
Escuridão, frio, nada além nem aquém de mim. Encontro-me em lugar nenhum, perdido nas profundezas da minha inconsciência fertilizada. A solidão me apavora e o medo me afligi. Não há nada em que acreditar. Não há convicções nem responsabilidades. Crenças e objetivos se desfizeram repentinamente no ar. Eu sou o único, embora não saiba porquê. Na verdade, não sou, já que no mundo do nada não há como ser algo. Talvez eu seja meramente um elemento inanimado que resolveu tentar se animar com questionamentos fúteis.
Como sair do labirinto da inconsciência? Há realmente saída? Não suporto a monotonia, embora esteja condenado a ela. O que fazer então? Algo me diz que estou dentro de mim e a procura de alguém que está fora de si. Mas como encontrar alguém se não há ninguém? Estou em volto de dúvidas, inclusive em relação a minha existência. Novamente sou incitado por algo desconhecido a procurar meu complemento. Tudo é escuro, não há norte, nem sul. Não há tempo nem espaço.
Baseado em Lavossier chego a conclusão que existo, já que penso. Se sou um ser pensante tenho vida. Aristóteles nos disse que não há como viver sozinho, logo preciso de alguém. Por infelicidade das circunstâncias, a lógica para por ai, tendo em vista, que não sei quem devo encontrar, muito menos se há alguém além de mim. O que seria da razão sem a emoção? Se é possível pensar, imagino ser possível sentir. Tentarei então, sentir com inteligência e pensar com emoção como diria o velho Gessinger.
Decepção, desespero, imobilismo. Pareço um utópico militante com causas inquestionavelmente perdidas. A pasta densa e escura que preenche minha retina não foi suficiente para me impedir de descobri a razão e a emoção. Depois disso, o que me falta? Posso pensar e sentir. Sinto o pensamento e penso o sentimento. Sendo assim, posso responder que o que me falta é você! Você tem que existir! Por ironia, a procurei em todos os lugares e você sempre esteve em mim. De repente a sinto, a vejo impecavelmente linda. A escuridão torna-se repentinamente uma longínqua lembrança. Você passa a ser a luz que tanto procurava e que passará a me guiar.
A sua iluminada beleza me envolve e me consome. Finalmente estou completo. Uma vez abraçados, fugimos para não mais nos desencontrarmos. Somos dois num só.
Texto do mestre Camus escrito nos idos de 28 de janeiro de 2004. Talvez seja a origem de tudo... Quem sabe?
Lua
Esta história que irei relatar agora, me tornou o que sou hoje, embora não saiba exatamente o que eu seja. Diante disso pergunto-me: que sentimento devo cultivar em relação a minha querida lua? Agradecimento? Fúria? Torpor?
Sexta-feira, tarde do dia 20 de Julho de 2001. Após uma viagem estafante, em que contei setenta e cinco porcos pelo caminho, me deparei com uma imagem que me chamou atenção logo que detectei incontáveis diferenças entre ela e as demais formas ao seu redor. Simplicidade, felicidade, divertimento, originalidade e beleza, eram alguns atributos inerentemente seus. Tratava-se de qualidades que enriqueceria qualquer mulher e que certamente foram as principais responsáveis pelo meu envolvimento irremediavelmente imediato. Não conseguia deixar de olhar para ela, é como se por alguns segundos só existisse eu, ela e uma avassaladora vontade de tocá-la e conhecê-la. Esta fantástica exultação durou até o momento em que saiu de cena, se desfez no ar entre um piscar e outro das pálpebras. Mantive-me com a esperança de voltar a vê-la, mesmo que por alguns comensuráveis segundos.
Cai a noite na cidade de Oran e durante uma tradicional festa local, meus olhos felizes voltam a refletir a bela imagem, como da vez anterior, alegre e divertida. A partir de então lhe perseguia com o olhar, por todos os lugares em que fosse, alguém olhava para ela, e esse alguém era eu, sempre e impulsivamente eu. Em um determinado momento, finalmente a capturei com o olhar e ela passou então, a olhar para mim com suas lindas retinas verdes. Os olhares se cruzaram várias vezes, mas a nossa timidez, a nossa fraqueza diante de um inexplicável e fortalecido sentimento, nos impediu de nos aproximarmos. Pensei várias vezes, que infelizmente não seria possível conhecê-la, teria que me satisfazer em admirá-la à distância. A felicidade estava ao alcance da mão e ao mesmo tempo inacessível, denunciando assim, o cúmulo do limite. Os obstáculos eram mais fortes que a minha coragem, que por vezes, é batida pela mais frágil dificuldade. Estava prestes a desistir e me arrepender por infinitos dias, quando a amiga dela, Dalva, a quem até hoje devo muito, se aproximou e falou o que eu mais queria ouvir naquela noite:
- a minha amiga quer falar com você, o que acha?
