
A força ditatorial de valores, costume e moral nos obriga silenciosamente à correção. Correção aos olhos de quem? Nos impõe algo, sem sequer nos dar a oportunidade de questionar. Somos reféns dessa força, dessa forca, que nos agride, embora digamos que nos agrada. Quero ter o doce direito de errar, de derrapar em curvas perigosas, ociosas, de mergulhar em equívocos sem saber nadar, de receber um não, um empurrão, de cair e de poder me levantar do chão. Quero ousar, arriscar, me magoar, sangrar. Quero ainda a instabilidade, a interrogação, a reticência, a abstração, a ausência. Enfim, quero o que parte das pessoas querem mas insistem em dizer que não, como se a vida fosse somente vinho e pão, Bíblia e Alcorão. Nenhum ser merece tal vida, nenhuma vida merece tal ser. É preciso arriscar, rabiscar, riscar o seu destino, ofuscar o óbvio, dobrar o sino, encarar o desafio e ir de encontro ao desatino. Não somos predestinados, mas sim senhores dos nossos passos e laços. A vida é maravilhosa e válida para os que a levam e não para os que são levados por ela.
O presente escrito é dedicado à memória do pai da LUZ, que reveste a LUA. Os meus agradecimentos por seus ensinamentos de como viver verdadeiramente.
Após o término de mais um dia, feche a noite e abra o carro. Esqueça o cinto e sinta-se bem, aquém e além de si. Tape os ouvidos para todos os sons e os abra exclusivamente para Janis Joplin. Siga adiante, radiante, antecipe a felicidade. Acelere sem preocupação com freios. Rompa todos os sinais a 180 Km/h. Não pare, sare, sinta-se zen. Ultrapasse a ponte que nos liga. Dirija-se ao sexto andar, ande bem. Deixe que o vento das janelas opostas circule em nossos corações e acione o mensageiro dos ventos. Uma vez no seu quarto, sejamos um só, sem deixarmos pó nas pegadas. Vamos em direção ao Olimpo sem proposta de retorno. A coruja corta o ar, o cangaceiro para de tocar e o celular alarma com a seguinte mensagem: "Ainda é um sonho ou já é realidade?" Responda a você mesma, o que já sei há tempos imemoriais.
Você quer, eu finjo que não. Digo não poder, você insiste em querer. O erro nos atrai ao tempo que o acerto nos distrai. Esqueço seus olhos, você os finca nos meus. Eu evito, você persiste. Cruzo os braços, você abre os lábios. O farol circundado por insetos em festa nos acerta, nos ofusca e desenha nossa penumbra na infinidade do nada. Não há mais vácuo entre os corpos nem porcos na estrada. Não há feridas que persistam, todas estão cicatrizadas. Epidermes presas, mãos desatadas. O perigo se encontra ladeado diante de um momento tão esperado, tão adiado, tão evitado, mas agora, perigosamente desejado. Tanto tempo de luta e agora meus traços sangram em seus braços. Meus estragos são tragados por você. Virilidade sua, fraqueza nua. O vidro quebra, o ferro enferruja. Fujo sujo, mas do que me adianta fugir se sempre estive capturado aqui e alhures?
Ao nascer num local de doutores, bacharéis e padres disseram-me: "Bem vindo doutor Camus"! O primeiro filho, o primeiro médico. Mas será que era isso que o garoto queria? "Claro que sim, suas feições são patentes." Era o que vociferavam os intrometidos parentes. O especial Camus se transformou num Camus comum e o médico, num questionador de sombras. "Revoltado"? "Ateu"? "Maluco"? "Tudo isso"!
Desculpas, por que não me perguntaram antes?
Olho para você sedento de aproximação, mas desmancho em omissão e me parto ao deixá-la partir; Intimidado só a dedico o meu olhar, que é imediatamente refletido pela magia do seu; O ambiente nos favorece; O tempo desesperado não espera e a oportunidade nos esquece.
Tento insistentemente me desviar do plausível e jogar-me em teus braços, mas a possibilidade providencia improvisadamente o impossível, deixando sua imagem em destroços.
Casualmente nossos caminhos voltam a se entrelaçar; Negativamente a vejo escapar nas entrelinhas da minha imaginação vulgar.
