Albert Camus

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim,
mas apenas um começo...

Albert Camus






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Vovô na fita (parte II)

Camus – O que o senhor acha do mundo de hoje?

Vô – Teve alguns avanços, mas o cão parece está mais presente hoje em dia, aliás o cão assume várias formas, agora ele tá barbudo e gordinho e é presidente. Veja essa juventude perdida com as drogas, o crime, a inveja, tá horrível, mas eu vou levando minha vidinha.

Camus – Que conselho o senhor daria aos jovens?

Vô – Não percam o que vocês têm de maior valor que é a vida, fazendo bobagens. Aproveitem a vida, pois é um momento único, é algo divino. Nem sei se a merecemos.

Camus – Que programas televisivos o senhor assiste?

Vô – Eu assisto de tudo. Na verdade eu durmo mais do que assisto. Vejo a TV Senado, o cinismo dos senadores, os jornais, algumas novelas.

Camus – O senhor ainda crer na política?

Vô – Digo que não por já ter sido vereador. Achei que podia mudar as coisa, mas me enganei. Só Deus pode. Por mim, sua mãe já tinha largado essa droga, mas você é o primeiro a encorajá-la.

Camus – Veja bem vô. Eu não a encorajo a parar ou continuar. Eu a encorajo a realizar seus objetivos, agora se os seus objetivos passam pela política, eu não tenho culpa. Ademais, aqui pra nós, Oran precisa dela e ela de Oran.

Vô – Acontece que você tá lá longe e eu é quem fico ouvindo as decepções dela. Eu já disse que uma andorinha só não faz verão. Mas deixa pra lá

Camus – O senhor que sempre gostou de comer muito, tem comido o quê, ultimamente?

Vô – Gosto de tudo. Gosto de comida bem carregada. Sento o seu irmão ali (apontando para uma cadeira) e ele come também.

Camus – Mas vô, ele nem se quer tem dois anos. Não é recomendável que ele coma essas comidas carregadas.

Vô – As pessoas dizem que ele não tem idade e que eu já passei da idade. As pessoas não sabem o que é viver. Criança tem que comer tudo para ter sustância. Veja como ele é forte, já você...

Camus – É algo a ser pensado. O que o senhor tem lido?

Vô – A mesma coisa de sempre, a Bíblia.

Camus – O que o senhor acha da Bíblia?

Vô – É algo maravilhoso. O mais completo dos livros.

Camus – E o que acha de Deus?

Vô – É o criador de tudo. É um ser supremo e bondoso. É o nosso norte!

Camus – Muitos acham que ele não existe.

Vô – Se ele não existisse o homem teria que inventá-lo, pois não há humanidade sem Deus.

Camus – Voltaire disse algo parecido.

Vô – Quem?

Camus – Um filósofo francês do século XVIII.

Vô – Pois ele tinha razão.

Camus – O senhor ainda bebe uma pinguinha?

Vô – Você muda de Deus pra pinguinha? Eu em...

Camus – Veja bem vô, eu mudei de Voltaire pra pinguinha.

Vô – Tudo bem. Tenho bebido uma cervejinha de vez em quando. Eu comprei cerveja, tá na geladeira, você quer beber?

Camus – Eu aceito.

Vô – Não sei por que pergunto se macaco quer banana. Ei menina me traz uma cerveja e dois copos.

Camus – A vovó não gosta de bebidas alcóolicas na casa dela.

Vô – É por isso que ela não gosta quando você vem pra cá. (risos)

Camus – Tá gelada vô?

Vô – Só presta gelada. Agora desliga esse gravador. Vamos beber nossa cervejinha em paz.

Camus – Calma vô, tá tão bom.

Vô – O que mais você quer saber? Sobre a morte da bezerra?

Camus – O que o senhor acha da morte?

Vô – É algo triste, mas fazer o quê, não é? Já perdi filhos, amigos, irmãos, é triste. Mas não tenho medo dela, pois sei que não há como fugir mesmo.

Camus – Já notei que o senhor não está interessado em continuar, então para terminarmos, diga-me algo que o senhor ainda não fez e espera um dia poder fazer?

Vô – Voar! Quero ir ao céu, ter contato com as nuvens.

Camus – De avião?