Sem hesitar aceitei de imediato, mas antes da amiga se direcionar a ela, foi ela quem veio até nós, perguntando o que já sabia:
- o que ela falou? - disse-nos.
Sua voz soou calmamente, numa deliciosa e aguda harmonia. Não acreditava, mas ela estava ali diante de mim, seus lindos olhos refletia a minha cambaleante imagem. Procurei mil palavras e não encontrei uma só, o meu silêncio espalhou-se pela noite e só foi interrompido por sua afetiva e inconfundível voz:
- Não vai me dizer o que ela falou? – Insistiu sorrindo.
Diante de uma coragem inesperada disse-lhe:
- Ela me disse o que você desejava me dizer e o que eu almejava ouvir!
O seu suspiro em tom de satisfação mesclado com alívio povoou a minha face. Não carecia dizer mas nada, mesmo que quiséssemos não poderíamos, as mãos já estavam entrelaçadas. Aquela perfeita noite nos proporcionou intermináveis momentos felizes, nos sentíamos bem em estarmos juntos em sermos um só. Foi lindo ver o raiar do amanhecer ao seu lado, ver a substituição do frio da noite pelo calor do astro rei.
No dia seguinte, a felicidade estava estampada no meu semblante, agora poderia vê-la de mais perto, poderia tocá-la e assim saber que tudo era real. Voltamos ao cenário em que a conheci, só que dessa vez, estava desde o início ao seu lado. A encantadora noite por mais dois dias nos faria companhia, presenciando momentos em que dois seres se complementam, confundindo até mesmo a mais perfeita visão, que não sabia onde começava um e terminava o outro. Não havia nada ao nosso redor, além de beijos, abraços, sussurros, carícias, é como se não houvesse a necessidade de algo mais.
Dia 23 pela manhã, a ausência repentina daquela que tanto procurei me deixou dilacerado. Me senti perdido e comecei a achar que tudo resumiu-se a um belo sonho que passou e não voltará mais, que me escapou como a areia da praia por entre meus finos dedos. Vários foram os dias difíceis, até que ela entrasse em contato e rejuvenescesse a minha felicidade. Como ela conseguiu me encontrar? Isso não importava, mas sim o fato de tê-la novamente.
Disse-me que iria me visitar e depois sua voz calou. Não tive tempo nem para dizer o quanto sentia sua falta. Passei a olhar para o céu e imaginá-la todas as noites. As nuvens se transformavam em suas curvas, o vento soava no meu ouvido como se fosse sua voz, a noite me revestia como se fosse os seus abraços. Foi assim que passei vários dias. Não a via em sua essência real, mas a sentia sempre. Minha memória era revitalizada todas as noites, mas as lembranças dos repentinos momentos em que a tive ao meu lado estavam devidamente intactas.
É ela que desde então, contemplo toda as noites. Me tornei um ser lunático.
A saga de um sem-teto – Parte II
Continuando a nossa jornada em busca de um teto para abrigar o corpo de mestre Camus – sim, o corpo, pois as idéias estas correm livres, sem amarras, talvez em direção a um norte que não consigo vislumbrar, mas Camus tem lá suas idéias e ideais... Mas deixemos de elucubrações e voltemos à saga do sem-teto.
Saímos do buraco e fomos em busca da segunda opção de Camus. Segundo o anúncio, era um quarto-e-sala, bem localizado na geografia de nossa cidade e com um preço extremamente agradável ao bolso. Quando lá chegamos, descobrimos tratar-se de uma senhora, viúva, que morava num imenso casarão e resolveu alugar a “casa de hóspedes”. Nada melhor para o que Camus procurava, um lugar agradável, bem silencioso, em que pudesse debruçar-se sobre seus escritos, suas idéias e suas juvenilidades.