Sua presença meio que predestinada insiste em se repetir; Fragilizado, fortaleço-me em desistir, mas agora é tarde, encontro-me atado ao seu lado.
Cuspo palavras eruditas para envolvê-la mulher bonita; Agradeço por você se agradar; Arrisco-me a finalmente conquistá-la; quando meus pensamentos já a povoaram.
É prazeroso me enroscar em você sem noção de tempo e espaço; A adoro por incalculáveis instantes, que ao se alongarem se tornam estressantes; Não mais me satisfaço e perco o laço.
Míope? Lúcido? Não a vejo como antes, mas continuo lhe vendo; Tudo em tão pouco tempo, configurou-se em uma áspera monotonia em que a racionalidade foi acionada por Beethoven na sua nona sinfonia.
Saio de sintonia, a vejo como um elo insignificante; Afasto-me pela lei de repulsão; O mar secou e a areia fugiu de forma urtigante pelos dedos da mão.
Parece gostar do meu desgosto; Procura-me, mas não quero me achar; Sei que muito lutei por você contra a inexplicável força do meu corpo e após vencer, resolvi por meio dessa força invisível por si só perecer e te esquecer.
Vejam o que encontrei dentro da obra A Riqueza das Nações de Adam Smith. Coincidentemente este autor falava que as relações econômicas eram regidas por uma mão invisível, no meu caso, os relacionamentos são regidos por uma força invisível. Para efeito de informação, escrevi o exposto aos 13 anos.
Certo dia, o Sr MaC me emprestou um livro cujo título era Notas de um velho safado, de autoria do alemão Charles Bukowski. Segundo MaC, o referido livro guardava algumas semelhanças comigo, eis o motivo do empréstimo.
Sempre me considerei um leitor voraz, daqueles que ler tudo que encontra, até mesmo frases em muros, outdoors, adesivos e embalagens. Quando começo um livro, vou até o fim, por mais que sua leitura seja entediante. Tantas foram as vezes que pensei em desistir de ler determinados livros, mas ainda assim, os devorei por completo, tamanho é o meu apetite para leitura. Com Bukowski, vi o tabu ser facilmente quebrado e fui devorado, apesar de intermináveis semana de insistência. Não consegui ultrapassar a quadragésima página.
Para efeito de informação é pertinente afirmar que este alemão, que cresceu e viveu nos EUA, tem reputação de escritor maldito e sua obra é conhecida, sobretudo, pelo visível aspecto obsceno. Mas a desconexão de idéias e o marasmo que a leitura me provocou foram os verdadeiros responsáveis pela inédita desistência e assim, sucumbi diante do "velho safado".
Vejam as frases rabiscadas em caixas de camisa por Bukowski "em dois dias de porre" e tirem suas conclusões a cerca do aludido autor:
"Pensamentos bonitos e mulheres bonitas jamais perduram."
"Se você quiser saber onde Deus está, pergunte a um bêbado."
"Nenhuma dor significa o fim da sensibilidade; cada uma de nossas alegrias é uma barganha com o diabo."
"A diferença entre a Arte e a Vida é que a arte é mais suportável."
"Prefiro ouvir sobre um vagabundo americano vivo do que sobre um Deus grego morto."
"Não existe nada tão chato quanto a verdade."
"O indivíduo bem equilibrado é insano."
"Quase todo mundo nasce gênio e é enterrado imbecil."
"Um intelectual é um homem que diz uma coisa simples de uma maneira difícil; um artista é um homem que diz uma coisa difícil de maneira simples."
"Se você quer saber quem são os seus amigos, arranje uma sentença de prisão."
As frases acima estão muito aquém do potencial devastador de Bukowski. Para se ter uma noção dos seus escritos é necessário ler ou quem sabe, tentar ler o livro.
Por fim, faço questão de duas ressalvas. Também emprestei um livro ao Sr. MaC, tratava-se de A Peste, de Albert Camus. Digam-me então, se não é injusto? Quanto a suposta semelhança mencionada pelo Sr. Mac, não a encontrei, talvez por não ter ido adiante.