Vô – Não, simplesmente voar. A cerveja tá boa em? Agora desliga tá?

Camus – Tudo bem, tudo bem vô.



:: Escrito por: Camus às 14h00
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Vovô na fita (parte I)

Sempre que vou visitar meu avô, na longínqua Oran, levo comigo um pequeno gravador, em que registro para a posteridade as saudosas e irreverentes conversas que tenho com ele. Exponho abaixo, a mais recente conversação.

Camus – Vô, o que o senhor acha de gravarmos essa conversa?

Vô – Lá vem você de novo com essa idéia de gravar as coisas.

Camus – Adoro conversar com o senhor e o gravador é uma forma de estender tal satisfação, já que assim, posso ouvi-lo sempre que sentir saudades. Ademais, é sempre um aprendizado.

Vô – Então tá bom. Vamos falar sobre o quê?

Camus – Sobre amenidades, tudo bem?

Vô – Pode ser!

Camus – O que o senhor mais gosta na vida?

Vô – O que mais gosto na vida é da própria vida. Sem a vida eu não teria a Antônia, os meus filhos e meus netos, mesmo os enrolados como você (risos).

Camus – Como assim, vô?

Vô – Você é como o seu pai, cheio de peripécias. Diz que vai fazer uma coisa e não faz.

Camus – Se o senhor acha, tudo bem. Não discuto. O que é a vida para o senhor?

Vô – Algo adorável, frágil e efêmero, como as suas promessas (risos).

Camus – O senhor está exagerando. Tudo bem, sou moroso, mas realizo o que prometo.

Vô – Vou fingir que acredito.

Camus – Todo fingidor acredita um pouco no que diz não acreditar.

Vô – Será? É, eu acredito um pouco em você.

Camus – Do que o senhor se arrepende na vida?

Vô – De ter sido um pouco bruto com as pessoas. De ter deixado sua mãe casar com o seu pai. Aliás, não pude fazer nada, ela estava enfeitiçada.

Camus – O senhor acha isso mesmo?

Vô – Ela merecia coisa melhor, mas tudo bem. Vocês não têm culpa do pai que tem. Veja que até da pedra nasce vida. É um homem infeliz, tudo que consegue perde, some. Vamos mudar de assunto.

Camus – O senhor tem 92 anos de vida, qual o segredo?

Vô – Normalmente as pessoas, quando chegam à velhice, deixam de fazer muitas coisas, por acreditarem que não podem mais realizá-las. Se você acha que não pode fazer algo, mesmo que você possa, você deixa de poder. Para fazermos qualquer coisa precisamos primeiramente ter vontade e depois ação, não é? Eu envelheci e continuei fazendo as mesmas coisas de antes, ou pelo menos parte delas, já que têm coisas que realmente não posso mais fazer. É preciso ser teimoso ou então você vai se acomodar com a velhice e será o seu fim. Se ser velho é ficar em casa trancado como a sua vó, então não sou velho e nunca serei.

Camus – Cite-me alguns exemplos de coisas que o senhor fazia na juventude e continua fazendo agora.

Vô – Ando de bicicleta. Ando a cavalo. Poderia receber minha aposentadoria aqui, mas faço questão de ir à capital sozinho buscá-la. Faço compras. Acordo cedo para caminhar, encho a paciência de sua vó, visito alguns amigos...

Camus – ... tira goteiras!

Vô – (risos) Isso foi só uma vez.

Camus – O senhor gostaria de relatar tal fato?

Vô – Você já sabe!

Camus – Sim, mas eu quero gravar.

Vô – Havia uma brecha entre as telhas, de modo que quando chovia molhava dentro de casa. Um dia de manhã, acordei bem cedo e resolvi tirar a danada da goteira. Pus uma escada e subi na casa. Após tirar a goteira, quando já vinha descendo, a escada quebrou e eu cai...

Camus – ... então nós chegamos e estava tudo bem, certo?

Vô – Quando vocês chegaram eu estava dançando, prova que eu estava bem.

Camus – Minha vó disse-me, que depois o senhor sentiu dores fortes.

Vô – Besteira!

Camus – Por que o senhor não pediu que alguém tirasse a goteira?

Vô – Porque eu poderia tirar!

Camus – Mas o senhor correu risco de morte.

