que, segundo ele próprio, consistia nos Estados Unidos invadir a Venezuela, matar seu presidente e ficar com o petróleo nacional. Imediatamente a imprensa de vários países, dentre os quais o Brasil, é claro, divulgou a informação como se fosse verídica, sem a menor preocupação em investigar sua veracidade. Coube à oposição chavista, acostumada com os despautérios do presidente venezuelano, investigar a informação e descobrir a verdade. Dessa forma, a Operação Balboa nada mais era que um documento básico elaborado para o Segundo Curso de Estado Maior Conjunto das Forças Armadas da Espanha. O documento datado do dia 3 de março de 2001 apresentava como objetivo a simulação de um ataque a um país (neste caso há três países hipotéticos envolvidos na operação: país azul, país marrom e país branco). Portanto, o que Chávez vociferou se tratar de uma invasão norte-americana ao seu país nada mais era que um treinamento das Forças Armadas da Venezuela em parceria com as Forças Armadas da Espanha.
Quem não ouviu a imprensa do mundo noticiar que não foram encontradas armas de destruição em massa no Iraque? Isso até hoje soa como uma verdade indubitável, certo? Ocorre que até agora foram encontrados 1,77 toneladas métricas de urânio enriquecido;
Continua para os que ainda não se cansaram...
Há alguns meses, precisamente em junho do ano em curso, o Paraguai concedeu aos militares dos EUA autorização para que eles realizassem em seu território exercícios que devem se estender até meados de dezembro de 2006 e envolver cerca de duzentos soldados e oficiais. O desembarque dos treze primeiros soldados foi o suficiente para que a mídia destilasse suas mentiras. Assim, segundo Olavo de Carvalho em artigo recente, o jornal boliviano El Deber, ampliou o número dos recém-chegados para quatrocentos e afirmou que a presença dos norte-americanos teria como fito a construção de uma base permanente, visando assim intimidar os bolivianos para que, no pleito do dia 5 de dezembro, não votassem
O Brasil, como sempre, também foi palco de invenções absurdas. O historiador Moniz Bandeira afirmou que as instalações americanas irão aquartelar cerca de 16 mil soldados. A revista Carta Maior, por sua vez, alertou que pela primeira vez a América do Sul teria bases estratégicas permanentes, na região de Itaipu. Observem que há uma overdose de mentira. O número de soldados foi absurdamente inflacionado. Criou-se a idéia de uma base, que na verdade não existe. E, por fim, foi ventilado certo interesse por parte dos norte-americanos em relação a nossa usina. Devem dizer por ai que iremos ficar no escuro por causa dos EUA. Para efeito de informação é necessário afirmar que atividades similares entre EUA e Paraguai vêm sendo desenvolvidas desde 1943.
Assim, nos é passada a falsa idéia de que tudo é culpa dos EUA; que o Bush é o responsável pela miséria do mundo. Enquanto isso a politicalha tupiniquim, seguidora dos pressupostos da esquerda, vai se eximindo da culpa. Ah, quanto às perguntas feitas ao final do segundo parágrafo as deixo por conta de vocês. A minha resposta será ofertada no próximo post.
Comumente nos deparamos com os mais variados encômios, embora muitos sejam falsos, assim como algumas críticas que, por vezes, são emitidas, por exemplo, por inveja ou ainda, devido o alvo da crítica não satisfazer o crítico que, mesmo sem a necessária fundamentação, resolve lançar seu veneno. Agora, caro leitor, diga-me se ainda não teve, mesmo que por alguns instantes, a curiosidade de saber como um inimigo se reportaria a você. Uma parte significativa de nós configura-se no tipo: “Fale mal, mas fale de mim”.
Ainda em virtude do natalício de Camus, ocorrido no último dia 7, segue abaixo um escrito de autoria de Jean-Paul Sartre, que tinha em Camus, após alguns anos de amizade, um voraz inimigo. O companheiro de Simone de Beauvoir, Sartre, escreveu esse texto um dia após a absurda morte que vitimou prematuramente o companheiro da vida, Albert Camus.
Albert Camus por Jean-Paul Sartre*
Camus era uma aventura singular de nossa cultura, um movimento cujas fases e cujo termo final tratávamos de compreender. Representava neste século e contra a história, o herdeiro atual dessa longa fila de moralistas cujas obras constituem talvez o que há de mais original nas letras francesas. Seu humanismo obstinado, estreito e puro, austero e sensual, travava um combate duvidoso contra os acontecimentos em massa e disformes deste tempo. Mas, inversamente, pela teimosia de suas repulsas, reafirmava, no coração de nossa época, contra os maquiavélicos, contra o bezerro de ouro do realismo, a existência do fato moral. Era, por assim dizer, esta inquebrantável afirmação. Por pouco que se o lesse ou refletisse a respeito, chocávamos com os valores humanos que ele sustentava em seu punho fechado, pondo em julgamento o ato político.
Inclusive seu silêncio, nestes últimos anos, tinha um aspecto positivo: este cartesiano do absurdo se negava a abandonar o terreno seguro da moralidade e entrar nos incertos caminhos da prática. Nós o adivinhávamos e adivinhávamos também os conflitos que calava, pois a moral, se se a considera, exige e condena juntamente a rebelião. Qualquer coisa que fosse o que Camus tivesse podido fazer ou decidir a sua frente, nunca teria deixado de ser uma das forças principais de nosso campo cultural, nem de representar a sua maneira a história da França e de seu século.