Me entristeço ao vê-la triste ao passo que fico triste ao entristecê-la. Pela manhã me deparo com a sua felicidade para logo depois vê-la se afogar num tenebroso mar de consternação. Seria eu o motivo da sua tristeza? A felicidade a traz para perto de mim, já o infortúnio a leva de volta. Tenho, por vezes, a impressão que causo sofrimento involuntário aos que me circundam, por isso, quase sempre me mantenho à distância. Volto então a me questionar: seria eu o motivo da sua tristeza?
Após horas de conversas regadas a vinho, me encontro deitado ao chão e Marcelo, sobre o sofá. O celular deste toca:
- Alô.
- Oi Marcelo, tudo bem?
- Sim!
- Então, vamos sair?
- Estou há horas querendo ir ao banheiro e não consigo, como então você quer que eu vá ao seu encontro?
- ...
Após alguns anos tive que me despedir da pequena Oran, que me acolheu de braços abertos e sorriso fácil. O motivo era a incompatibilidade entre o ensino ministrado pelas escolas locais e as minhas ambições, ou melhor, as ambições da minha família – ou de parte dela - em relação ao meu futuro, que nada tinham de locais. Na verdade a trajetória da minha vida estava definida por meus familiares desde a época da gestação. Era um feto e o meu destino já estava traçado nos díspares e antagônicos sonhos dos meus pais. De todo modo teria que trilhar um caminho que não escolhi. Aliás, o que não nos é imposto? Parecemos ter uma tendência à arbitrariedade. Me puseram um nome, me mandaram à escola, me disseram o que era certo e errado, sem nunca me pedirem uma única opinião. Eis a socialização, que não deixa de ser em parte, uma servidão. Isso me faz lembrar Stuart Mill ao afirmar que "a primeira lição da civilização é aquela da obediência". É difícil sair deste labirinto já que somos detentores de um instinto de submissão tão proeminente quanto a sede de poder.
Não culpo meus pais por definirem certas coisas por mim, que pais não agem assim? Com a justificativa de que querem o melhor para os descendentes acabam por tornarem suas, a vida do filho. O problema é que há filhos que se rebelam e escolhe caminhos alternativos àqueles apontados pelos pais, o que desemboca numa profunda frustração por parte destes. No meu caso especificamente os objetivos dos meus pais em relação a mim eram divergentes. Enquanto meu pai queria que eu ficasse em Oran à sua disposição, minha mãe defendia a minha saída para a capital onde poderia aprofundar meus estudos. Minha mãe driblou o patriarcalismo da família e concretizou com maestria sua vontade. Fui então, enviado à capital.
Me deparei com intensas mudanças. O modo de vida antes tão singelo tornou-se artificial e irritante. Passei a contar os amigos nos dedos de uma só mão e ainda me restavam dedos. A distância ao colégio, outrora medida em passos se tornou imensa e passou a ser verificada em intermináveis minutos. Os riscos tornaram-se alarmantes, fui barrado por jovens delinqüentes, ao lado da escola, mas como não tinha nada de valor, me deixaram ir (não sabem eles que o grande valor da vida encontra-se em nós). Em Oran sempre andei pela madrugada, atirando pedras e as ouvindo trincar e cuspir fogo no paralelepípedo, já na capital isso me tornaria um Kamikaze. Enfim, o calor, o barulho, a inquietação, tudo era (in)suportavelmente novo. As noites repletas de nostalgia me levavam à Oran e os dias me traziam de volta. Não há como fugir de grades abstratas.
De tudo isso o que mais me chateava era a superficialidade das relações. Os contatos pessoais eram raros e deprimentes, já os formais freqüentes. Os primeiros, parte das vezes eram desprovidos de conteúdo e repletos de inutilidades. Gradativamente pude perceber quanto valia a pacatez de Oran. Infelizmente, na maior parte das vezes, só passamos a valorizar algo quando não o temos mais, ou seja, quando é tarde demais.