Vô – Exagero! Quem não corre? Para morrer basta está vivo! Posso morrer atravessando uma rua ou engasgado no almoço. Se parar de fazer o que faço, ai sim, morrerei.

Camus – Como é a sua vida ao lado de minha vó?

Vô – Sem sua vó não haveria vida! É por isso que fico pedindo para ela não se entregar à velhice. Pois se ela morrer antes de mim, eu não suportarei. Digo a ela todo santo dia para fazer exercícios comigo. Para viajar comigo. Mas ela sempre diz que não pode, que está doente, que não é como eu. Ela não é como eu porque não quer. Você sabia que ela não consegue ir até a casa de sua mãe? As vezes ela pensa em ir mas logo desiste. Prefere ficar o dia inteiro trancada. Já briguei com ela mas não tem jeito.

Camus – É preciso ter paciência vô, as pessoas são diferentes.

Vô – Eu tenho paciência, mas sua vó é demais.

Camus – O senhor me disse certa vez, que pretende viver mais de 100 anos. Essa pretensão ainda existe?

Vô – Claro! Recentemente encontrei meu irmão. Ele tem 94 anos. Juntos nós temos.... 94 mais 92.... é.... 186 anos, quase dois séculos. Isso dá quase 7 Camus.

Camus – É verdade! O senhor costuma dizer que nasceu entre o naufrágio do Titanic e a eclosão da Primeira Grande Guerra. O que o senhor acha sobre esses dois eventos?

Vô – O Titanic é a prova da fragilidade do homem perante a grandeza de Deus. A guerra foi a demonstração de que o homem é o lobo do homem como você disse.

Camus – Não fui eu quem disse, mas Thomas Hobbes.

Vô – Em?

Camus – Thomas Hobbes.

Vô – Pois é!

(Continua...)



:: Escrito por: Camus às 16h53
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Relato de um ex-viciado

Há determinadas experiências que carecem ser relatadas, tendo em vista que podem mudar drasticamente a vida de seus empreendedores. Dessa forma, quero tornar público a minha relação com um determinado tipo de droga, para que assim, talvez, outras pessoas não se tornem vítimas, ou pelo menos, não se envolvam sem saber do que se trata.

Durante alguns meses, ingeri, injetei e inalei uma poderosa droga que me deixava com ódio de tudo e de todos, assim como me afastava, cada vez mais, da realidade, fazendo-me crer num ilusório mundo perfeito, onde as pessoas poderiam ser um dia poeta, noutro operário, depois pescador e outros tantos.

Tal droga é tão nefasta quanto as conhecidas anfetaminas, cocaína e seus derivados. Após algum tempo de uso, você passa a ser tolerante à substância, exigindo doses sempre maiores. É o começo do fim. 

Como alerta aos leitores, revelarei o nome dessa droga. Chama-se Marx e tem alguns derivados classificados como marxistas. Muitos podem dizer que eu não tenha a devida autoridade para criticar tal droga; talvez não tenha, mas sei exatamente o mal que ela me fez e não quero que outras pessoas sintam a mesma coisa sem, no entanto, saber o mal que ela pode lhes causar. Vamos ao relato.

Há algum tempo, quando ingressei na universidade, me deparei com um ambiente profícuo à proliferação de drogas românticas e, por conseguinte, utópicas. Tais coadunavam perfeitamente com a implosão de hormônios tão comum à juventude, sedenta de causa e repleta de rebeldia. Foi nesse contexto que me deixei contagiar pelas drogas majoritárias daquela instituição de ensino que, por sua vez, se confundia com um centro distribuidor de drogas marxianas e marxistas. Eis os nomes de algumas das drogas derivadas de Marx: Engels, Lenin, Gramsci, Mao, Castro e Che. Todos os discentes eram dependentes, eu, por minha vez, um reles calouro em busca de se habituar a uma nova etapa da vida, passei a usá-las freqüentemente, sob os aplausos dos infelizes estudantes, sem saber aonde me levariam. Desde então, comecei a desconfiar da maioria.

