Albert Camus

Constatar o absurdo da vida não pode ser um fim,
mas apenas um começo...

Albert Camus






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Acessos Juvenílicos:






O que dizer à humanidade?

Um amigo de longas datas, curiosamente, me questionou sobre o que eu diria à humanidade se me fosse dada essa oportunidade. Indiscutivelmente, faria uso das sábias palavras do vultoso Shakespeare, um entendedor magistral da alma humana (você, certamente, se lembrará de alguma passagem de sua vida). O que um dia fiz sobre uma mesa de bar faria com o maior prazer sob o olhar da humanidade. Eis abaixo o que recitaria em alto e bom tom:

Um dia você aprende que depois de algum tempo você aprende a sutil diferença, entre dar a mão e acorrentar uma alma. E você aprende que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começa a aceitar suas derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto e não com a tristeza de uma criança. Começa a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. E aprende a construir todas as suas estradas no hoje porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão. Depois de um tempo você aprende que o sol queima se ficar exposto por muito tempo. E aprende que não importa o quanto você se importe, algumas pessoas simplesmente não se importam, e aceita que não importa quão boa seja uma pessoa, ela vai feri-lo de vez em quando e você precisa perdoá-la, por isso. Aprende que falar pode aliviar dores emocionais. Descobre que se leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da vida. Aprende que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que você tem na vida, mas quem você tem na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprende que não temos de mudar de amigos se compreendermos que os amigos mudam, percebe que seu melhor amigo e você podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobre que as pessoas com quem você mais se importa na vida são tomadas de você muito depressa, por isso sempre devemos deixar as pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vejamos. Aprende que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos. Começa a aprender que não se deve comparar com os outros, mas com o melhor que pode ser. Descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto. Aprende que não importa onde já chegou, mas onde está indo, mas se não sabe para onde está indo qualquer lugar serve. Aprende que, ou você controla seus atos ou eles o controlarão, e que ser flexível não significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação, sempre existem dois lados. Aprende que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as conseqüências. Aprende que paciência requer muita prática. Descobre que algumas vezes a pessoa que você espera que o chute quando você cai é uma das poucas que o ajudam a levantar-se. Aprende que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que se teve e que você aprendeu com elas do que com quantos aniversários você celebrou. Aprende que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dar o direito de ser cruel. Aprende que há mais dos seus pais em você do que você supunha. Aprende que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são bobagens, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Descobre que só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame, não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabe como demonstrar ou viver isso. Aprende que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes você tem que aprender a perdoar-se a si mesmo. Aprende que a mesma severidade com que julga, você será em algum momento condenado. Aprende que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido o mundo não pára para que você o conserte. Aprende que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores. E você aprende que realmente pode suportar, que realmente é forte, e que pode ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que você tem valor diante da vida. Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar se não fosse o medo de tentar.

William Shakespeare

Como não poderia deixar de ser, dedico o presente post, especialmente, à Luz que reveste a Lua.

FELIZ ANO NOVO!!!



:: Escrito por: Camus às 08h39
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O que há para além do Natal?

Poucos minutos nos servem de linha divisória entre o sorriso da família reunida e o choro divino desse ano que se escasseia dissipadamente; Com ele serão 2004 choros; Encontra-se também no excesso de pranto, à superioridade de Cristo; É provável que ninguém tenha chorado tanto, enquanto tantos sorriam; Muitos bebem e comem respectivamente o sangue e o corpo do "Cordeiro de Deus"; Enquanto que para outros só restam o vento gélido do nada; As lembranças são trocadas; As esperanças se resumem a trocados; Os esquecidos são lembrados somente pelas estatísticas; Os sinos são tocados sem que se saiba por quem dobram; "A feliz noite" para alguns, nada mais é, que "mais uma infortuna noite" para outros; No instante em que nasce o Salvador, muitos morrem sem direito à salvação; O barulho dos aplausos e gritos de "Feliz Natal" são paradoxais à solidão e ao infeliz silêncio atroador de algumas cifras humanas; Sob fogos coloridos encontram-se olhares incolores; No interior das casas, em torno das árvores, muitos não vêem a hora de abrir os presentes; Nas ruelas da vida, muitos começam a se tornar passado; No dia do surgimento do filho, todos os olhos estão voltados para a vermelha imagem distorcida e imortalizada de São Nicolau, o papai do consumismo; No dia em que festejamos o nascimento de um menino e a chegada de um velho, tantos morreram no lixo, sem o tempo nem o luxo de ficarem velhos. A esses não adianta desejar Feliz Natal!!!