Fui matriculado numa escola freqüentada por pessoas de classe média alta. A primeira aula foi ministrada pela professora de português, que a propósito, era uma epifania. Até que fim, estava diante de algo belo e cristalino num mundo horripilante e opaco. Eis uma figura que me deixava inerte todas as vezes que se dirigia a mim. Esquecia da minha ojeriza por algumas coisas da cidade ao lembrar das suas retinas verdes, do seu nariz empinado e dos seus largos quadris que emprestava a forma de violão ao seu corpo. Como desejei não desejá-la, mas foi em vão. A fixação era tamanha, que mais parecia um transe, talvez por isso tenha ficado em recuperação (pela primeira vez). Até hoje acho que não atingi a média propositadamente, pois assim ficaria ao lado da diva com quem eu sonhava todas as noites e em quem eu pensava todos os dias. Eis a primeira besteira que fiz por uma mulher. Depois tiveram tantas outras, mas esta eu não me esqueço. As pessoas normalmente lembram do primeiro beijo, da primeira professora, eu, lembro da primeira besteira. Mas apesar de tudo, não me arrependo. Para a minha infelicidade as aulas de recuperação foram ministradas por uma outra professora. Que decepção!
A sala de aula gradativamente foi dividida em grupos de acordo com as afinidades dos seus partícipes. Eu, por mais que tenha buscado me socializar, fiquei isolado. Era uma espécie de Robinson Crusoé, a sala era a ilha e os alunos o mar (quase sempre bravio) que a cercava. Estava desprotegido, desprezado e no meio do nada. Tenho uma incrível tendência a solidão (sentimento que adoro quando o procuro, mas que odeio quando por ele sou procurado). Ando, ando e ao final do caminho não encontro ninguém, embora me depare com a luz. As pessoas, em sua maioria conformadas, não toleram um ser questionador, perturbador e que agride os tímpanos da permanência. Sou um grupo de um só participante (talvez por isso na Universidade eu tenho tido tanta aversão aos grupos). Até no campo de futebol ocupava um espaço só meu, no gol. Era reserva e como o titular nunca se machucava, eu me mantinha à distância, como um mero espectador.
Os alunos, quase sempre me repugnavam, já uma pequena gama de alunas se aproximava, talvez por ser "enigmático" como uma delas disse-me certa feita. O problema é que as aproximações tinha como desfecho o meu afastamento, não por questões estéticas, as garotas eram impecáveis, mas sim por ausência de conteúdo. Frasco e capa ao invés de perfume e livro é depreciável. Enfim, estava num outro mundo. Restava-me então, tentar apreciá-lo com acuidade e moderação para não expulsá-lo de mim.
Por vezes não notamos, mas a história é elitista. Por isso, perdemos incomensuráveis ganhos. Quando a pomposa caravana do rei sabe-se lá de onde, passa, com os cachorros ladrando, o olhar histórico encontra-se voltado para ela e sobretudo para os seus componentes. Reflete com maestria o semblante e os gestos majestosos. Esquece, porém, das dezenas de pessoas que servem de corredor humano para a tão propagada passagem da caravana. Seus olhos, seus sentimentos, suas ricas e obscuras experiências são imperceptivelmente negligenciados. Temos um olhar tosco da história, já que a vemos de cima para baixo, quase nunca de baixo para cima. O que será que essas pessoas teriam a dizer sobre a passagem da referida caravana? A história é por fim, uma grande avenida de mão única. Relata quantas vezes Napoleão levou o pernil à boca, mas não nos diz nada sobre os que estavam ao seu redor. Qual o semblante da cozinheira? E se não tivesse quem fazer o pernil, como então, descrever Napoleão mastigando o saboroso pedaço de carne?
Tão longe o meu pensamento viaja, pegando carona com as ondas eletromagnéticas, rompendo as barreiras atômicas e atingindo certeiramente o meu amor. Envio-lhe ondas repletas de carinho,
do meu quarto, onde as paredes se contraem, as idéias se debatem, as teorias se afogam e a monotonia se torna insípida.Sem guerra e sem demora fujo pela porta que nunca esteve aberta, mas o espírito ultrapassa a matéria. Sou um noctívago, que viaja milhas para dormir com você.
Dedico tais palavras à Luz que envolve a Lua.