Incessantemente sofríamos overdoses, que nos faziam acreditar na necessidade de destruirmos, a qualquer custo, o capitalismo e assim implantarmos o socialismo que nos levaria ao comunismo, isto é, ao reino da liberdade. As drogas nos faziam crer que tudo de nefasto, até mesmo uma dor de barriga, era culpa do capitalismo, dos burgueses, dos empresários, do FMI, dos EUA, enquanto que a solução passava pelo socialismo, pelo proletariado, por Cuba, China. Tínhamos que adorar estes e odiar aqueles. Estranhava mas não questionava, pois não tinha como fazê-lo, tamanha era minha dependência.

Naqueles dias, o Muro de Berlim já havia desmoronado e o comunismo se desmoralizado, mas meus mestres e os freqüentadores daquela instituição, insistiam em nos fazer consumir as tais drogas, que nos deixavam com ódio de tudo que lhe fosse contrário e de todos aqueles que não comungassem de suas reações alucinógenas.

Apesar de não conhecer as nefastas substâncias contidas no Marx, admirava-o, defendia-o, embora sem argumentos cabais. Somente depois, passei a ter uma ínfima idéia do que havia feito comigo. Os músculos não mais respondiam ao cérebro, que não conseguia pensar. Os olhos não reagiam perante a luminosidade. Tinha me tornado um insensível. Só então, me dei conta que havia tomado uma substância que desconhecia e, por conseguinte, não sabia o que iria causar em mim, pois se soubesse não teria tomado. Esse foi o meu grande erro: primeiro ingeri algo, somente depois procurei saber o que havia ingerido.

Enquanto isso, outros discentes teciam elogios às aludidas drogas sem, no entanto, terem procurado saber o mínimo sobre elas, limitando-se no máximo à bulas, que não passavam de fragmentos "irregularmente" xerocados. Dessa forma, me via sem saída, já que não havia como me desvencilhar de uma determinada situação sem que me fosse apresentada alguma alternativa. Muitas questões não tinham respostas. As respostas a mim apresentadas eram demasiadamente absurdas para serem verdadeiras, ou pelo menos honestas.

Dentre tantos marxistas, socialistas, comunistas e outros "istas", pouquíssimos buscavam, por iniciativa própria, algum tratamento. Outras substâncias, que não as marxistas, eram denegridas e faziam parte do índex universitário. Tudo isso me soava estranho, mas minhas forças eram ínfimas diante do peso que se sobrepunha à minha cabeça. Queria entender o não uso de outras substâncias, por parte dos mestres, mas tudo soava incompreensível.

Em decorrência de uma salvadora greve dos docentes, ironicamente provocada pelos dependentes, passei, felizmente, um bom tempo sem ir à universidade, de modo que me desintoxiquei. Quando regressei, descobri o motivo pelo qual os mestres não encorajavam o uso de outras substâncias, que não as proeminente na universidade. Ocorre que os estudantes que tinham contato com outras substâncias, não voltavam a cultuar a velha droga.

Os discentes que se propunham a usar Marx desprovidos de paixão, verificavam com uma certa facilidade o quanto tal substância era nefasta. Tive a sorte de ter a meu favor a devida vontade de combater a minha dependência, bem como o apoio de dois ex-dependentes. Como foi difícil me livrar de tal vício, mas consegui, o que prova que outros também podem conseguir. Deixo a seguinte mensagem aos que ainda se encontram viciados: Largue isso o mais rápido possível. Quanto aos que não a conhecem, sugiro que procure conhecê-la melhor ante de usá-la, caso não queira que ela os consuma.

Enfim, me reabilitei, outros, porém, ficaram para sempre reféns de tal droga e muitos já morreram por conta de suas reações. Não aumentem o exército de mentecaptos. Chega de sofrimento. Pensem nisso!



:: Escrito por: Camus às 13h22
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Fé Nenhuma
(H. Gessinger)

não levo fé nenhuma em nada!
não levo fé nenhuma em nada!

mas ninguém tem o direito
de me achar reacionário
não acredito no teu jeito
revolucionário

eu sei que você acredita
nas notícias do jornal
mas tudo isso me irrita
me enoja e me faz mal

por incrível que pareça
teu discurso é tão seguro
talvez você esqueça:
você também não tem futuro

não levo fé nenhuma em nada!
não levo fé nenhuma em nada!

você quer me pôr no agito
no movimento estudantil
mas eu não acredito
no futuro do Brasil

eu não vou morrer de fome
eu não vou morrer de tédio
eu não vou morrer pensando
qual seria o remédio

sei de cor seus comentários
sobre o mal da alienação
mas eu não vivo de salário
eu não vivo de ilusão

não levo fé nenhuma em nada!
não levo fé nenhuma em nada!



