Albert Camus

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim,
mas apenas um começo...

Albert Camus






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Acessos Juvenílicos:






Resposta ao Sr. Nick

Dentre as reações ao que tenho publicado no juvenília, destaca-se especialmente a de alguém que se identificou como Nick, num comentário do dia 14 de junho. Eis o comentário na íntegra:

"Cara, para mim você não passa de um tucano com plumagem de urubu. Fica, cheio de razão, disseminando seu ódio para alguns inocentes. Você é um cara prepotente, racista e neoliberal. É melhor continuar falando de amor mesmo, pois em política você é analfabeto. Espero que o diabo te carregue".

Trata-se de um comentário, a priori, puramente acusatório e sem argumentos plausíveis para questionar minhas afirmações, bem como apresentar alternativas a elas. O comentador faz uso de uma estratégia covarde, isto é, critica as idéias por mim proferidas, através de rótulos simplistas e falsos, além de tecer agressões na tentativa de me desqualificar, sem, no entanto, apresentar justificativas, o que impede o debate. Dessa forma, tanto o meio empreendido quanto o fim desejado são por demais desonestos e limitados. Ainda assim, achei por bem responder o Sr. Nick, num post específico.

Sinceramente não sei de onde você extraiu elementos para me designar "tucano". Seria por demais interessante demonstrá-los e não se limitar a me acusar. Contudo, entre ser tucano e petista prefiro o primeiro, por ser menos aparelhista, embora defensor de idéias que a realidade já demonstrou ser absurdas como o desarmamento civil. Quanto a disseminar o ódio, prefiro deixar por conta dos leitores, de modo que me limito a questionar o seguinte: Quem teria efetivamente ódio, eu ou você, caro comentador? Em caso de dúvida, caros leitores, releiam o comentário acima.

Seria eu um "prepotente"? Não me considero poderoso, influente, nem muito menos opressor, logo acredito se tratar de um exagero de vossa parte qualificar-me como tal. Imagino que você tenha me designado de racista por ter manifestado minha contrariedade em relação as cotas raciais. É preciso conceber que os verdadeiros racistas são os defensores de tais cotas, se não vejamos: predileção de uma raça sobre a outra é ou não racismo? Advogar um sistema de preferência em que a melanina é critério de seleção, ao invés do mérito, é ou não racismo? Desculpe-me, caro comentador, mas você está invertendo os papéis, isto é, está demonstrando ser mais uma pobre vítima da nefasta inversão de valores tão em voga em nossa pindorama.

Quanto a acusação de ser "neoliberal", me aterei mais demoradamente por considerar que tal questão mereça um tratamento diferenciado, uma vez que as definições que lhe são impostas são por demais equivocadas. Sou rigorosamente contrário ao modelo estatal brasileiro e atribuo a ele culpa significativa pelo atraso em que se encontra o país, vítima de uma tributação astronômica que bloqueia o progresso. O Estado tupiniquim sofre de elefantíase aguda e precisa passar por uma intensa lipoaspiração, reduzindo seus gastos e diminuindo sua intervenção na sociedade. Trata-se de uma instituição, que tem dentre o vasto leque de males causados à sociedade, a redução drástica das cotas de liberdade individidual, impedindo o desenvolvimento, através de sua burocracia e o estímulo à corrupção. Se isso for ser neoliberal, não tenha a menor dúvida que sou sim neoliberal.

Continua abaixo...



:: Escrito por: Camus às 12h48
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Agora, é digno de nota esclarecer que o termo neoliberalismo foi cunhado e manipulado pejorativamente pelos intelectuais de esquerda, especialistas em sofismas, com o propósito de desqualificar o postulado liberal, defensor da redução do Estado. Atribuíram a tal termo a culpa pela miséria das nações latinas, como se não houvesse miséria antes do neoliberalismo, ignorando as verdadeiras causas, quais sejam, as políticas patrimonialistas, estatizantes e socialistas perpetradas pelos mais variados governos e com as quais a própria esquerda tanto se identifica.

