Albert Camus

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim,
mas apenas um começo...

Albert Camus






Juvenilidade Senílica:
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Acessos Juvenílicos:






Acerca de uma homenagem

No último sábado pela manhã, enquanto consumia algumas doses generosas de enzima no supermercado, minhas irmãs faziam as compras. De repente, o meu celular toca e dele ressoa a voz da Luz que reveste a lua. Ela disse-me que o Alex havia feito uma homenagem ao juvenília e, prontamente, se pôs a lê-la. É digno de nota, que na noite anterior discutíamos sobre quais efeitos os escritos do juvenília provocavam nos leitores. Disse-lhe, embora de maneira radical, que os caracteres não atingiam o seu fim: a dúvida. Assim, as pessoas vinham e voltavam com as suas certezas, como se fossem as ondas do mar.

Ela então disse-me que, talvez, a razão estaria em, por vezes, esse escriba não se expor de maneira direta, mas sim através de intrigantes metáforas, que podem significar inúmeras coisas ou nenhuma. Acontece que sou partidário da idéia de que a conquista é mais valorizada que a doação. Ademais, quero que os leitores pensem e não que eu pense por eles. Que eles se deparem com determinadas diretrizes e não com idéias prontas, tendo em vista que elas podem ser atalhos perigosos. Que dos meus rabiscos "aleatórios", sejam edificadas imagens concretas.

Enfim, resta-me agradecer ao sensível e sempre poeta Alex, que de maneira magistral soube sintetizar, num só post, o verdadeiro espírito do singelo juvenília. Vos deixo com a aludida (não sei se merecida) homenagem.

Juvenília

Pelos escritos de certezas incertas, minha alma dissipa-se e se fragmenta frente à Luz da lua de todas as noites de alvorada. Minha juvenília vem agasalhar as almas friamente quentes. Sou um poeta. Sou escritor. Às vezes nada resta de mim, nem palavras que possam perfazer todos os sentidos da vida e do amor que a Luz da lua promana de sua nova - minguante - crescente - cheia esperança na escuridão da distância. Minha juvenília é escrita paradoxal, onde canto o inaudível e peregrino meus olhos de saudade na escuridão branca, branda tempestade. Sou assim. Um jovem velho, apaixonado, que quando na caligem de seus versos, aconchega-se na lembrança argêntea de uma Luz...

|ALEX.S.F|

*Texto dedicado ao meu grande amigo Camus*



:: Escrito por: Camus às 09h57
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?Solitária aberração?

Outras frequências

(gessinger)

seria mais fácil fazer como todo mundo faz
o caminho mais curto, produto que rende mais
seria mais fácil fazer como todo mundo faz
um tiro certeiro, modelo que vende mais

mas nós dançamos no silêncio
choramos no carnaval
não vemos graça nas gracinhas da tv
morremos de rir no horário eleitoral

seria mais fácil fazer como todo mundo faz
sem sair do sofá, deixar a ferrari pra trás
seria mais fácil, como todo mundo faz
o milésimo gol sentado na mesa de um bar

mas nós vibramos em outra freqüência
sabemos que não é bem assim
se fosse fácil achar o caminho das pedras
tantas pedras no caminho não seria ruim

 

 

Há mais alguém em outra frequência? Se sim, seja bem-vindo, se não, continuo sendo uma solitária aberração contrária aos fantoches na multidão.



:: Escrito por: Camus às 13h02
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Tempos pós-modernos

Quanto tempo faz que não janto com meus pais? O tempo levou aquelas reminiscências e talvez não devolva mais; Há dias não vejo minha irmã, que não durante as noites, no ímã da geladeira; Nada sei de suas gélidas angústias ou de seus fervorosos amores, dos seus desejos obscuros, dos seus claros temores, enfim, da notícia derradeira; A sala de estar está vazia, parece desocupada há dias; Em cada cômodo uma história, em cada história um incômodo combatido por dolorosas anestesias; A solidão é minha sólida companhia, o silêncio a minha fluida voz, o tempo o meu destemperado algoz; Resta-me meu quarto para onde parto compelido com a saudosa lembrança do que outrora fomos nós.



:: Escrito por: Camus às 11h53
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Gregário desagregado

É evidente que muitos são os problemas constatáveis nas atuais sociedades. Alguns direcionam o complexo social a uma constante situação de risco. Dentre estes se destaca a gradativa diminuição da solidariedade nas relações sociais, o que compromete sensivelmente o tecido social. Pretende-se aqui advogar, que o necessário restabelecimento da solidariedade se dará por intermédio do desenvolvimento de espaços comunitários, onde as pessoas possam se aproximar umas das outras de modo a providenciar o revigoramento das abatidas relações sociais.

A sociedade apresenta atualmente dimensões complexas e de difícil compreensão. Os relacionamentos sociais primários, isto é pessoais, estão cada vez mais raros. Já os contatos sociais ditos secundários, ou seja, formais, impessoais e calculados, tornam-se gradativamente mais intensos. Somos, em decorrência disso, seres insensíveis diante das mais variadas atrocidades como os assassinatos noticiados diariamente pelos meios de comunicação, a ponto de assistirmos à verdadeiras chacinas comendo pipoca e bebendo refrigerante, confortavelmente em casa. Nos escondemos por detrás da máscara da filáucia: "Tudo bem, não é comigo".

A importância dos contatos sociais primários, face à face, constituídos por uma base emocional é facilmente perceptível. Ao nos depararmos com um amigo, um velho conhecido, mendigando na rua é provável que iremos nos transtornar. Isso acontece justamente devido a existência de um relacionamento anterior à citada ocorrência. Por outro lado, vemos quotidianamente várias pessoas estendidas ao chão pleiteando esmolas e nos mantemos alheios como se não tivéssemos presenciado a aludida cena. Trata-se de um descaso e na medida que não o reconhecemos nos tornamos passíveis diante de tal, contribuindo assim, para a sua continuação. Dessa forma, diariamente as cenas se repetem e diante delas, a nossa atitude ou ausência de atitude também.