:: Escrito por: Camus às 17h06
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Aonde anda minha consciência?

Você pode obedecer a alguém de duas formas: voluntariamente ou compelidamente. O povo brasileiro, por exemplo, se enquadra perfeitamente na primeira forma de obediência. Pergunta-se então: o que faz com que as pessoas obedeçam sem questionar? De onde vem a excessiva passividade tupiniquim?

Vilfredo Pareto, um dos ícones da Teoria das Elites, justificou a obediência voluntária ao afirmar que as pessoas que se submetem a tal, não se sentem capazes de viver de outra forma, não acreditando assim, que há potencialidades reprimidas e, por isso, precisam estar sob a proteção de ordens que, apesar de ferir, asseguram a existência.

Diante disso se faz mister indagar qual seria a condição para que houvesse uma contestação efetiva do status quo vigente? Ainda segundo Pareto, seria necessário que as pessoas se sentissem injustiçadas, isto é, adquirissem a consciência de que suas potencialidades estão sendo reprimidas, impossibilitando-as de ocuparem um espaço mais condizente com sua capacidade. Enfim, a contestação é antecedida pela consciência de injustiça, ou seja, esta é a condição necessária para que se manifeste aquela. Tal resposta remete a uma outra pergunta: como adquirir consciência?

Antes, porém, é válido afirmar que a obediência das pessoas está ligada ao processo de formação da identidade nacional. A nossa elite fabricou um sentimento de coesão social de acordo com a satisfação de seus reais interesses. Logo, se enganam os que pensam que o nosso nacionalismo é natural, ele não o é. Trata-se na verdade do resultado de um bombardeio ideológico em favor das elites. O nosso nacionalismo tem sido sim, uma maneira de tornar eticamente positivo o ato de defender os ideais de uma elite dominante.

Dessa forma é preciso conceber que esse sentimento foi construído de maneira racional, sistemática e maquiavélica, com um único fim: a dominação. Precisa-se ainda ter em mente que os processos psicopolítico e psicossocial levam as pessoas ao comodismo e, concomitantemente, apregoa que a responsabilidade pessoal é penosa. Eis a base de nosso apeguismo ao Estado.

Ademais, estão tornando o indivíduo gradativamente mais passivo, se não vejamos. Desarmam o cidadão, como se criminoso fosse, tirando-lhe o direito de legítima defesa, dando-lhe em troca a subserviência social aos objetivos do Estado Onipotente. O Estado age na inércia dos indivíduos, tornando-os, cada vez mais, seus dependentes. As inibições e a falta de coragem para enfrentar responsabilidades pessoais, acabam sendo transformadas na impotência diante do Leviatã.

Como resposta à última pergunta, diria que precisamos fundamentalmente constituir um verdadeiro Estado de Direito Democrático; refazer toda uma hierarquia de valores humanos e sociais; nos afastar urgentemente do modelo educacional gramscista e, por fim, exigir que o Estado devolva as responsabilidades dos indivíduos. Somente depois disso será possível falar em obtenção de consciência.



:: Escrito por: Camus às 16h01
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Promessas e presentes

Sei que minha demora a agride, a torna senhora; Que minha pressa a agrada, a torna menina como outrora; Também sei que seu destino se encontra em minhas mãos, que serão lidas por você no próximo verão; Meu retrato descansa ao seu lado, à espera do fato que celebrará a inesperada ocasião; Chego à noite, que insiste em não chegar, mas parto à luz do dia com lágrimas no olhar; Sou um tanto lento, lamento, mas sou intenso diante de seu lenço lilás de anos atrás; Demoro mas aconteço na vaguidão dos santos de gesso e entre os vagões da locomotiva sem endereço; A busco em tudo que vejo no mar que velejo; A vejo em tudo que busco no céu que ofusco; Trilho as linhas embaraçadas de sua imaginação e sigo suas pegadas apagadas no chão; Logo a alcançarei e farei valer os dias em que estive distante por um instante; Até o dia em que as promessas serão presentes.