:: Escrito por: Camus às 15h28
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Feliz Natal

Quero de maneira oportuna aproveitar a véspera de natal para agradecer a todos os que aqui estiveram elogiando, criticando ou simplesmente apreciando o conteúdo veiculado no singelo juvenília. Aprendi com cada comentário e espero que meus escritos, por mais aleatórios, que por vezes sejam, tenham lhes proporcionado algum ganho, seja ele qual for. Dessa forma gostaria de desejar a todos, um FELIZ NATAL!!!



:: Escrito por: Camus às 09h22
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Desarmar é matar!

Por mais inquestionáveis e reveladores que sejam os fatos relacionados ao desarmamento civil, o governo federal, a parte majoritária da mídia e dos nossos representantes políticos, bem como outros segmentos, insistem em negar tudo com uma desfaçatez indescritível, proporcionando assim, um total desserviço à sociedade. Para isso, não usam sequer argumentos capazes de consubstanciar uma mísera conclusão, preferindo adotar posturas obsessivas, esquizofrênicas e dogmáticas que negam com veemência a verdade concreta e documentada. Enfim, se limitam a papaguear clichês e sofismas que não se sustentam à menor prova.

Como me considero insistente apresento, a seguir, alguns argumentos que justificam o meu posicionamento desfavorável ao famigerado desarmamento.

I – Nenhuma sociedade se desenvolve sacrificando as liberdades, dentre as quais, a liberdade de possuir bens – direito de propriedade – já que sem ela o indivíduo estará sempre à mercê do Estado. Se está claro que o desarmamento obstaculiza o desenvolvimento, por quê adotá-lo?;

II – Todas as sociedades que aplicaram o desarmamento tiveram o seu índice de violência ampliado. Por quê o Brasil teria o privilégio de ser exceção à regra? Vejam as experiências: Turquia em 1911, URSS em 1929, China em 1935, Alemanha em 1938, Camboja em 1956, Guatemala em 1964 e Uganda em 1970. Aos que preferirem experiências recentes, ei-las: Há pouco mais de um ano, a Austrália confiscou as armas dos seus cidadãos. 640.381 armas foram entregues e destruídas, num programa que custou aos contribuintes mais de US$ 500 milhões. Após um ano, observou-se o seguinte: Os homicídios aumentaram 3,2%, as agressões 8,6% e os assaltos a mão armada 44%. Verificou-se ainda, que somente no Estado de Victória, os homicídios subiram 300%. Para além disso, houve o aumento de invasões às residências. O mesmo ocorreu no outrora pacato Reino Unido, onde os crimes a mão armada aumentaram 35% no primeiro ano após o desarmamento. Já os assassinatos tiveram um crescimento de 32%;*

Nos EUA há entes federativos que aceitam o porte de arma, enquanto outros não. Dessa forma, os estados que possuem leis liberais quanto ao porte de arma, apresentam índices de crimes violentos muito inferiores à média nacional, enquanto que os estados contrários ao armamento civil possuem índices superiores à média nacional.** Por fim, o desarmamento civil nada tem a ver com a redução da criminalidade, muito pelo contrário, trata-se de algo que a incita;

III – O direito à vida, à liberdade e à propriedade são inalienáveis, logo, não podem sofrer interferência do Estado. O Leviatã não satisfeito em não garantir a segurança das pessoas, agora, contribui decisivamente para colocá-las ainda mais em perigo;

IV – O Brasil colocou em prática uma medida desprovida de debate público real, isto é, de maneira autoritária. Trata-se de algo que interfere na vida de todos, mas ainda assim, as pessoas não foram ouvidas. A sociedade teria obrigatoriamente que discuti-la de maneira meticulosa, bem como de buscar conhecer as experiência históricas;

V – É óbvio que a medida diminui drasticamente a capacidade de resistência da população e consequentemente aumenta a ousadia e a segurança dos criminosos. A partir do momento que o bandido tiver a certeza de que o cidadão não estar portando arma, aquele invadirá mais tranqüilamente a casa deste. Agora, pergunte a um bandido o que ele acha do desarmamento?

VI – O principal vilão do crime é a impunidade mas, no entanto, o governo nada tem feito para eliminá-la. Como quer abrandar o índice de violência?