O neoliberalismo surgiu com o advento do Consenso de Washington, que consistia em algumas medidas propostas pelo economista John Williamson, a serem adotadas em países da América Latina, visando superar o atraso econômico da "década perdida" de 1980. Trata-se de um receituário relativamente racional, já que advoga algumas medidas necessárias como a liberalização do comércio e a desregulamentação para estimular a abertura de novos negócios. Mas o Consenso de Washington não pode ser considerado uma proposta liberal, como insistem os "intelectuais" da esquerda, principalmente por defender a elevação da carga tributária como solução para o déficit fiscal, ao invés de sugerir a redução drástica dos gastos governamentais de custeio, como seria lógico. Se o neoliberalismo favorece o aumento da tributação e eu sou contrário a tal medida, logo não sou "neoliberal" para a vossa decepção, caro comentador, embora seja sim favorável a implementação de algumas medidas constituintes do supra consenso.

Talvez eu seja politicamente "analfabeto", mas, ao contrário do presidente Lula da Silva, não tenho a soberba de querer ensinar política aos cientistas políticos. É lamentável que, sobretudo, os esquerdistas, bem como você, caro comentador, não saibam discutir democraticamente as idéias, preferindo atacar pessoalmente seus opressores, taxando-os com termos vagos. Dessa forma, ao manifestar contrariedade aos desmandos da burocracia estatal, que emperra o desenvolvimento e estimula a corrupção, sou taxado de neoliberal; Se me coloco avesso ao famigerado Estatuto do Desarmamento Civil, por ser inconstitucional, agredir os direitos de propriedade e de autodefesa, já que o Estado não os garante, sou tido como alguém a serviço da indústria de armas ou da "Bancada da Bala"; Se, por outro lado, teço críticas ao sistema de predileção racial, que é por demais racista e pueril, além de gerar o ódio entre as raças, sou chamado de racista e adepto da Ku Klux Klan. Enfim, em todos os casos as idéias não são criticadas, mas desqualificadas, juntamente com quem as emitiu, sem nenhum argumento plausível.

Quanto à sua última afirmação, caro comentador, diria o seguinte: se a esquerda manter-se no poder como há anos vem acontecendo e, por conseguinte, não surgir um projeto sério, baseado nos princípios verdadeiramente liberais do ponto de vista econômico e conservador, do ponto de vista moral, isto é, norteado pela tradição judáico-cristã, não tenha dúvida que eu serei o primeiro a clamar para que o diabo me carregue, pois esse torrão ficará, certamente, pior que o inferno. Aos que considerarem exagero, sugiro que relembrem ou procurem saber o que houve com a ex-URSS, a China e atualmente com Cuba, o exemplo a ser seguido pelo atual governo.

Resta-me afirmar que a ausência de críticas contundentes, por parte do comentador, deve-se a impossibilidade em se defender, que não através da desonestidade intelectual, idéias estapafúrdias, carentes de realidade.

Obrigado por vosso comentário.

Camus.



:: Escrito por: Camus às 12h46
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Se Lula ouvisse Bacon...

Diante dos últimos acontecimentos registrados no cenário (circo seria mais adequado) político e de mais uma infeliz bravata do presidente Lula (mula seria mais adequado) da Silva, dando conta de seu intacto monopólio da ética, resta-me deixá-los, caros juvenílicos, com uma pérola de Bacon, que nos serve como uma indispensável lição.

“A verdade é filha do tempo, não da autoridade”.

(Francis Bacon)



:: Escrito por: Camus às 15h48
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A ignorância de nossa inteligência

É por demais lamentável o posicionamento da intelligentzia brasileira frente aos fatos que nos circundam. Era de se esperar que, por ser produtora de conhecimento e formadora de opinião, manifestasse uma postura isenta e responsável, no entanto, não é o que se verifica cotidianamente. O exposto pode ser constatado na entrevista do cientista político Wanderley Guilherme dos Santos à edição da semana passada da revista Carta Capital, em que teceu afirmações que merecem comentários, especialmente, por ser considerado, nos termos utilizados pela aludida revista, "um dos mais renomados e respeitados acadêmicos do País".