:: Escrito por: Camus às 15h54
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Ressuscitando o caso Terri

Somente agora decidi me deter sobre o caso Terri Schiavo. Considerando o ritmo dos acontecimentos, a aludida polêmica, certamente, já se encontra a caminho dos porões da história, de modo que logo será esquecida pela maior parte das pessoas. Confesso que minha morosidade é estratégica e se justifica pela valia de se expor uma questão delicada, num momento em que os leitores, provavelmente, estarão mais desarmados e, por conseguinte, receptivos.

É desnecessário reprisar todo o caso, tendo em vista que ele foi fartamente veiculado nos meios de comunicação, logo me aterei a outras questões que carecem ser desmistificadas. Falou-se densamente em eutanásia (prática inicialmente adotada pelos nazistas), mas o que houve no caso de Terri não pode ser considerado como tal, já que a principal condição desta é o intenso sofrimento da vítima, bem como o diagnóstico irreversível. Terri, definitivamente, não era portadora de um intenso sofrimento, aliás essa alegação nunca houve. É claro que ela tinha danos cerebrais, mas a extensão desses danos, por outro lado, a ciência não tem ainda como determinar.

Não houve morte cerebral, já que Terri respirava sem a necessidade de aparelhos e mantinha movimentos musculares. Seus olhos piscavam em conseqüência dos carinhos da mãe e eram capazes de acompanhar os movimentos desta no recinto. A sonda que a alimentava não é tão diferente das utilizadas por muitas pessoas que, por quaisquer motivos, se viram impossibilitadas de alimentar-se normalmente. João Paulo II recebeu mecanismo semelhante. Graças a várias sondas semelhantes, Stephen Hawking, físico inglês, continua ofertando valorosas contribuições ao desenvolvimento da ciência.

A justiça classificou Terri como um vegetal, embora, indiscutivelmente, não o fosse. De todo modo mesmo que se tratasse de um vegetal, por que retirar dos pais e das pessoas interessadas o direito de regar e cuidar da sua flor, como questionou Reinaldo Azevedo, do site Primeira Leitura? Fica claro que a morte de Terri gerou danos a sua família, ao passo que, caso tivesse sido mantida viva, não geraria malefício algum à sociedade, ao seu marido ou ao Estado.

Fico a pensar, qual seria o sentido de impor a uma pessoa e seus familiares uma prolongada agonia? Mataram Terri num lento processo de inanição. Queriam provar ao mundo que ela não podia viver sem o auxílio da máquina? O que dizer, guardadas as devidas proporções, dos dependentes de marca-passos? Devem ser mortos por serem incapazes de sobreviver naturalmente?

Falou-se também em "direito à morte". Esta expressão é, segundo o filósofo Olavo de Carvalho, "...autocontraditória, porque a vida é um pressuposto dos direitos: todo direito se extingue ao extinguir-se a vida, e nenhum cidadão tem o direito de privar-se a si próprio – muito menos a outrem - de todos os direitos". Presenciar um moribundo em seus últimos instantes é totalmente diferente de enviá-lo sutilmente aos braços da morte.

Não há decisão mais drástica e pueril do que aquela que determina se um ser humano deve ou não viver. O Estado pode se achar habilitado a tal decisão, mas não está. Por fim, infelizmente, vivemos numa época que Mendo Castro Henriques caracterizou como "cultura de morte, guerras não declaradas, genocídio, aborto e outros derivados do totalitarismo no Ocidente".

Ainda de luto, vos deixo, caros leitores, com uma frase de Tzevetan Todorov em Os Abusos da Memória: "A vida perdeu para a morte, mas a memória ganha seu combate contra o nada".



:: Escrito por: Camus às 13h21
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O monstro do atraso

Num desses telejornais de veiculação nacional ouvi a seguinte afirmação: "Os preços controlados pelo Estado continuam subindo mais que os praticados pelo mercado". Vos pergunto o seguinte: se o Estado regula os preços (com a justificativa de que o mercado por si só gera distorções como monopólios, por exemplo), por que então eles se encontram acima dos cobrados pelo mercado? Os fatos demonstram que o controle do Leviatã não tem conseguido ser mais eficiente que a liberdade, mesmo que tímida, do mercado.