Ocorre que a dita senhora era completamente surda. Ao chegarmos, nos identificamos e demonstramos nosso interesse em alugar o apartamento. Ela nos responde que ali não mora nenhum sargento. Camus, com a fleuma que lhe é peculiar, explica-lhe que fomos por conta do anúncio de aluguel. Ela responde que não faz pastel. Camus novamente explica-lhe que está procurando lugar para uma nova morada, ao que ela lhe responde não fazer a menor idéia de quem seja sua namorada. Eu, de paciência curta, entro logo no carro e chamo Camus para irmos embora. Ele ainda vai se despedir da velhinha. Ela então lhe pergunta se ele não sabe de alguém que queira alugar um quarto-e-sala muito bom. Camus se anima e diz-se interessado, ao que ela lhe responde que tudo bem, pode ir já que está tão apressado...
Não lhe deixei terminar este diálogo surreal. Partimos em busca da terceira opção. Desta vez os fundos de uma residência em que morava um casal de aposentados. A entrada para o quarto que estavam alugando era feita por um portão lateral à casa. Enquanto nos ia explicando as condições de pagamento, formas de conduta que Camus deveria adotar se locasse o referido imóvel, íamos avançando por um mar de capim, guiados por um pequeno e estreito caminho. Seguíamos em fila indiana. Lá chegando, descobrimos que o quarto não possuía janelas. A única entrada de ar era pela porta. Avisei a Camus que se não quisesse morrer sufocado, deveria dormir com a porta aberta. “Não, de forma alguma!” avisa-nos o proprietário. “O senhor deve sempre manter a porta bem fechada, senão o Luke entra”. Indagado sobre quem era Luke, mostra-nos um pouco mais ao fundo uma jaula onde dormitava o maior Fila Brasileiro que já vi em minha vida. Disse-nos o gentil proprietário que todas as noites às 21h30, religiosamente, solta o Luke e, conseqüentemente, Camus deveria estar “entocado” em seu quarto antes disso. Explicou-nos também que seria importante que Camus mandasse limpar todo aquele capim, para que Luke pudesse ter maior mobilidade.
Muito agradecido, Camus tomou a iniciativa das despedidas e arrasta-me de volta ao carro. Quase não consigo dar a partida de tanto sorrir. Imaginei Camus voltando para casa com mais enzima do que o habitual e fazendo camaradagem com Luke, deixando o pobre senhorio atônito ao acordar pela manhã e encontrá-los abraçados e deitados sobre as imensas moitas de capim...
Para poupar os juvenílicos de mais dissabores, encurto a história dizendo que conseguimos encontrar uma toca para o pobre Camus repousar. O apartamento é bem aprazível, bem localizado, com uma profusão de bares em volta que permitem ao nosso amigo sempre abastecer-se de suas enzimas, mas que não propiciam um dos melhores ambientes para reflexão e estudo, como seria de sua vontade. O que mais me agrada é que a cada segunda-feira ele me conta histórias e cenas pitorescas que, de sua posição privilegiada consegue vislumbrar, durante suas madrugadas insones a contemplar a luz que reveste a lua.
MaC.
Prezados leitores deste Juvenília, como sabem, Camus deixou-me a incumbência impossível de substituí-lo durante sua ausência em merecidas e esperadas férias. Possuidor de um grande apreço por este sujeito, e apenas por isso, retorno ao mundo bloguístico para a manutenção deste excelente espaço.
Como o Juvenília não me pertence, não posso dar a ele o cunho pessoal que guiava o extinto Confabulâncias. São universos e idéias diversas. Entretanto, tomo a liberdade de publicar um escrito que ficou incompleto por lá e diz respeito ao nosso amigo. Espero que gostem...
MaC.
A saga de um sem-teto – Parte I
Meu amigo Camus resolveu fugir de casa. Para tanto, precisava encontrar um novo recanto. Imbuído do espírito de camaradagem que sempre permeou nossa relação de amizade, propus-me a ajudá-lo nesta empreitada. Consultados os classificados imobiliários e selecionados os que talvez mais agradassem, partimos à cata de sua toca.