Wanderley dos Santos começa dizendo que a oposição busca aplicar um "golpe branco" contra o governo Lula e que o "currículo" do deputado Roberto Jefferson não lhe concede a credibilidade necessária para que suas denúncias tenham tamanha repercussão. É notório que o aludido deputado tem conduta questionável e que a causa medular das denúncias, talvez se deva a uma insatisfação particular junto ao governo, mas, por outro lado, trata-se de uma denúncia grave e, portanto, deve ser apurada. Enfim, o caráter de Jefferson não torna suas declarações desmerecedoras de investigação.

O eminente representante da intelectualidade brasileira advoga que a oposição em parceria com a imprensa tem o propósito de caracterizar uma crise no cenário político brasileiro. "Desde janeiro de 2003 temos tido sucessivas rodadas de denúncias nos jornais acompanhadas de seguidas pesquisas indicando que, no entanto, a imagem do presidente não era afetada. Isso tem sido desesperador para a grande imprensa". De que imprensa estaria falando o cientista político? A prostituta estatal que ai se encontra e que tem empreendido, juntamente com a intelligentzia (eis o próprio Wanderley), um esforço brutal para tentar salvaguardar o mito do patrimônio ético das esquerdas? Francamente!

Segundo Wanderley, o governo Lula da Silva tem obtido êxito, de modo que resta aos tucanos apoiar uma instabilização "com base em nada". Digam-me, por favor, em que paradeiro se encontra a eficiência do atual governo? Suas promessas irrealizáveis estão desembocando na sarjeta, na medida em que o final do mandato se avizinha. Suas ações, especialmente sociais, demonstram que sua incompetência somente é comparada a sua soberba. Restaria então, a área econômica que muitos dizem equivocadamente ser promissora. O governo vive em função dos pífios resultados deixados pelas gestões anteriores, nada mais. Agora, imaginem uma gestão confusa e auto-flagelada como essa enfrentando uma crise de natureza internacional. Que Deus nos proteja!

"Instabilização com base em nada"? O governo está sendo acusado de pagar a deputados com o erário público R$ 30.000,00 por mês e isso é considerado nada? A cifra é realmente pequena para os patrícios da política acostumados com valores infinitamente maiores, mas para o "contribuinte", é extremamente vultosa, além de imoral e irresponsável. O deputado Miro Teixeira tem razão ao dizer que a ausência de provas não torna a denúncia ignorável.

Há atualmente no Brasil, segundo Wanderley, uma "oposição musculosa como não havia, por exemplo, no governo Fernando Henrique"? Para Santos a acusação de que o PT estaria pagando o "mensalão" a deputados não teria provocado tanta repercussão durante o governo Fernando Henrique. É bom que se diga que quem enrijeceu os músculos da oposição foi o próprio governo, diante de tantos despautérios. Basta lembrar que antes da eclosão dos primeiros escândalos a oposição inexistia, de modo que se falava inclusive em "oposição responsável", que de oposição não tinha nada, muito menos de responsável.

A propina também foi denunciada no governo Fernando Henrique. Agora, se não foi tanto quanto no governo Lula da Silva, isso se deve ao fato do PT sempre se apresentar como o detentor exclusivo da ética na política. Atentem para o que disse Lula ontem na cerimônia de abertura do Congresso Nacional de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária, em Luziânia-GO: "Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que eu para fazer o que precisa ser feito nesse país". É preciso acabar com o nefasto mito do patrimônio ético das esquerdas, antes que elas acabem com o país.

Por fim, se for para aprender com a intelligentzia tupiniquim, fiquemos então, ignorantes.



:: Escrito por: Camus às 15h37
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A terceira e última parte de uma história sem fim

Enquanto se apreciavam como sempre e concomitantemente como nunca, um feixe de luz driblou silenciosamente a persiana e invadiu apressadamente o quarto, dando indício de dia a quem pensava ainda ser noite. A luminosidade emitida pelo astro rei, que lhes dava as boas-vindas, após a imperceptível despedida da "concha de prata", foi refletida por uma moldura de vidro, que enquadrava um inseparável casal de pingüins, de modo que formou um arco-íris. Somente então, acordaram para a realidade que os cercava e constataram, embora receosos, que não se tratava de mais um sonho, mas de sua concretização.