Ao tomarmos uma condução sentamos ao lado de alguém, que por não sabermos quem é nos furtamos de olhar para esta pessoa ou direcioná-la um, mesmo que tímido, "bom dia". Os condomínios estão repletos de pessoas e no entanto, elas praticamente não se comunicam. Às vezes não se sabe quem mora ao lado. Embora residam no mesmo espaço é comum filhos passarem uma semana sem falarem com seus pais, por conta das implicações da vida moderna. Na família high-tech, cada filho tem um quarto com uma TV e às vezes, só se encontram casualmente nos corredores da casa, onde trocam algumas palavras. A diminuição da participação da instituição familial na formação social dos indivíduos pode apresentar conseqüências devastadoras, como podemos observar diariamente, Várias são as pessoas que por nós passam todos os dias e permanecemos calados como se não existissem. Não temos a menor noção das experiências e conhecimentos que nos abstemos de adquirir diariamente. Quantas estórias de vida deixamos de conhecer? Simplesmente passamos pelas pessoas e é provável que de repente nunca mais as vejamos novamente. Muitos afirmam não ter tempo, mas, certamente, quando a velhice chegar, eles terão tempo para pensar, diante da solidão, nos contatos que deixaram de fazer. Diante disso, talvez buscará novos contatos, mas outras pessoas também não terão tempo. Enfim, preferimos ao invés de nos relacionar, nos mantermos anônimos e não há como se solidarizar com o anonimato. Eis o problema crucial.

Com o advento da tecnologia da informação muitos afirmaram que nos tornaríamos mais próximos, mas em vários casos ocorreu o contrário. Atualmente é preferível se relacionar com amigos "virtuais" por intermédio dos chats e e-mail´s, por exemplo, que visitar um amigo "real". Temos mais amigos internacionais que brasileiros. Estabelecemos mais contatos com pessoas de outros estados e países do que com os nossos vizinhos. Assim, nos aproximamos dos distantes ao tempo que nos afastamos dos próximos, ou seja, diminuímos drasticamente os contatos primários em prol do paulatino aumento dos secundários, estes, certamente, desprovidos de solidariedade. É bem verdade que a tecnologia de maneira geral nos fascina, mas não podemos nos render totalmente a tal encantamento. O fato é que a cada dia nos isolamos mais ainda, contrariando o que disse Aristóteles sobre a sociabilidade do ser humano. Não precisamos, por exemplo, sair de casa para comprar uma pizza ou um remédio. Podemos pedi-lo e ao chegarem, pagamos sem ao menos olhar o semblante do entregador. Podemos visitar a Torre de Pisa e sua curiosa inclinação sem sairmos do lugar. A idéia de espaço e de tempo foi redirecionada afetando a forma com que as pessoas se relacionam. Diante disso o que é possível ser feito?

É imprescindível restabelecer os espaços comunitários e revitalizar os contatos pessoais, e assim nos reconhecer nos outros. A criação de vínculos é emergencial e para tanto, se faz necessário repovoar os espaços públicos, onde há reivindicações, consensos, discórdias e a constituição de objetivos comuns e incomuns. Não existe democracia diante de uma sociedade atomizada, onde os indivíduos são ilhas ambulantes prestes a naufragar. Novas formas de ocupação do espaço público devem ser implementadas, o que viabilizará a realização de contatos primários. Mas como exercício inicial, é sugestivo que você fale com aquele que se encontra ao seu lado, se aproxime de outras ilhas e crie um arquipélago, você estará mais protegido. Parte da crise que vivenciamos hoje, tem como causa a ausência efetiva de interação entre as pessoas. Não se trata de um surto de romantismo, mas sim, do restabelecimento das condições necessárias para o revigoramento da solidariedade, tão importante para a manutenção das relações sociais. Não se trata ainda, de ressuscitar espaços como a ágora, a complexidade dos dias em curso a sucumbiria, mas sim de forjar novos espaços condizentes com as atuais formas de convivência social.

Aos que chegaram até aqui, dedico um muito obrigado.



:: Escrito por: Camus às 12h37
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A degradação do espaço público

Eis, abaixo, aos que tiverem pachorra, um artigo publicado em tempos remotos:

Com o advento do que se convencionou denominar Terceira Revolução Industrial, instaurou-se a telemática, provocando uma relevante alteração nos conceitos e padrões até então usuais. Dessa forma, tempo e espaço tiveram sua lógica radicalmente modificada. Inaugurou-se uma nova etapa do viver e do refletir humanos. Tal transformação gerou, por exemplo, a hipótese da comunicação, através da sua veloz e abrangente difusão, substituir gradativamente o uso do transporte motorizado.

Sendo assim, as pessoas ao invés de saírem de suas casas para conferirem e adquirirem bens e serviços, permanecem em suas residências, já que não é mais necessário o deslocamento físico para a execução de tais atividades. Hodiernamente, é possível realizar as mais variadas transações comerciais, comprar um automóvel, visitar um museu, pedir um jantar sem a necessidade de sair de casa. Para isto, basta utilizar um computador ou mesmo um telefone, mecanismos em franca proliferação. Esta ocorrência, segundo alguns estudiosos, desencadeia dois prováveis desdobramentos. O primeiro corresponde a suposição de que, ao aumentar o tempo em que as pessoas destinam a ficarem em suas casas, diminuirá o índice de violência, já que elas estariam teoricamente mais protegidas. Tal pensamento é reforçado a partir do surgimento de novos postos de trabalho nas residências, tendo em vista que o trabalho é um dos fatores que mais colabora para retirar as pessoas de suas casas.