VII – O Desarmamento não conta com nenhum embasamento lógico e empírico. Se alguém me demonstrar que o desarmamento diminui a violência eu esqueço a minha posição e ainda me redimo perante os que já me ouviram criticá-lo;

VIII – Até agora, as armas recolhidas são em grande parte velhas e enferrujadas, o que demonstra que não estão sendo utilizadas, ao contrário das armas dos bandidos, cada vez mais poderosas;

IX – O governo desarma os cidadãos (como se fossem eles os criminosos), mas deixa os bandidos armados, aumentando o perigo que aqueles correm. Dessa forma, desarma-se possíveis vítimas, não os seus virtuais agressores. Tolerar os intolerantes levará a destruição dos homens bons;

X – A cada dia se torna mais cômoda a situação dos bandidos no Brasil, o que serve como estímulo à criminalidade.

XI – Por fim, todo os regimes ditatoriais começaram pelo confisco das armas, nas mãos dos cidadãos. Quando um governo almeja controlar totalmente uma nação, primeiramente extrai do cidadão o direito e a possibilidade de se defender. Foi assim na Rússia de 1917, na Alemanha hitlerista, na Espanha de Franco, no Portugal de Salazar, na ilha presídio de Castro e é claro, na Pindorama de Vargas. Este por sua vez, chegou a fechar a Tiros de Guarda, uma instituição tradicional do Brasil.

Me resta esperar o bom senso dos leitores em relação ao perigo que corremos, diante dessa medida inconstitucional, demagógica, estapafúrdia e irresponsável. Vos deixo com Karl Popper:

“Não é possível discutir racionalmente com alguém que prefere matar-nos a ser convencido pelos nossos argumentos. (...) Não devemos aceitar sem qualificação o princípio de tolerar os intolerantes senão corremos o risco da destruição de nós próprios e da própria atitude de tolerância.”

* Dados extraídos do artigo Desarmamento diminui a violência? de autoria de Félix Maier, que pode ser encontrado no seguinte endereço: http://www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=2589.

** Idem



:: Escrito por: Camus às 13h22
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O valor do que não se tem

Por que tantos lutam com veemência por uma difícil sobrevivência, quando mais cômodo seria, talvez, abdicar da vida, entregar-se à morte, a velha senhora de certezas incertas? Muitos, diante de overdoses de desespero, atentaram violentamente contra a sua própria vida, dando-lhe um golpe de misericórdia, capaz de acabar definitivamente com a dor. No entanto, há muitos que suportam tal tentação. O que impede pessoas destituídas de perspectivas, quaisquer que sejam, atentar contra a vida, o mais sublime direito natural? Não parece tão difícil fazê-lo. Sofrem, sofrem, mas conseguem em sua maioria suportar heroicamente a dor. Tantos passam privações astronômicas, mas permanecem vivos. Enfim, de alguma forma sobrevivem. Buscamos a todo custo a sobrevivência, por mais angustiante que em algum momento seja.

Tal devoção à vida se deve ao fato de sua efemeridade. Desvalorizamos a abundância, o excesso, a demasia, ao passo que concedemos caráter de preciosidade ao que não temos em quantidade suficiente. Vamos então, aproveitar intensamente a vida, enquanto a temos.



:: Escrito por: Camus às 10h54
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Concha de prata

Após horas mergulhado no mais silencioso sono, acordo diante de um ensurdecedor e repentino barulho uníssono; A entrada dos feixes coloridos de luzes, que denunciam a saída do dia incolor, ultrapassam as retorcidas fendas da janela e aquecem a retidão da minha prazerosa alma fria de dor; Eis que me surge a sua ordeira imagem, em cor lilás, à margem do caos do cais; Penso nas pervertidas estradas onde bêbado me purifiquei, enquanto a achava sóbria em cada olhar perdido que desafiei; Nas opacas pérolas contidas nas cegas aureolas livres que foram encontradas em orelhas perdidas; Nos límpidos e inúmeros porcos que no repugnante escuro contei, como se fossem desejados corpos desfilando numa passarela que um dia montei; Nas nuvens algodoeiras que transformei em seus perfeitos traços com meus imperfeitos trapos; Enfim, no princípio das estrelas que se findaram nos tais sinais rabiscados no colo dos teus seios, que anseios fatais; Deparo-me, finalmente, com as curvas do seu corpo diurno, onde minhas mãos deslizam sem freios em noites turvas de receios.