A primeira escolha foi um apartamento sobre um comércio. O proprietário do imóvel era o próprio comerciante. Lá chegando, fomos encaminhados a um senhor de bermudas, chinelos, camisa abotoada apenas até o umbigo, parecido com Karl Marx, que mascava fumo. Empolgado por nos ver atrás de seu imóvel, conduziu-nos pessoalmente à exposição do mesmo. Aí é que começa a saga: primeiro tivemos que subir por uma escada externa, que Newton ainda não conseguiu explicar como se sustenta tal obra arquitetônica (poupo-lhes os detalhes técnicos de engenharia utilizados para a confecção e sustentação de tal escada). Camus olhou-me apavorado diante da perspectiva de escalar tal precipício. Ao que contemporizei explicando que ele subiria só, não havendo o excesso de peso que agora contemplávamos, entretanto, sua escalada com a quantia habitual de enzima no sangue, fatalmente o conduziria a um vôo livre com pouso forçado sobre os escombros logo mais abaixo, mas, bastava que ele virasse abstêmio...
Chegados ao topo, fiquei profundamente empolgado com o fato de não haver porta e sim um buraco, irregular e baixo que nos permitia a entrada ao recinto. Devidamente avisados de que deveríamos baixar a cabeça ao entrar, isso porque o Karl Marx arrebentou a testa diante de nossos olhos incrédulos. Camus quis dar meia volta e eu não permiti, interessado que estava em conhecer a profundidade daquele buraco de rato. Quando entramos, percebemos que se tratava de um amplo aposento, com três cômodos interligados. O único problema é que os primeiros estavam abarrotados de mercadorias do comerciante. O último é que seria o disponível para Camus se instalar. Ocorre que este não possuía janela alguma. Sentimo-nos num verdadeiro sarcófago, tamanha era a opressão do ar que lá estava alojado desde os tempos imemoriais de sua construção.
O proprietário, empolgado, nos sugeria lugares para cama, cômoda, cadeiras e coisas do gênero. Eu sugeri a Camus que comprasse uma mangueira de uns 30 metros de comprimento. Sem entender bem a sugestão, ele me pergunta o por quê de tal aquisição que a mim parecia óbvio: usa-la-ia como respiradouro, permitindo assim a sua sobrevivência enquanto lá estivesse.
Não suportando mais o ar daquela catacumba, Camus encurtou a conversa perguntando logo ao proprietário o valor que seria necessário à permanência naquele paraíso. A resposta dada pelo Karl Marx foi uma pornografia que me recuso a reproduzir por cá. Vendo nosso espanto, ele deu uma cuspida negra de fumo mascado, que respingou em todo o piso e quase nos mancha as calças se não tivéssemos “discretamente” pulado para trás e disse: “Mas nós podemos negociar...”
Agradecidos e emocionados, saímos pelo buraco da entrada como sobreviventes de um terremoto ou de uma avalanche. Nunca ficamos tão alegres em sentir o calor do sol de nossa Chapada e o vento quente que soprou em nossos rostos. Descemos trôpegos as escadas que nos avisaram que talvez não mais suportassem uma nova subida e partimos em busca da segunda opção de Camus.
(Continua no próximo post)
Caros juvenílicos, estarei durante o mês de julho desfrutando de imprescindíveis e desejadas férias. Diante disso, deixarei o blog sob a tutela do inestimável amigo MaC, que gentilmente se dispôs a abandonar o ostracismo e ficar com a incumbência de atualizar as postagens. Portanto, vocês estarão em ótima companhia.
Vou à Estação, que me levará aos braços de minha encantadora Luz, a mulher que me ilumina o caminho. Dessa forma, nada melhor que deixá-los com uma letra que expõe fidedignamente a nossa história, por vezes, já relatada. Abraços a todos e que nos mantenhamos em contato, através do singelo juvenília.
Julho De 83
Composição: Thedy Corrêa
Acho que era julho de 83
Eu sempre esqueço do dia
Mas lembro do mês
A gente mal se conhecia
Nos vimos apenas uma vez
Mas foi como a fotografia
De um velho filme francês
Não fosse a roupa que eu vestia
Naquele estilo new wave
Quem sabe eu conseguiria
Chegar perto de você
Adolescência vazia
Eu tinha quase 16
Ninguém me compreendia
E eu não compreendia ninguém
Fiquei ali sentado
Sentado sobre as mãos
Pensando em te perder
Querendo te encontrar
E foi então que aconteceu
Você me viu olhar
E veio em minha direção
Sorrindo disse: Olá
E neste dia começou
A nossa história
Que continua até hoje
E só parece melhorar