O segundo desdobramento refere-se à possibilidade de que o problema crônico dos congestionamentos de tráfego nas grandes cidades seja resolvido não pela construção de mais vias, túneis e pontes, mas sim, pela redução do uso do transporte motorizado, substituído paulatinamente pela dinamicidade das telecomunicações, o que poderá melhorar as condições ambientais, pois reduzirá a poluição do ar e a maléfica emissão de gases, responsáveis pelo agravamento do efeito estufa. Viver-se-ia portanto num mundo virtual? Contudo, é válido questionar como ficaria então, o povoamento do espaço público, imprescindível para o desenvolvimento da vida em sociedade. Somos seres sociais ou virtuais? O que pensar dos inestimáveis e fundamentais mecanismos de mobilização, que historicamente contribuíram para obtenção de direitos, como é o caso das lutas, dos movimentos e das organizações constituídos em prol da realização de algum intento?

Mediante a exposição do aludido quadro é possível algumas constatações decorrentes. Fala-se da atrofia do espaço público, o que certamente obstaculizará, cada vez mais, o desenvolvimento das organizações sociais. A telemática encurtou consideravelmente as distâncias e concomitantemente afastou as pessoas do convívio social, gerando assim um autêntico paradoxo. Destarte, a questão emergencial é a seguinte: quais as conseqüências desse novo modelo de organização social?

Certamente, você leitor, já deve ter observado a freqüência de indagações contidas neste texto. O fato é que o fenômeno ora apresentado é recente, complexo e sem precedentes históricos, o que o torna difícil de ser analisado, impossibilitando assim a previsão de situações decorrentes. Diante do aludido universo de incertezas é possível afirmar, meramente, que é preciso criar mecanismos de preservação do espaço público, já que a ausência de interação física entre as pessoas não é saudável para nenhuma sociedade que carece de contatos e laços sociais. Virtualizar seus ideais, hábitos, valores e sentimentos, poderá, certamente, gerar problemas crônicos em seus pilares. Muitos teóricos mostraram-se preocupados com tais ocorrências, dentre os quais J. Stuart Mill, ao afirmar que o desenvolvimento da comunidade, exige ações que denotam o espírito público com caráter ativo dos indivíduos, no contexto de instituições participativas.

À guisa de conclusão, é válido ressaltar que a velocidade e a freqüência das transformações nos impediu até então de assimilar o ocorrente e sobretudo, de estabelecermos autocríticas, externalizando quase sempre a culpabilidade. Portanto, cabe a todos indiferentemente, estudantes, intelectuais, professores, políticos, dentre outros atores da sociais, analisar meticulosamente o processo ora apresentado, levando sempre em consideração, que a sua intensificação da forma como está sendo manifestada, provavelmente, acarretará na gradativa desocupação do espaço público, o que geraria malefícios estruturais para a sociedade. Racionalmente fica claro que é mais difícil impedir o avanço de tal fenômeno do que assimilá-lo criticamente, através de amplas discussões e pertinentes estudos, considerando a representatividade do espaço real de integração dos indivíduos, ou seja, o público. É indiscutível às acomodações oferecidas por este processo, mas é preciso detectar o ponto em que elas passam a ser prejudiciais para o desenvolvimento do espaço público.



:: Escrito por: Camus às 14h53
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365 voltas!!!

Amanhã, o singelo juvenília terá completado 365 voltas em torno do sol. Diante disso, faço uso do presente post para referenciá-lo pelo seu aniversário. No dia 22 de janeiro do ano anterior, fui surpreendido e contaminado pela febre dos blogs, que já se alastrava há algum tempo. Confesso que, inicialmente, relutei, buscando uma suposta cura, mas foi em vão. O tratamento seria entregar-se à epidemia e assim o fiz. Dei então vida a minha produção independente, apesar da esterilidade inicial que me consumia em decorrência de algumas atribulações.

A meta primeira seria tratar de uma espécie de "autobiografia mesclada de visão de mundo", mas logo foi abandonada apesar da atraente e constante participação da velha pani (senhora) de certezas incertas. Refiro-me a morte, que por pouco não me fez vítima indefesa e prematura de seu tenebroso e indesejável ofício. Depois investi em questões puramente filosóficas e existenciais, que de maneira efêmera também se despediram. Em seguida passei a saudar algumas mulheres que encontrei pelas estradas por onde andei, mas que também sucumbiram com o tempo, o senhor da deterioração, isto é, o vegetariano que adora carne. Resolvi então criar uma trama denominada de Os Caras, que, por sua vez, não chegou a ter um só capítulo, limitando-se a uma mera apresentação dos curiosos personagens, dentre os quais, o polêmico Marcelo, que era ao mesmo tempo comunista e católico. Por fim, passei a escrever sobre questões quotidianas, bem como sobre a luz que reveste a encantadora lua que me ilumina durante todas as noites não dormidas. A propósito, um dia após conhecê-la ou melhor reencontrá-la, fundei o juvenília, o que me faz crer, que de alguma forma ela me serviu de inspiração.

Por coincidência ou não, foi exatamente num outro dia 22 de janeiro, este pertencente ao ano de 1990, que tive o primeiro contato com Albert Camus. Lembro-me que estava na residência de minha saudosa avó paterna assistindo a um desses programas destrutivos da TV, quando repentinamente direcionei o olhar para a parte superior da estante e avistei alguns livros, dentre os quais, A Peste. O título instantaneamente me chamou a atenção e de imediato me coloquei à disposição daquelas empoeiradas páginas amarelas. Eis, indiscutivelmente, um amor literário à primeira vista e que cultivo até os dias que correm. Pedi a referida obra a minha avó, que prontamente disse-me, "peça a sua tia, pois a dei para ela". Após um segundo pedido, ganhei o primeiro Camus de outros que viria adquirir.