:: Escrito por: Camus às 14h38
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A acomodação de todas as horas

Inúmeros são os resignados. Tais preferem a estabilidade e rigidez da prisão à insegura e frágil liberdade. Os aludidos tolos mergulham num mar de monotonia para depois, com um sorriso amarelo, se enxugarem com as densas toalhas de marasmo e se equilibrarem sobre pernas trêmulas e covardes. É preciso que alguém, em voz alta, vos diga: "Aprendamos com os pássaros, que preferem a possibilidade de se tornarem presas, que ficarem presos; De voarem horas em busca de comida, que tê-la ao alcance das asas. Optam pela possibilidade de serem alvos de atiradores, que viverem atirados numa gaiola, onde supostamente estarão seguros. Para eles de nada adianta a vida sem liberdade". Suplante os muros e as grades e caminhe sobre a ponte que há entre o medo de lutar e a luta pela liberdade, enfim, entre o limite da gaiola e a imensidão do céu. Quem não corre perigo já morreu e não sabe. Por isso, abra os olhos contra a acomodação de todas as horas.



:: Escrito por: Camus às 10h23
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Oito

Por vezes, me pego folheando um velho caderno oriundo da juventude (período no qual acreditamos que iremos mudar o mundo) e me deparo com escritos inimagináveis se olhados de minha fase adulta (período no qual constatamos que ao invés de mudar o mundo, foi este que nos mudou, embora também tenha sido um pouco modificado). Abaixo um exemplo concreto do que vos digo.

 

Já me ocorreram oito fases distintamente semelhantes ao lado de mulheres vibrantes; A primeira encontrei num restaurante, onde desfrutamos um namoro insignificante; A segunda, uma tremenda vagabunda, quantos não dormiram com aquela imunda? A terceira, uma má parceira, num piscar de olhos me deu uma rasteira; A quarta, um rápido fim, pois não confiavas em mim; A quinta, por incrível que pareça, costumava rezar antes de transar; A sexta, com esta melhorou, já que não me trouxe nenhuma dor, essa sim foi feita pro amor, mas por não me identificar tive que a deixar ou será que foi ela quem me deixou? A sétima, não tenho nada a falar sobre esta a tristeza paira no ar, mas como experiência valeu com ela três anos e meio passar; A oitava... chega! Estou feliz sem atriz. Finalizo, pois a monotonia estava domando a poesia. A poesia? Que putaria!



:: Escrito por: Camus às 15h21
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"CONSIDERAÇÕES EM TORNO DA TERRA DE CEGO"*

Com o propósito de subsidiar o post anterior, vos deixo com um escrito de Darcy Gervan.

 

"Em terra de cego quem tem um olho,

bota no prego.

Em terra de cego quem tem um olho,

vende com ágio.

Em terra de cego quem tem um olho,

mantém bem aberto.

Em terra de cego quem tem um olho,

corre o risco de tê-lo vazado.

Em terra de cego quem tem um olho,

dorme com um aberto e o outro fechado.

Em terra de cego quem tem um olho,

é exilado.

Em terra de cego quem tem um olho,

está muito bem segurado.

Em terra de cego quem tem um olho,

não conta para ninguém.

Em terra de olho quem tem um cego,

errei!

Em terra de cego quem tem um olho,

anda cabisbaixo.

Mas,

Em terra de cego quem é cego, é cego.

Em terra de cego quem é cego, é rei.

Em terra de cego quem é rei, é cego.

Em terra de cego quem é rei, é lei.

Em terra de cego,

não digam que eu não avisei. . .

Em terra de cego. . .

Ai vida . . . cansei!"



:: Escrito por: Camus às 13h29
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Em terra de cego quem enxerga é... morto!?

Há alguns dias fui convidado por um docente de uma universidade, (com quem, por vezes, tenho agradáveis debates) a participar de um programa televisivo, onde minha incumbência seria criticar o desarmamento civil. A princípio não há nada de estranho, tendo em vista que, através de artigos, já fiz isso. Agora, indiscutivelmente, a TV tem outra abrangência, atingindo inclusive, aqueles que normalmente não lêem diários e/ou revistas. Dessa forma, concomitantemente, a minha responsabilidade também seria ampliada. Como costumeiramente sou responsável com o que digo, preciso analisar de forma meticulosa os convites que me são dirigidos, mesmo que por pessoas que se designam amigas. De todo modo, a referida proposta é tentadora já que, caso aceita, possibilitará que eu ocupe um espaço que reiteradamente defende o desarmamento.