Em tempo, vos digo que, atualmente, cerca de 4,5 meses de trabalho do trabalhador brasileiro vão para o Estado, através de tributos e taxas. Por que isso ocorre? O Estado foi criado para garantir a lei, o direito à liberdade, à vida, à propriedade e à segurança, embora esteja exercendo funções excessivas, que não são de sua alcunha. Para tanto, ele precisa de recursos para manter seu aparato. Como não têm recursos próprios, lhe resta extrai-los das pessoas que, afinal, são as únicas que produzem. A justificativa seria procedente, caso o Estado estivesse cumprindo o seu papel, mas como bem sabemos...



:: Escrito por: Camus às 10h47
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Um simples olhar

Ao cruzar a ponte onde os rios se cruzam, caí na mais absurda reclusão; Fugi de todos, mas não de mim, do início, mas não do fim; Aprisionado, demorei anos pra descobrir, que entre uma grade e outra não há prisão; Após dias no limbo, cultivei uma esperança sem ínterim; Tentei reencontrar-me, mas foi em vão; Após tempos submerso, resolvi ressurgir numa água turva; As circunstâncias me fizeram esquecer o que nunca aconteceu, se não através dos empreendimentos de Morfeu; Sem direção fui de encontro à retidão desencontrada que havia na quina da curva; Me busquei nas ruas escuras de minhas ínfimas lembranças; Minhas mãos que ela tanto leu não eram mais sentidas que não nos seios seus; Estava de volta ao ponto de partida, como se não tivesse havido despedida; Hoje sei que podemos nos prender ou nos libertar, para tanto, basta um simples olhar.



:: Escrito por: Camus às 11h37
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Quando os preços tinham asas

Tenho, ultimamente, transformado o supermercado num ambiente de lucubração. Pareço ter descoberto que a melhor forma de pensar sobre o caos é mergulhando nele, embora exista a possibilidade de nos afogarmos. Num desses mergulhos estabeleci uma relação, entre o comportamento das pessoas e os preços dos produtos, que pretendo expor a seguir.

Em outros tempos os produtos eram postos à venda sem a exposição de seus preços que, por sua vez, flutuavam de acordo com a conversação empreendida entre comprador e vendedor. Gradativamente os preços foram sendo fixados e as conversas foram rareando. Questiona-se então, o que a simples mostra dos preços teria a ver com a diminuição dos diálogos?

Diante de preços recônditos, compradores e vendedores encenavam verdadeiras peças teatrais, àqueles defendendo a redução dos valores verbalizados, enquanto que estes advogavam a sua manutenção. Isto é, havia uma conversação maior entre as pessoas na hora da compra, já que tinham, inclusive, que perguntar o preço. O fato deste não ser exposto concedia margem à conversação.

A fixação de preços gerou a passividade dos envolvidos nas transações, mas, por outro lado, segundo alguns estudiosos, encorajou as vendas rápidas. É bem verdade que a complexidade das atuais sociedades, pelos mais variados motivos, exige a fixação de preços. Contudo, hoje faço compras no supermercado sem, no entanto, falar uma única palavra. Apenas, embora nem sempre, ouço o caixa verbalizando o valor a ser pago. Passivamente, após algum tempo de andanças entre mudos, pago e parto com a boca seca de tanto silêncio.

C. Wright Mills apresenta um dos motivos pelo qual os preços foram fixados? Segundo o sociólogo norte-americano, no caso de uma loja com vendas volumosas é necessário haver um número maior de empregados e, portanto, "se o empresário não vende em pessoa ele precisa ter um preço fixo já que não poderia confiar aos funcionários a tarefa de barganhar com sucesso".

À guisa de conclusão, vos afirmo não ser contrário a exposição de preços, apenas defendo a necessária existência de maiores contatos entre as pessoas que, apesar de toda a revolução tecnológica, estão cada vez mais ilhadas. Aproximem-se de outras ilhas e constituam um arquipélago, a sociedade agradece.



:: Escrito por: Camus às 10h23
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Perguntas aos defensores do Estatuto

Se o número de porte de armas decresceu nas últimas décadas e a quantidade de homicídios causados por armas de fogo aumentou, como então é possível afirmar que as armas utilizadas para cometer crimes são provenientes de pessoas de bem?