Fiz do juvenília, ao longo desse primeiro ano, um espaço de elucubrações no qual escrevi, muitas vezes, o que não escreveria em outros meios de comunicação, que comumente ocupo com meus caracteres incessantes e para muitos estressantes. Esse "estranho", "aleatório" e "desvairado" blog, como tantas vezes foi designado, é uma demonstração física do meu estado psíquico. Olho para essa página com cores extravagantes e eis que me vejo à frente. Ela me reflete enquanto a reflito.

O juvenília ao completar suas primeiras 365 voltas em torno do astro rei, já conquista sua maioridade e independência. Outrora ele me obedecia, hoje, porém, decretou sua liberdade e passou a ter vida própria. Vejo-o se lançando à deriva e buscando, talvez, o que nunca irá encontrar, mas sabendo que ainda assim, a busca será por demais válida, sobretudo à base de liberdade.

Por fim, resta-me agradecer a todos pela paciência, tolerância e pelos comentários, sejam eles críticos ou encomiásticos. Obrigados aos atuais freqüentadores, aos antigos, enfim, a todos que passaram ou que continuam passando pelo singelo e aberrativo juvenília. Obrigado, por fim, a você... você mesmo... não se faça de desentendido... me refiro a você, que antes era meu e que hoje pertence a todos, ao tempo que não pertence a ninguém, isto é, você juvenília. Eis os meus sinceros votos de parabéns àquele que um dia fiz e que hoje me faz...



:: Escrito por: Camus às 14h35
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O escolhido

Após incertos minutos de uma caminhada certa sobre ruas, comumente, esburacadas e desertas; Eis que me deparo com dois grande números em néon, estampados numa parede em tom discretamente verde; De lá exala um som que me captura como se fosse uma abrangente rede; Como uma sina, adentro o recinto e logo minhas finas narinas se envenenam com o excesso de absinto; Uma mulher em trajes tinto leva-me à mesa, onde sento-me e peço uma cerveja; Vejo mulheres das mais variadas desfilarem necessidades viciadas e mordomias invariavelmente violadas; De repente, senta-se um senhor em minha frente; Seus acaçapantes olhos são visivelmente azuis e atraentes;  Ao seu sinal a mulher lhe traz à mesa, também, uma cerveja; Após o primeiro gole, chama atenção para a beleza das musas destituídas de pureza, que com uma falsa alegria tentam camuflar a valsa de sua tristeza fria; Confirmo-lhe com um sinal que, talvez, tenha me sido vital; Ele, então, olha para mim e no ínterim de um e outro suspiro me designa escolhido, para depois me enviar um tímido olhar de pouca idade detido de uma adulta liberdade adúltera; Agora, diz ele, não me decepcione, nem me deixe ferido; Nada respondo-lhe, que não o silêncio retido; Vira-me às costas e parte sem caminho definido; Hoje, porém, sei o que o senhor de olhos azuis quis dizer, isto é, que eu protegesse e amasse aquela que ele viu nascer e que o viu morrer.



:: Escrito por: Camus às 15h17
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Depois dizem que não tenho razão...

Caro(a) leitor(a), eis alguns questionamentos:

Ao caminhar por uma via pública você se depara com algumas pessoas olhando para o céu, o que você faz?

Numa disputa com cabo de força existem três pessoas de um lado e uma pessoa do outro. Indaga-se, que lado, provavelmente, vencerá?

Você caminha em uma direção, quando de repente se depara com inúmeras pessoas vindo na direção contrária. Qual a sua reação?

Não me restam dúvidas que duas mentiras articuladas são mais fortes que uma verdade isolada.



:: Escrito por: Camus às 11h12
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Fiz-me Quixote.

Sinto-me ao propalar as causas que ultimamente tenho advogado, um verdadeiro Quixote. Para uma maior similaridade só me falta o meu rocinante. Dessa forma, vos deixo com uma letra de Gessinger em parceria com Galvão.

 

 

 

dom quixote
(gessinger/galvão)

muito prazer, meu nome é otário
vindo de outros tempos mas sempre no horário
peixe fora d'água, borboletas no aquário

muito prazer, meu nome é otário
na ponta dos cascos e fora do páreo
puro-sangue puxando carroça

um prazer cada vez mais raro
aerodinâmica num tanque de guerra
vaidades que a terra um dia há de comer

ás de espadas fora do baralho
grandes negócios, pequeno empresário
muito prazer me chamam de otário

por amor às causas perdidas

tudo bem...até pode ser
que os dragões sejam moinhos de vento
tudo bem...seja o que for
seja por amor às causas perdidas
por amor às causas perdidas

tudo bem...até pode ser
que os dragões sejam moinhos de vento
muito prazer...ao seu dispor
se for por amor às causas perdidas
por amor às causas perdidas



:: Escrito por: Camus às 16h46
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A supremacia da maioria

Questionei no post anterior, especialmente, o princípio da maioria. Não me parece justo uma decisão ser proeminente à outra, simplesmente, por se encontrar avalizada pela maioria. Considerando meramente a questão quantitativa podemos incorrer em disparates. O que garante, por exemplo, que a maioria tenha razão? O fato é que decisões, sejam elas equivocadas ou não, vêm sendo reiteradamente aplicadas por terem obtido o aval da maioria. Esse princípio impede que em alguns casos a minoria seja representada, destinando-a à exclusão. Enfim, a legitimidade do processo decisório se encontra pautada na quantidade, inclusive, em detrimento da qualidade.

Por exemplo, um determinado bairro, após intermináveis discussões, vai finalmente ser contemplado pela prefeitura com o saneamento de uma de suas ruas, sendo que estas se encontram em igualdade de condição. A maioria prefere que a via escolhida seja aquela designada por "A", enquanto que uma minoria prefere a "B". Qual rua receberá o benefício? Certamente, a rua "A". E isso acontece, pelo menos em grande parte, somente porque a maioria das pessoas quer assim. Ocorre que os defensores da rua "B" são igualmente cidadãos e também pagam devidamente seus impostos. O que os tornam preteridos em relação aos defensores da Rua "A"? Simplesmente o fato de serem a minoria! Não adianta justificar, por exemplo, que a rua "B" careça mais da implementação do serviço que a rua "A". Vejam que para os homens públicos é mais vantajoso aplicar os recursos onde a maioria sugere, pois dessa forma, eles serão reconhecidos por uma maioria, que também definirá os seus representantes políticos. Se faz desnecessário afirmar que o exposto é atestado também no campo das idéias.