Para ambos, o mundo se limitava àquela cama. É como se não houvesse a necessidade de mais nada. Estavam plenamente realizados naquele pequeno planeta retangular, onde o sentimento majoritário era o amor. Ele se limitou a observá-la com um olhar profundo, quase catatônico, até que as lágrimas rolaram face abaixo. Ela repetiu espontaneamente o gesto. Um abraço os tirou temporariamente dali e os levou para alhures. Essas constantes viagens imaginárias eram decorrentes da felicidade do que viveram e da tristeza do que deixaram de viver. Anos de buscas incessantes sem nenhum resquício de êxito. Períodos em que a esperança esteve à beira do abismo, preste a se atirar. Diante de tanto tempo perdido o mais comum seria não mais se separarem, mas ambos sabiam que mais uma vez a Estação serviria de interseção entre eles, embora por pouco tempo, é o que esperavam.

A separação vos ofertou duas opções: continuar a vida separadamente ou abdicar dela. Manter-se vivo geraria sofrimento, mas permaneceria a possibilidade de um futuro, embora pouco provável, encontro. Abandonar a vida, talvez, cessaria o insuportável sofrimento, mas, por outro lado, acabaria de vez com a ínfima possibilidade de reencontro. Ademais, o amor não acontece em corações covardes. Dessa forma, ambos ao seu modo, optaram por vivenciar o sofrimento acreditando no reencontro. Amargurariam-se no presente para amarem-se no futuro. Como estavam separados, sem que um soubesse o paradeiro do outro, se quer se estava vivo, construíram suas vidas de maneira independente. Tal intento fez com que ambos se fixassem demasiadamente em seus respectivos mundos, tão distintos daquele mundo que lhes era comum, criando inconscientemente raízes profundas e difíceis de serem desarraigadas.

Ela passeia timidamente com o seu olhar pelos quatro cantos do imóvel até fitar o parceiro, a quem diz:

- Tudo é tão perfeito que mais parece um sonho.

- Sempre achei que a perfeição fosse uma utopia– diz ele, deslumbrado.

Deitados, um de frente para o outro, ela diz – Pensei que essa hora não fosse chegar.

- Eu sempre soube que chegaria, só não sabia quando!

- Não quero mais perdê-lo de vista. Quero que sejamos como aquele casal de pingüins – aponta o dedo para a moldura de vidro – Eles são inseparáveis.

- Sempre fomos iguais aos pingüins! Sempre fomos um do outro!

Dias de felicidade plena se passaram, até que mais uma vez, ambos estavam diante daquele traumático cenário: a Estação. Ela tinha que partir e de novo, partir em incontáveis pedaços o já dilacerado coração dele. Só que dessa vez, ela não estava viajando para o futuro e sim para o presente, onde iria aguardar a chegada dele. Ela então, leva a cigarrilha à boca, olha para ele e se despede. Ele, por seu turno, começa a se preparar para seguir àquela que sempre o guiou. Dessa vez, felizmente, a despedida será um até logo mais. O próximo encontro tem dia e local marcado. Espera-se pelo dia em que os encontros farão parte do passado, já que viverão permanentemente juntos...

Obs: Aos que desejarem ler a versão feminina dessa história sem fim, basta acessar o blog "Fora do Lugar", que se encontra linkado ao lado.



:: Escrito por: Camus às 16h41
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A segunda parte de uma história sem fim

Após um breve capricho da imaginação, ambos estavam de volta, um diante do outro, com olhares cruzados e mãos entrelaçadas. Eles ensaiaram, ao longo da forçosa separação, tantas palavras e gestos, mas naquele momento o silêncio e a inércia reinavam soberanos. Pareciam não acreditar no que viam. É incomensurável o que sentiam, bem como indescritível.