Todos os exemplos históricos recomendam que as armas não devem ser extraídas de mãos civis, mas ainda assim, a mídia, nossos representantes e a massa que constitui a nossa pindorama, acreditam veementemente, por ignorância ou por interesses particulares, estarem corretos. Em síntese, o desarmamento é uma unanimidade, só que, a exemplo do que nos disse Nelson Rodrigues, é burra.

Tal convite ainda não completamente aceito, me trouxe à baila o seguinte ditado popular "Em terra de cego quem tem um olho é rei". Não quero com isso, dizer que sou um ser que enxerga mais que as outras pessoas, sob pena de me considerarem soberbo. Mas, inegavelmente, parte significativa das minhas defesas e críticas são odiadas pela grande maioria. Mesmo que não enxergue além do que a multidão alcança, não posso me furtar de afirmar que, visualizo algo completamente diferente. Não espero nem quero respaldo por conta disso, apenas desejo que as pessoas questionem mais. Não aceitem o que parecem ser verdades absolutas. Diante disso sugiro e espero que sejam cépticos, já que a aplicação do aludido ditado na realidade em que estamos inseridos, só ocorre em casos extraordinários.

O homem ao nascer encontra uma sociedade montada, consequentemente, com as suas regras estabelecidas e difíceis de serem quebradas. Existem meios (preventivos e punitivos) que garantem a execução integral das normas. Dessa maneira, na medida em que se socializa, o homem absorve as formas, segundo Durkheim, de pensar, sentir e agir majoritárias na sociedade. Há, portanto, uma espécie de receituário, que caso seja contrariado, o desordeiro será considerado doente e afastado do convívio social, como um ser abominável.

Todas as sociedades são conservadoras, logo qualquer manifestação diferente é considerada anormal, por conseguinte passível de punição ou seja, sanção negativa. Se alguém comete um crime é (ou pelo menos deveria ser) preso. Se fala ou usa algo fora dos padrões é agredido com vaias e ameaças. É como numa aula, quando um determinado jovem comenta algo brilhante e é duramente reprimido pelo professor. Isso ocorre também em escala macroscópica, isto é, na sociedade, quando pessoas sofrem sanções ao questioná-la. Por outro lado, quando consegue fazer bem o dever de casa é contemplado com as chamadas sanções positivas, dentre as quais, promoções profissionais, aplausos, dentre tantas outras.

Por conta disso não podemos crer que em terra de cego quem enxerga se torne rei. Em tais condições, quem vê é anormal, louco, subversivo e por isso, deve inexoravelmente ser cerceado e execrado. Imaginem uma aldeia onde todos os aldeões são cegos. Certo dia nasce alguém que com passar do tempo descobre que é diferente. Que é dotado da incrível capacidade de enxergar o sol, as florestas, os rios, enfim, tudo que o seu povo nunca viu e, provavelmente, nunca verá. Ao manifestar aos demais a recém descoberta, primeiramente será ignorado, depois, caso persista com tal idéia será considerado louco, possuído, dentre uma infinidade de acusações. Se a loucura manter-se é provável que ele seja preso ou quem sabe morto.

A sociedade não permite o que considera discrepante em relação ao padrão por ela adotado. Indivíduos que questionam suas verdades são encarados como uma enorme ameaça e precisam ser rapidamente eliminados pelos que controlam a ordem vigente. Por isso mesmo, ainda me encontro a pensar sobre o convite em tela. Sei que portas serão fechadas por conta das minhas declarações. Dessa forma, caso queira agir do ponto de vista da promoção social, de me tornar, quem sabe, conhecido e respeitado, tenho que ser favorável ao que sempre fui contra, isto é, o desarmamento civil. Tenho que repetir o que a sociedade tanto nos manda falar. Por outro lado, se quiser aflorar a responsabilidade de alguém que sentou durante alguns anos em bancos acadêmicos e que durante a formatura prometeu cumprir com a verdade factual, tenho que ir ao tal programa e manifestar o que realmente penso.

A grande maioria já tem a sua decisão. A grande maioria prefere manter-se cega. Mas ainda assim, gostaria de deixar o seguinte recado: Não somos cegos incuráveis, embora a quantidade de cegos seja cada vez maior. O fato é que há uma ideologia, sobretudo, coletivista, que mascara a realidade com uma densa coberta negra. Precisamos enxergar para além das rígidas nuanças que reveste o muro do patente.

Se você é dos milhares de brasileiros que conseguem enxergar, tome cuidado. Em terra de cego, você corre perigo.



:: Escrito por: Camus às 09h33
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