Considerando o aludido exemplo prático é válido indagar: vivenciamos ou não a supremacia da maioria? Por fim, que haja a opinião da maioria, mas que esta seja questionada antes de se tornar prática, sob pena de gerar malefícios ao complexo social.



:: Escrito por: Camus às 11h28
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Síndrome do Quixote

A cada dia a coletividade parece sufocar mais vorazmente à individualidade. As idéias majoritárias são sempre consideradas inquestionáveis e além da menor dúvida. Assim, para que algo seja verossímil, basta meramente ser acatado pela maioria, por mais estapafúrdio que o seja. Tal situação é eminentemente absurda, uma vez que o coletivismo nada mais tem sido, que uma avassaladora espécie de ditadura da maioria sobre a minoria. Dessa forma, mesmo que a maioria corresponda a um equívoco, ainda assim será suprema.

Os raros levantes do individualismo têm sido reiteradamente suprimidos, sob à justificativa de desembocar em malefícios à sociedade. O indivíduo que tenta ver para além do que a coletividade permite está passível a uma serie de sanções do tipo negativas. Quem garante, por exemplo, que as "visões" de Dom Quixote eram falsas? O fato da maioria não visualizar o que uma minoria capta não deveria ser suficiente para tornar algo inverossímil, mas infelizmente o é e tem sido desde tempos imemoriais.

Os coletivistas não concebem que as pessoas sejam singulares e querem a todo custo moldá-las de acordo com um estalão de normalidade, que é satisfatório aos seus interesses. O que foge de tal padrão é duramente criticado e considerado anormal, patológico, desprezível.

A maioria é norteada pela paixão, enquanto que a minoria, normalmente, se baseia pela razão. Os apaixonados, notadamente, se encontram cegos e são mais fáceis de serem conduzidos, enquanto que os racionais são questionadores e por isso, são mais difíceis de serem guiados pela via única da maioria. Os primeiros aceitam passivamente, enquanto que os segundos questionam antes de aceitar algo que lhes é imposto. Isso torna estes mais próximos da realidade em que estão inseridos, embora ainda assim, não sejam levados a sérios.

Confesso que tenho verdadeira aversão ao que é unânime. Observo desde algum tempo, que a multidão é acéfala, logo não pensa antes de fazer suas escolhas. Está quase sempre disposta a se entregar à primeira onda, sem ao menos se preocupar com o fato de muitas vezes não saber nada a respeito. Se você se depara com inúmeras pessoas correndo em sua direção, o que você faz? Certamente, correrá também, sem ao menos buscar saber o que houve, se se trata, por exemplo, de um suicídio coletivo. É de maneira similar que a coletividade torna às pessoas suas seguidoras. É válido, portanto, registrar que o fato de algo pertencer à multidão já é suficiente para que você desconfie de tal.

A coletividade tem duramente restringido a liberdade, que nos é um direito natural. Sem esta não há vida, logo, é provável que há tempos estejamos, mesmo que metaforicamente, mortos. Não temos vontade própria. A nossa vontade se confunde com a vontade da maioria. Somos guiados como um bando de asnos por trilhas que desconhecemos e o que é pior, não fazemos a menor questão em conhecer. Não nos vemos como indivíduos, mas sim como um massa uniforme.

Dentre os meios mais exitosos de tornar à idéia coletiva proeminente, encontra-se a mídia. Esse mecanismo dotado de ampla abrangência dita o ritmo das pessoas, sendo capaz, inclusive, de definir a forma de pensar, sentir e agir de seus consumidores. Tratamos como inquestionável as informações advindas dos meios de comunicação sem ao menos termos o trabalho de pensar sobre elas. Sei que muitos não pensam criticamente por não estarem capacitados, mas outros, lamentavelmente, assim o fazem por pura acomodação.

A coletividade é por demais moldada. O fato, por exemplo, de duas pessoas olharem para um mesmo evento, não as impedem de terem conclusões distintas sob o ocorrido. Mas a coletividade molda a forma de interpretar o acontecido de maneira a aproximá-lo do padrão por ela criado. Num país onde o índice de analfabetismo é astronômico, a coletividade reina com maior facilidade. Do que nos adianta tantas informações se a maior parte da população não as usam, por ignorância ou por desinteresse? O que é à massa que constitui a coletividade se não um pacato exército de fantoches?



:: Escrito por: Camus às 16h32
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Viajante do Tempo II

Uma vez mais revisito os longínquos anos de 1.88... buscando assim, tentar torná-los mais próximos de possíveis interessados e de mim. Tratava-se de uma época em que eu era, segundo ela, "um conhecido autor de grandes escritos". Espero que um dia seja o escrito de um grande autor. Vivia ao lado dela, daquela maravilhosa mulher que naqueles anos conduzia no seu convulsivo útero uma filha, que seria única. Vivíamos na eminência da felicidade, o que nos fazia cultivar dúvidas sob a nossa existência, de tão perfeita que era. A maravilhosa mulher também era uma renomada escritora, digna de seguidores, além de ser a revisora de meus escritos, bem como a maior inspiração de tais. Tínhamos fama e razoável fortuna. Freqüentávamos os melhores lugares, dentre os quais, a sede da pomposa monarquia, de onde se originava nossa receita. Não só éramos consultores do rei, como seus amigos particulares. O que dizíamos tinha influência no cenário local, apesar de algumas restrições do monarca que, por vezes, tinha avassaladores surtos de autoritarismo. Por conta disso tínhamos algumas severas discussões, que culminavam com o abrandamento das medidas do palácio. Essa nossa sensibilidade à justiça nos seria, por demais, caro...