As faces ganharam novos traços, enquanto que os corpos foram marcados pela inevitável e voraz ação degenerativa do tempo. Mas na essência, que saltava aos olhos, eram os mesmos de outrora. Ela apossando-se do lenço lilás, que ele prometeu devolver um dia, o amarrou em torno da cabeça, tirando-lhe uma dúvida que não mais existia. De todo modo, aquele lenço parece tê-la rejuvenescido instantaneamente, fazendo-o lembrar da última vez em que a viu.

Os corpos se aproximaram ainda mais, até se tornarem um só, formando assim uma perfeita simetria, capaz de fazer o mais incrédulo observador ter a certeza de que eram frutos de uma mesma árvore ou ainda, filhos de um mesmo parto. Cada um esqueceu de si sem, no entanto, esquecer do outro. Beijos e afagos se seguiram continuamente, horas a fio, noite adentro. Doses cavalares de amor, deleite e prazer seriam a tônica de toda a semana que sucederia àquela noite.



:: Escrito por: Camus às 16h51
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A primeira parte de uma história sem fim

Após incontáveis anos de frustração, dois lances de escadas os separavam. Ao fim dos degraus, que o levaram ao segundo andar daquele hotel, dobrou à direita e estacionou diante do quarto 202. Agora, nada mais que uma fina superfície de madeira dividia-os do que tanto insistiam, isto é, o reencontro. Ele respirou profundamente e acionou a campainha, que o fez lembrar o apito da velha locomotiva que a levou rumo ao desconhecido. Baixou à cabeça, se pôs de perfil à porta e em flash reviu toda a sua trajetória até o presente momento. Estava preste a ter de volta o que havia perdido na imensidão da impossibilidade. Anos de busca foram visualizados em milésimos de segundos. O inalcançável estava ao alcance das mãos.  Entre o sonho e a realidade, somente havia uma porta, nada mais, nada menos. Olhou para o teto, para os lados, para baixo e quando não tinha mais para onde olhar, a superfície de madeira abriu-se lentamente, surgindo por detrás dela, o motivo de sua incansável busca. Seguiu-se uma troca de olhares profunda e silenciosa. Ambas as partes ficaram inertes durante um tempo desconhecido, até que ele perguntou:

 

- Não vai me convidar para entrar?

- Claro, entre – disse ela, fazendo um inconsciente gesto majestoso e convidativo com as mãos.

Após um novo período de silêncio, ela inicia um diálogo:

- Já estava preparando minha partida.

- Mas você mal chegou...

- Nós tínhamos marcado um horário...

- Desculpe-me, infelizmente costumo me atrasar.

- Não gosto de atrasos.

 

Se ele conhecesse Lord Wotton à época, certamente, teria dito “A pontualidade é ladra do tempo”, mas como ainda não havia lido O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, calou-se e pensou que poderia, caso não estivesse tão constrangido, dizer algo como: Nunca é tarde para amar. Intrínseco em sua visível chateação, ela cultivava insegurança em relação ao que ele ainda sentia por ela, chegando a pensar, inclusive, que talvez ele não fosse ao seu encontro. Novo silêncio, dessa vez quebrado por ele:

 

- Fume um pouco. Quero vê-la fumar.

- Não, agora não.

- Então, você iria embora?

- Iria! – disse ela balançando a cabeça afirmativamente.

- Tanto tempo para nos reencontramos e você vem me dizer que iria embora?

- Sim!

 

De repente uma intensa troca de olhares, seguida de lágrimas. Os corpos se aproximaram sem se tocarem. Ele viajou novamente, dessa vez na companhia dela, com destino à vida que foram obrigados a abandonar em épocas pretéritas...



:: Escrito por: Camus às 18h03
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Dois pesos e duas medidas

Em dias pretéritos, o jogador Ronaldo (Real Madrid) se declarou “branco”. Isso bastou para que a imprensa, em sua maior parte, prostituta do Estado, polemizasse a questão do preconceito no Brasil e encontrasse ressonância, dentre os incautos de nossa sociedade.