Digam-me se é ou não uma insanidade tornar a simples posse de uma arma inafiançável, enquanto, por outro lado, é possível responder por um ou mais assassinatos em liberdade e no caso de menor, nem responder?

Já que não podemos nos defender e a segurança pública se encontra sucateada, nos resta torcer pela utópica benevolência dos bandidos.



:: Escrito por: Camus às 12h11
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Folha

O vento soprou e arrancou bruscamente seu pecíolo do lugar; Destacada, ela caiu calmamente aproveitando suas voltas em torno do nada; Contagiou-se com a liberdade contida na imensidão do rarefeito ar; Descobriu que fora enganada e que sua limitada vida era uma prisão alada; Ela que sempre esteve aprisionada, sentiu-se livre, enquanto sobrevoava a vontade castrada; Antes vivia sem liberdade, agora é liberta mas logo morrerá; Entre viver eternamente presa e morrer temporariamente livre, ela não hesitou: partiu. O auge de uma folha é sua queda, quando se depara com algo que nunca sentiu: a liberdade.



:: Escrito por: Camus às 10h32
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Na real
(H. Gessinger)

encontrei depois de tanto tempo
viajei... passei o passado a limpo
dei um rewind revi tudo em fast-forward
encontrei depois de tanto procurar
?será que você existe?

12h há mais de uma semana
piscam as luzes no videocassete
12 meses...lá se vai um ano
e o outono parece não passar
?será que você existe?

encontrei depois de tanto tempo
em vidas passadas
em noites passadas em branco
olho para o lado e nada vejo
já não sei o que é verdade e o que é desejo
?será que você existe?
?será fruto da imaginação?

miragens, fantasmas, ovni's
e o que mais for preciso para ser feliz
meu coração visionário tá legal
e dispensa comentários
ele nem pensa na real

?será?
miragens, fantasmas, viagens no tempo
?será que você existe?
?será?
delírio, desejo, vozes e visões
?fruto da imaginação?



:: Escrito por: Camus às 06h32
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Mentira: Da exceção à banalidade

Fala-se em dia da mentira como se houvesse um só dia em que não se mentisse. Considerando a realidade em que nos encontramos, mais sensato seria instituir o Dia da Verdade. O contexto em que surgiu a mentira era por demais diferente do atual, dando-lhe um certo sentido. Se antes a mentira visava, sobretudo, o divertimento dos envolvidos, hoje, porém, ela nos agride.

Tudo começou em 1564, quando o rei da França, Carlos IX, determinou que, a partir de então, o ano tivesse início no dia primeiro de janeiro e não mais em primeiro de abril. Se hodiernamente é possível acompanharmos ao vivo o que ocorre, por exemplo, no Japão, o mesmo não acontecia naquela longínqua época, em que uma noticia levava meses, anos, para ser conhecida pela maioria.

Dessa forma, não é difícil imaginar a morosidade para que a medida de Carlos XI fosse conhecida por todos, o que gerou confusão em terras francesas. Diante da dúvida ocasionada pela mudança da data de início de ano, muitos aproveitaram a oportunidade para pregar peças em alguns desinformados. Surgia então, o Dia da Mentira.

Lembro de vários dias da mentira passados em Oran, onde em companhia de amigos pregava peças em alguns citadinos. A mentira se tornou tão banal, que a verdade passou a ser exceção e a brincadeira perdeu a graça. As relações de confiança foram vorazmente abaladas e a mentira perdeu sua inocência e divertimento e passou a ser utilizada de má fé, como forma de satisfazer a todo custo determinados interesses.

No dia da mentira, o atual governo tem muito o que comemorar, tamanha suas lorotas. Até seu líder, que a população insiste em isentá-lo das atrocidades governamentais, muda de cor como o molusco que lhe é homônimo. O governo que ai se encontra usa a mentira a seu bel-prazer. Basta comparar o que nos foi dito e o que é verdade.

Àqueles que reconhecem que erraram, que mentiram de má fé, merecem nossas desculpas, mas o que dizer de um governo que permanece mentindo? Que pode até mudar de mentira ou de boné, mas nunca dirá a verdade?



:: Escrito por: Camus às 15h02
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