Com o urgir do tempo, o rei faleceu de maneira súbita e inexplicável e o seu único filho, que há pouco perdera a mãe também misteriosamente, assumiu o tão desejado trono. O novo monarca tinha práticas arcaicas e era completamente maligno, frio, calculista e dissimulado. Dentre os seus despautérios se encontra a confiscação exacerbada dos bens civis, inclusive invadindo casas e espancando entes, mesmo que fossem crianças e mulheres. Havia se instaurado o terror, onde outrora era um torrão de paz. Doravante, a população ensaiou alguns tímidos motins, mas todos foram repreendidos abruptamente. Os corajosos arautos de tais eram capturados e decapitados em praça pública, para em seguida serem esquartejados e terem seus restos mortais distribuídos pelo reino. Após inúmeros e desgastantes desentendimentos, sobretudo os relacionados à liberdade, tão arduamente advogada por nós, eu e ela, a exemplo de outros corajosos "heréticos", resolvemos romper com o novo monarca e passamos então, a criticá-lo. Ficamos ladeando a justiça e por isso pagamos um preço desestabilizador. Perdemos tudo o que adquirimos no decorrer de nossas efêmeras vidas. Todos os nossos bens foram confiscados e nos tornamos paupérrimos.

Passamos a ser considerados subversivos. Comumente víamos nossos rostos rabiscados em troncos de árvores, como se fôssemos criminosos. Vivíamos, juntamente, com alguns amigos escritores, médicos, advogados, pintores, dentre tantos outros foragidos. A tirania queria nos capturar a qualquer preço por nos considerar corretamente uma ameaça a sua manutenção, já que ainda tínhamos poder e respeito em relação à população que, certamente, poderia nos seguir num eventual embate contra o detrator. O sossego não nos tinha mais por perto. Éramos diuturnamente perseguidos. O monarca chegou a oferecer uma vultosa quantia para quem, dos seus, nos capturasse. Ele queria nos decapitar em praça pública e mostrar aos demais o que aconteceria com quem ousasse desafiar o poder real. Enfim, se tratava de um período obscuro, que repelia a clareza da razão. Eu, ela e os amigos letrados, nada mais éramos, que meras luzes isoladas, insuficientes diante da mencionada e avassaladora escuridão.

Durante esse tempo, muitos amigos preferiram ficar ao lado do tirano, devido a segurança e as benesses, que isso implicava. Os aliados de antes, serviam de escória pensante para o governo irracional. Todos foram corrompidos e substituíram a sublime satisfação geral pela ridícula realização de interesses restritamente particulares. Para realizá-los, orientavam o rei com medidas nefastas e desumanas.

Foram nesses anos de veemente repressão e constantes fugas, que a Pequena veio ao mundo. Lembro-me que apesar do caos que ilustrava aquele cotidiano, no dia em que a menina surgiu, a manhã estava calma e lilás como ela, que em seu primeiro choro fez voar os pássaros da floresta, onde nos encontrávamos. O parto foi feito por um amigo médico, que usou toda a sua perspicácia para desenrolar o cordão umbilical que se encontrava em volta daquele pequeno pescoço. Enfim, eis que nascia a "primeira flor da primavera", como costumava dizer minha querida. Tentamos ao longo de seu crescimento ocultá-la à realidade, sendo que de certa forma conseguimos. Os tiros soavam em seus tímpanos como fogos comemorativos, que celebravam nossa felicidade. As permanentes fugas era à luz dos seus olhos, uma criativa rotina, que desembocava em sessões de divertimento. Tudo para esconder a pureza da menina daqueles dias impudicos.

O tempo passou, sem que nós passássemos. As tropas se aproximaram de tal forma que sentíamos o cheiro de sangue permeando avassaladoramente o ar. Logo perderíamos à liberdade e consequentemente à vida. Nossa preocupação não era sermos mortos, mas sim perdermos a liberdade, pois sem esta, a vida inexiste.

Diante disso, nada me restava que não ir à Estação e colocá-las recônditas numa locomotiva com destino ao futuro. Fiquei no passado, como forma de reter o avanço do tirano em direção à minha ohana. Para relembrá-los, eis a passagem que corresponde à despedida: Manhã de .... de outubro de 1.88.... chegamos à Estação após conseguirmos driblar os olhares atentos dos meus algozes, que insistentemente nos perseguiam. Diante da certeza que logo seríamos capturados, resolvo, contra sua vontade, enviá-la para longe, juntamente com a Pequena. Lembro que a manhã estava gélida e nossos corpos trêmulos de medo. A fumaça da sua cigarrilha se confundia com a neblina que embaçava minhas retinas, refletoras de sua bela imagem. A abraço fortemente e estendo meus braços à Pequena que se encontrava às suas costas. Seus longos cabelos negros surfavam nas ferozes ondas eólicas. Suas lágrimas contemplavam de forma sinuosa todos os labirintos da sua face entorpecida. Após o último beijo, as vejo partir, sem escalas, rumo ao futuro. A despedida parte em incontáveis partes o meu coração. Sofro, mas por vocês é válido o sacrifício, neste caso, condutor da felicidade. Num último flagrante, vejo um braço estendido soltando um lenço tinto, que voa rapidamente até minhas finas e paralisadas mãos. Eis o último momento que tive ao seu lado. Eis a minha única lembrança material. Sou capturado e por entre os gritos de um corredor humano, repleto da mais absurda cólera, sou levado ao cadafalso por subversão. Morro feliz por ter salvo minha ohana, por ter poupado minhas ciganas. Enfim, o meu sangue jorra como as larvas de um vulcão em erupção, enquanto a platéia atinge o ápice do delírio.