 

Pergunto-vos o seguinte: o que há de mau em alguém se declarar “branco”? Tantas pessoas se declaram negras. Declarar-se branco é motivo para vaias, já se intitular preto é motivo para aplausos. Os jovens usam camisas com o dizer “100% negro” e ninguém reclama. Agora, imaginem alguém usando uma camisa com a frase “100% branco”. O infeliz sofreria as mais variadas sanções negativas e levaria para casa o desígnio de racista. Apesar de ambas as frases estarem equivocadas, pois somos todos miscigenados, dizer-se branco é reprovável, enquanto que dizer-se negro é aprovável. Ser branco é execrável, ser negro é, inclusive, politicamente correto para os controladores raciais.

 

Estão gradativamente criando um ambiente hostil à harmonia racial ainda existente entre nós, que embora tenha visivelmente suas infelicidades, merecedoras de punição, é algo imprescindível e desejável. As pessoas têm o direito de se declararem como quiserem. Ademais, de nada adianta alguém, por questões impositivas, se declarar negro, se internamente não se considera ou não quer se considerar como tal.

 

Falou-se também, durante a exploração da declaração de Ronaldo, em “mito da democracia racial”, o que demonstra a forma inadequada como os nossos formadores de opinião usam o termo democracia, isto é, de modo a satisfazer os interesses de seus ideais. Pois bem, democracia é um termo que somente pode ser aplicado à forma de governo, nada mais. O que deve ser debatido é se as leis estão sendo adotadas de forma igual para todos, independentemente da cor da pele e do status de cada um. Alargar qualquer conceito é torná-lo imprestável.

 

O sambista Nei Lopes cometeu o despautério de dizer que o embranquecimento de Ronaldo deveu-se ao seu enriquecimento. Que relação existiria entre o poder aquisitivo do jogador e sua preferência por uma cútis branca? Isso não seria preconceito do sambista contra os ricos?

 

O preconceito existe, mas não se combate preconceito com preconceito. O que estão fazendo no Brasil é a prática do racismo às avessas. O determinismo racial é terreno fértil para o pior. Vos deixo, por fim, com o que escreveu o filósofo Alberto Oliva, em recente artigo, sobre o assunto, “A mente quando funciona tem todas as cores do arco-íris, quando estagna fica com a tonalidade plúmbea do preconceito...”.   



:: Escrito por: Camus às 15h20
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"De volta à vida"

Ao ler Um Conto de Duas Cidades, de autoria de Charles Dickens (1812 – 1870), resolvi demarcar algumas passagens que me pareceram por demais interessantes. Dentre elas se encontram dois trechos do terceiro capítulo - As Sombras da Noite - da primeira parte – De Volta à Vida.

Um fato extraordinário a merecer reflexão é o de que cada ser humano se constitui num profundo e indecifrável enigma para todos os demais. Sempre que entro numa grande cidade à noite, considero com solene gravidade que todas aquelas casas fechadas e escuras encerram seus próprios segredos, que cada aposento em cada uma delas oculta um mistério, que cada coração pulsando nessas centenas de milhares de peitos esconde algum segredo para o coração que está ao seu lado! Alguma coisa de horror, até mesmo da Morte, tem a ver com esse fato. Não mais posso virar as folhas daquele livro que amei e em vão pretendi ler. Não mais posso contemplar as profundezas dessas águas insondáveis nas quais, à luz do fugaz dos relâmpagos, vislumbrava tesouros enterrados e outras preciosidades submersas. Estava escrito que o livro deveria fechar-se para todo o sempre, quando eu lera apenas uma página. Estava escrito que as águas se imobilizariam sob um gelo eterno, enquanto a luz brincava em sua superfície e eu me detinha, ignorante, às suas margens. Meu amigo está morto, meu vizinho está morto, meu amor, a eleita de minha alma, está morta, e essa é a inexorável consolidação e perpetuação do segundo que sempre existiu nessa individualidade, e que eu próprio também carregarei comigo até o fim da minha vida. Dormirá, nos cemitérios desta cidade por onde agora passo, alguém mais inescrutável do que é para mim qualquer de seus habitantes vivos e ativos, ou do que sou próprio para eles?