A ordem humana segue sendo só uma desordem; é injusta e precária; nela se mata e se morre de fome; mas pelo menos a fundam, a mantêm e a combatem, os homens. Nessa ordem Camus devia viver: este homem em marcha nos punha entre interrogações, ele mesmo era uma interrogação que procurava sua resposta; vivia no meio de uma longa vida; para nós, para ele, para os homens que fazem com que a ordem reine como para os que a recusam, era importante que Camus saísse do silêncio, que decidisse, que concluísse. Raramente os caracteres de uma obra e as condições do momento histórico exigiram com tanta clareza que um escritor viva.
Para todos os que o amaram há nesta morte um absurdo insuportável. Mas, teremos que aprender a ver esta obra truncada como uma obra total. Na medida mesmo em que o humanismo de Camus contém uma atitude humana frente à morte que havia de surpreendê-lo, na medida em que sua busca orgulhosa e pura da felicidade implicava e reclamava a necessidade desumana de morrer, reconheceremos nesta obra e nesta vida, inseparáveis uma de outra, a tentativa pura e vitoriosa de um homem reconquistando cada instante de sua existência frente à sua morte futura.
*Este texto foi extraído da página “Albert Camus em português”, que se encontra linkada ao lado.
Não fosse a Luz, a quem agradeço, teria me esquecido do natalício de Albert Camus, comemorado ontem, dia 7 de novembro. Camus me serviu de inspiração parcial para criar o juvenília, logo não poderia ter esquecido tal data. Ocorre que não sou dado a datas, a nomes ou a fisionomias. Enfim, esqueço de quase tudo, inclusive do que me é imprescindível. Sou um tipo que não lembra de olhos, cabelos, profissão, hábitos, números, mas de palavras e ações. Todavia, tentarei abaixo me redimir contando-lhes um pouco mais sobre o “filósofo do absurdo”.
Se Camus tivesse vivo estaria completando 82 anos. Contava apenas 47 primaveras quando pereceu, deixando sua obra incompleta, embora ache que em se tratando de Camus, incontáveis vidas não seriam suficientes para concluir sua obra. Mas quem foi Camus? Sinceramente, não tenho a menor idéia. Nem eu, nem ninguém. Camus sempre foi uma interrogação em néon. Uma fabulosa incógnita. Ele visava o questionamento não a explicação ou fundamentação de qualquer teoria, ao contrário da maioria de seus contemporâneos. Sua forma de escrever representa um dos mais intrincados estilos literários que se tem notícia, já que se lança com maestria entre a ficção e a não-ficção, entre o que pode ser considerado filosófico e o que é literatura. Eis, concomitantemente, o seu mérito e o seu risco. Um exagero que o leva a dose certa e a todos nós, felizmente, a uma overdose literária.
Filósofo ou poeta? Ambos! Argelino ou Francês? Ambos? Partiu de uma pobreza absurda, que amargou a sua infância, e se dirigiu a uma riqueza intelectual estupenda, que adoçou muitos olhares. Sobre o exposto disse o seguinte: “A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história; o sol ensinou-me que a história não é tudo”. Contrariou o ex-amigo Sartre e suas idéias de cunho marxista. Rompeu corajosamente com os comunistas. Existencialista? É de se duvidar, embora com reservas.
“A felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra. São inseparáveis. O erro seria dizer que a felicidade nasce forçosamente da descoberta absurda. Acontece também que o sentimento do absurdo nasça da felicidade”.
“Não há vergonha alguma em ser feliz”.
“Você sabe o que é o encanto? É ouvir um sim como resposta sem ter perguntado nada”.
Diante disso, vos convido, caros juvenílicos, a conhecerem o vultoso espírito de Camus. É uma experiência única que, certamente, marcará suas vidas.
Descendo a Serra
(H. Gessinger)
Tô descendo a serra
Cego pela serração
Salvo pela imagem
Pela imaginação
De uma bailarina no asfalto
Fazendo curvas sobre patins
Tô descendo a serra
Cego pela neblina
Você nem imagina
Como tem curvas esta estrada
Ela parece uma serpente morta
Às portas do paraíso
O inferno ficou para trás
Com as luzes lá em cima
O céu não seria rima
Nem seria solução
Um dia de cão
Um mês de cães danados
Ordem no caos
Olhos nublados
Um cão anda em círculos
Atrás do próprio rabo
Um dia de cão
Um mês de cães danados
Ordem no caos
Olhos cansados
Não há nada de novo
No ovo da serpente
É sempre a mesma história
(é tão difícil partir)
É sempre a mesma história
(é impossível ficar)
É sempre mais difícil dizer adeus
Quando não há nada mais pra se dizer
É muito mais difícil dizer adeus
Quando não há nada mais pra se dizer
Estou com medo do novo! Estou com medo de novo! O que sairá daquele ovo que começa a trincar? Uma serpente? Um corvo? Uma bailarina a patinar? O que dirá o povo, que começa a falar? Um estímulo? Um estorvo? Dilúvio de lama que respinga em meu mar? De onde vem o medo do futuro? Para onde foi a coragem do passado? Quem conhecerá tal segredo? Aponte-me com o dedo. Quem será? O que esconderá o escuro tão velho e prematuro? Na minha vaga lembrança não há onde estacionar. E após a curva, o que há além de uma claridade que chega a ofuscar? A escuridão e o medo desde sempre me namoram, mas amo a Luz desde outrora! É ela que me faz enxergar!