A população antes a favor passa a nos ser contrária. Torna-se, dessa forma, totalmente submissa à força real. Antes do exposto acima, fui primeiramente humilhado pela asquerosa majestade para depois ser decapitado sob o grito da multidão eufórica. Fui esquartejado e minhas partes nunca mais foram vistas...possivelmente foram à procura de minha ohana, que tantas privações e humilhações passaria, enquanto trilhava ruas escuras, esburacadas e pervertidas...



:: Escrito por: Camus às 10h13
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O sublime encontro

Ao iniciar a habitual sessão de leituras semanais, eis que me deparo com um texto, cujo título é Conversa Fiada*, de autoria de João Costa. Trata-se de um curioso debate que se passa na "antecâmara do inferno" e que tem como protagonistas Karl Marx (1818 – 1883), John Keynes (1883 – 1946) e Roberto Campos (1917 – 2001). Na ocasião as três ilustres personalidades discutem economia e recebem, atrasadamente, a excêntrica mediação de Woody Allen. Resolvi então, destacar alguns pontos, sobretudo, os dotados de teor geral, evitando assim, o economês.

Primeiro Ato: Cena 1. Na antecâmara do inferno encontram-se Karl Marx, John M. Keynes e Roberto Campos. (Curiosamente, os três conversam em português).

Marx: Onde eu estou? Quem são os cavalheiros?

Roberto Campos: Se o cavalheiro for quem eu estou pensando ser... nós devemos estar no inferno.

Keynes: Isto parece mais uma sala de espera ou uma espécie de antecâmara. E eu creio que o cavalheiro seja Karl Marx, autor de "Das Kapital", estou certo?

Marx: Certíssimo, sou Karl Marx autor de "Das Kapital" e pai da revolução comunista.

Roberto Campos: Eu sempre tive curiosidade de perguntar quem foi a digníssima senhora, mãe de tal revolução. Porém, ocuparei melhor meu tempo cumprimentando o outro cavalheiro, John Maynard Keynes, de quem por muitos anos fui discípulo mas que, com o passar do tempo, nossas ideologias se divergiram abruptamente.

Keynes: Cavalheiros divergem em ideologias mas convergem em propósito.

Roberto Campos: (fitando Karl Marx): Quisera eu que assim sempre fosse.

Marx: Esperem um momento, ambos estão a falar como se me conhecessem, mas não os conheço.

Keynes: Eu nasci no trágico ano que o cavalheiro pereceu.

Roberto Campos: Um data cômica, pois foi muito longa para que o cavalheiro empestiasse o mundo com suas idéias mal elaboradas e suas previsões bizarras. Todavia, foi muito curta para que pudesses enxergar as falhas tremendas de suas idéias e conceitos.

O debate se envereda pelos caminhos da economia, até que....

(Repentinamente, um estrondo ensudercedor ecoa pela sala. Ante a perplexidade dos cavalheiros, a porta central se abre e Woody Allen entra no recinto).

Woody Allen: Desculpem pela demora; o trânsito estava infernal!

Karl Marx: E quem é o senhor? Um outro herege do capitalismo? Pelo menos vejo que tens a chave desta porta; até o momento me achava aqui preso com esses dois lunáticos discutindo as virtudes do impossível e as vantagens do improvável.

Keynes: Como diziam os seus biógrafos, o cavalheiro nunca foi reconhecido pela delicadeza ou tato. De todo modo, também me sentia preso aqui, se bem que considero a companhia do outro cavalheiro aqui presente bastante enriquecedora do ponto de vista técnico, ainda que ideologicamente, pelo visto, permaneceremos distantes.

Woody Allen: Meu nome é Woody Allen. Eu fui escolhido para ser o mediador do debate entre os cavalheiros. Pelo visto cheguei tarde e o debate já está em seu ápice.

Roberto Campos: O senhor é aquele comediante americano? Quando foi que morreu?

Woody Allen: Eu não estou morto. Na verdade fui escolhido mediador e trazido para cá porque o autor gosta de minhas peças. Creio que Jean Paul-Sartre deveria ser o mediador mas ele está muito ocupado num congresso sobre "O existencialismo no plano sexual etéreo".

Roberto Campos: Sartre? Então realmente estamos entre a obsolescência econômica e o mal gosto filosófico!

Woody Allen: A escolha de Sartre não tem nada a ver com filosofia. É porque estamos na antecâmara do inferno, baseado em sua obra Huis Clos, que de acordo com o autor dessa peça é uma das mais brilhantes que ele já leu. Ainda segundo o autor, Sartre é um grande novelista escondido num filósofo medíocre.

Continua abaixo...



:: Escrito por: Camus às 11h16
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Marx: Não acredito no inferno; isto é apenas uma invenção burguesa para manter o status quo da classe dominante mas a revolução é o reflexo da inevitável marcha da História.

Roberto Campos: De minha parte acredito muito no inferno. Fui ex-seminarista e pensei que, devido à minha juventude devota, eu teria acumulado um certo crédito em termos de pecado. Maldita hora que eu votei em Paulo Maluf!

Keynes: Também não acredito no inferno e, se é para escolher uma peça, por que não Oscar Wilde?

Woody Allen: Os cavalheiros terão que se contentar com Huis Clois como pano de fundo e comigo como mediador. Assim como o governo, não é o ideal mas é o possível. E no final de tudo, fiquem calmos, pois cada um dos senhores voltará para o seu respectivo lugar.

Keynes: E qual seria o nosso respectivo lugar?

Woody Allen: A História, onde mais?

Marx: Estamos mortos e tudo me leva a crer que a História é um desconfortável cemitério de idéias.

Roberto Campos: Sendo assim, os idealistas não passam de ladrões de túmulo. Agora me vem à mente: por quantas vezes nossos túmulos não foram violados por uma maioria insana, enquanto uma minoria racional se ocupava em plantar sementes?