Jarvis Lorry encontra-se no "minguado compartimento de uma velha e sacolejante mala postal", juntamente com mais duas pessoas, a caminho de Dover, onde se encontrará com a senhorita Lucie Manette, com quem terá uma delicada conversa e revelará que seu pai, ao contrário do que ela pensa, encontra-se vivo. Depois disso rumará à Paris, ao encontro do Dr. Manette, que após um período de confinamento seria trazido "de volta à vida".

Ainda no caminho, Lorry, funcionário do Banco Tellson, começa a fantasiar uma cena e um diálogo imaginário que o acompanham há algum tempo e que, particularmente, acho por demais enigmáticos como se depreende a seguir: 

- Sepultado há quanto tempo?

A resposta era sempre a mesma:

- Quase dezoito anos.

- Já abandonou toda a esperança de ser desenterrado?

- Há muito tempo.

- Sabe que foi chamado de volta à vida?

- Eles me disseram.

- Tem vontade de viver?

- Não sei mais.

- Devo trazê-la até você? Concordaria em vê-la?

As respostas a essa indagação eram diversas e contraditórias. Algumas vezes, a réplica denotava desalento:

- Espere! Vê-la tão cedo por certo me mataria!

Outras vezes, chegava em meio a um pranto enternecido:

- Leve-me até ela.

Ou então, com o olhar fixo e aturdido:

- Eu não a conheço. Não entendo.

Depois desse diálogo imaginário, o passageiro, em sua fantasia, começava a cavar, e cavar, ora com uma pá, ora com uma grande chave, ora com as próprias mãos, a desencovar a miserável criatura. Finalmente fora do túmulo, com terra graduada nas faces e nos cabelos, ela de súbitos se desintegrava, reduzindo-se a pó. O passageiro então despertava com um estremecimento, e abria a janela, para sentir a realidade da chuva e da névoa fustigando o seu rosto .



:: Escrito por: Camus às 14h46
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Entre mortos e feridos...

Há escritos, embora raros, que são verdadeiras pérolas num vasto mar tenebroso. Tive a felicidade de me deparar, em época de estratégia gramscista, com uma dessas preciosidades, de autoria de Eduardo Cândido. Ei-la:

Comunismo Socialismo

(Eduardo Cândido)

 

TOC-TOC.

Um cidadão esfomeado, quase no auge da dor da fome, abre a porta.

— Senhor comissário do povo? O que deseja aqui no meu tugúrio?

— Alto lá! O tugúrio não lhe pertence: é propriedade do Estado.

— Perdão, perdão, senhor comissário. Tem razão. Muito obrigado. Mas que bons ventos o trazem?

— Muito bem. Estamos racionando pensamentos. O senhor acabou de perder o seu direito de pensar. É a lei.

— Hem?!

— Você me ouviu. Isto é para o bem dos menos favorecidos. Se os superiores dizem isto, então é a pura verdade democrática. Esta é a lei.

— Não entendo... como assim? Não pensar em quê?

— Em nada. Pare de pensar imediatamente!

— Mas por quê? O que foi que eu fiz?

— O seu espírito crítico não está em sintonia com as diretrizes do partido único, o PARTIDO DO AMOR.

— Mas, senhor comissário do povo, eis a minha carteirinha: está em dia!

— Não, não. O seu espírito crítico não é confiável. Podemos perceber isto pelo seu corte de cabelo neoliberal. Sendo assim, o senhor não pode pensar.

— E como faço?

— PARE DE PENSAR! PARE DE PENSAR!

— Ok. Ok. Parei.

(...Passa um minuto...)

— Hm... Você está pensando. — afirma o comissário do povo.

— Não, não estou. — retruca o cidadão.

— Sim, você está! A caridade, meu senhor, tem limites!!

— Não estou pensando! Eu juro por Deus!

BANG! (um tiro na cabeça)

— Que pena! Um eleitor tão bom! Mas a culpa é da direita. Sou bom e me sinto bem. A culpa é da direita. Sou bom e me sinto bem. A culpa é da direita. Sou bom e me sinto bem...



:: Escrito por: Camus às 11h03
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