Keynes: Estranhamente, todos plantamos algo. Mas nossas sementes foram ou estão sendo esquecidas enquanto alguns buscam expor nossos corpos. O fato de a idéia ser maior do que o homem o torna um animal volátil e perigoso.

Roberto Campos: Perdoe-me cavalheiro, mas não acredito que as idéias sejam maiores que os homens ou, para tanto, mais importantes. Sempre me guiei na crença de que o homem, o indivíduo, é maior do que qualquer idéia ou qualquer entidade coletiva; preservar o indivíduo é preservar a própria humanidade.

Woody Allen: O debate parece interessante, cavalheiros, mas estamos aqui para discutir economia; filosofia ficará para o próximo ato.

Karl Marx: De nada vale discutir, economia ou filosofia, se do âmago você conseguir notar alguma real diferença. Não creio que seremos entendidos de forma alguma. Prever o futuro é um exercício de ignorância tanto maior quanto mais precisa for a previsão. Maldição! Aqueles que buscam mudar a História, jamais a compreenderão...

Woody Allen: O senhor está apenas triste porque a revolução comunista não ocorreu. Mas não fique assim! O senhor escreveu uma das mais lidas obras do século XX, em quatro volumes que...

Karl Marx: Quatro volumes?! Eu publiquei apenas um em vida e não deixei nada mais coerente escrito! Oh, não... maldito Engels!

Roberto Campos: Cavalheiros, não nos desgastemos mais. Tenho um "convite triste" para fazer-lhes baseado na obra de um dos maiores poetas brasileiros, Carlos Drummond de Andrade: "Meus amigos, vamos sofrer/ vamos beber, vamos ler jornal/ vamos dizer que a vida é ruim/ meu amigo vamos sofrer. Vamos fazer um poema/ ou qualquer outra besteira.../ vamos beber uísque, vamos..."

Keynes: Belíssimo e digno de fazer inveja a Shakespeare. Aceito o convite de bom grado; vamos falar de tudo, menos economia, a não ser que o cavalheiro tenha alguma boa opinião a respeito do mercado de capitais do ano 2000.

Marx: Já que estamos na antecâmara do inferno, deve haver algum lugar por aqui em que possamos nos inebriar não apenas com idéias mas, quem sabe, até com algumas mulheres...

Woody Allen: Esperem um momento: e quanto ao debate?

Roberto Campos: Por que você não se apressa um pouco e tenta pegar o congresso sobre Existencialismo e sexo? Se o ser humano for tão previsível como eu penso que é, Freud e Jung vão começar a trocar tapas a qualquer momento. Ainda assim, acredito num futuro melhor, mesmo que distante, pois como dizia o grande filósofo francês Raymond Aron: "Perdemos o gosto das profecias, mas não esqueçamos o valor da esperança".

Fim do Primeiro Ato.

Para assistir ao aludido debate confesso que, provavelmente, não faria a menor cerimônia em ir ao inferno. Em tempo, é válido afirmar que o exposto se trata do primeiro ato, o que nos faz crer que novos atos virão. Aguardemos então.

Aos que desejarem ler o artigo de João Costa na íntegra, o endereço se encontra abaixo:

*COSTA, João. Conversa Fiada. In: Mídia Sem Máscara, jan/2005 [Internet] http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=3174



:: Escrito por: Camus às 11h13
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Admirável ano novo

Eis que o novo ano rompe a parede uterina da ansiedade e nos é apresentado sob um grande festival de competições ao vivo e a cores. Antecedendo o fatídico minuto de silêncio em homenagem às vítimas das ondas gigantes, as avassaladoras ondas televisivas noticiam que em Brasília serão 12 minutos de fogos, enquanto que a Cidade Maravilhosa cronometrará 15 minutos. Nesta, cerca de 700 mil pessoas fazem serão na praia, já na Paulista paulistana mais de 1 milhão de pessoas refutam facilmente o axioma físico que advoga que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. De uma janela direcionada ao nada, me ponho a questionar o que restará à insana multidão após a propalada queima de fogos e a enxurrada de esperança por um novo ano? Aos garis muita sujeira, o que atesta a inquestionável utilidade de seu ofício. Os resquícios do ano anterior deslizam pela sarjeta e desembocam em meio ao vão. Considerando outrora, certamente, esse ano vai para a galeria dos professores frustrados que não conseguiram ver seus visíveis ensinamentos absorvidos por seus discentes míopes. Portanto, aqui jaz mais um ano velho, ignorado sob sete palmos de terra brasilis.

O fato é que a partir do momento em que nasce, o novo ano começa a envelhecer celeremente e logo, a exemplo do anterior, perecerá como um indigente, sem direito a tributos. O que esperar desse moribundo? Primeiro é mister conceber que, não é o ano que torna as pessoas melhores, mas sim as pessoas que podem torná-lo mais agradável. Que não adianta abraçarmos o novo ano com vestes brancas sem que, no entanto, no decorrer deste, façamos com que ele seja cristalino. É preciso acabar com a acomodação de todas as horas, com a resignação de todos os anos. De nada adianta desejar um feliz ano novo se não contribuirmos para torná-lo assim. Não podemos desanimar diante dos erros, pois são justamente eles que nos apresentam a maior gama de aprendizagem. É preciso realizar algo, sem a ilusão de que o tudo é possível. A permanente busca por realizações é o que nos tornam úteis aos outros e a nós mesmos. É imprescindível que sejamos, concomitantemente, satisfeitos e insatisfeitos. Temos não só que desejar, mas, principalmente, buscar sempre mais e dessa forma, fazer com que a roda de nossas vidas se mantenha em pleno movimento. Que possamos praticar o que aprendemos em anos anteriores. E que aprendamos com o novo ano, que já começa a envelhecer. Eis o que desejo do admirável e velho ano novo.



:: Escrito por: Camus às 15h20
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