Após anos no jardim iniciei a alfabetização. Logo no primeiro dia de aula me deparei com um impasse, qual seja, as cadeiras eram condicionadas às pessoas destras. Como eu era canhoto, não havia como escrever a não ser me contorcendo, o que me ocasionou ao final do primeiro dia profundas dores na coluna. Eis a primeira vez, dentre muitas outras, em que me senti um ser estranho ao ambiente. Fui então, compelido pela professora Espírito Santo, a me tornar canhoto. Após meses escrevendo sempre com a mão direita, sobre a atenta vigilância da docente, aposentei a esquerda, que se tornou parcialmente inútil. Apesar do ocorrido me tornei amigo da odiada "tia", talvez devido as minhas notas, que sempre estavam acima da média e eram expostas por Espírito Santo como se fossem suas. Aliás, por conta do meu desempenho, ao final do ano, recebi a notícia que iria para o segundo ano, ou seja, não haveria necessidade de cursar o primeiro.
Minha mãe foi uma figura atuante nos meus estudos. Ela costumava me acordar às quatro da manhã para estudar, sempre sobre a justificativa de que naquele horário as pessoas teriam um maior poder de aprendizagem. Dizia ela: "É um momento calmo, silencioso e o nosso cérebro encontra-se descansado". Em pouco tempo me adaptei e passei a acordar e estudar sozinho. O fardo de antes se tornou prazeroso. Os anos que se seguiram foram promissores no que tange aos estudos. Devo isso a minha insistente mãe.
Parte dos alunos, na verdade os melhores, eram inseridos num grupo de jovem denominado JUSC – Jovens Unidos Servindo a Cristo. Passei a freqüentar o tal grupo e logo me tornei coroinha. Eu, a exemplo do meu amigo James, gostava de exercer a referida função, porque esta ocasionava respeito por parte dos colegas. Cabia ao grupo estudar a Bíblia e participar de atividades sociais, como por exemplo, gincanas para arrecadar alimentos aos necessitados. Certa vez, fomos encenar uma peça. Sem motivos aparentes, me deram a incumbência do papel mais importante, ou seja, Jesus Cristo. Justo eu, que era extremamente tímido, encenar o papel principal? Tentei questionar, mas não me deram ouvidos. Após semanas ensaiando chegou o grande dia. A matriz encontrava-se repleta como eu nunca tinha presenciado. Comecei a tremer, não sentia os pés, os poros exalavam suor, a tontura veio em seguida. Paradoxalmente, meu amigo Rener aguardava calmamente o momento de entrar em cena. Tratava-se de um ator nato, que havia incorporado efetivamente o seu personagem. Ele ao contrário do que fiz, passava parte do dia ensaiando a peça, logo estava preparado, eis o motivo da calma que lhe saltava à face.
Após algumas cenas em que só o narrador falava, era chegado a hora de Jesus se pronunciar. Trêmulo me esqueci das palavras sagradas. Rener ao desconfiar do meu súbito esquecimento me soprou as frases, que soaram incompreensíveis ao público. Durante a ceia fui beber o que seria o sangue de Cristo e me engasguei, me faltando o ar. Rener então, demonstrando a sua aproximação com o personagem gritou: "Jesus tá passando mal!". Alguns instantes incomensuráveis se passaram até que voltasse a respirar normalmente. Por pouco Jesus não morreu na Grande Ceia. Fui substituído pela professora de Religião, que por sua vez, sabia o texto decorado. A vergonha me acompanhou por dias. Me senti um antijesus.
Uma vez mais, a igreja me vem a memória. Este templo tido como local sagrado foi o ambiente em que cometi um ato profano. Certa feita, na companhia do amigo James, descobri onde o padre Luís guardava os vinhos a serem utilizados nas cerimônias. Ele ao constatar que havíamos descoberto o seu segredo nos disse, que o vinho era proibido. Desconsideramos as palavras do sacerdote e a exemplo de Eva fomos em busca do saber, mergulhamos no primeiro contato com o álcool. O poder nos deixou tontos, mas tão poderosos quanto o padre. Posteriormente fomos descobertos, mas não fomos expulsos do paraíso, apenas não pudemos mais comer da maçã ou melhor, beber da uva. Voltamos a clausura da fragilidade.
Escuridão, frio, nada além nem aquém de mim. Encontro-me em lugar nenhum, perdido nas profundezas da minha inconsciência fertilizada. A solidão me apavora e o medo me aflige. Não há nada em que acreditar. Não há convicções nem responsabilidades. Crenças e objetivos se desfizeram repentinamente no ar. Eu sou o único, embora não saiba porquê. Na verdade, não sou, já que no mundo do nada não há como ser algo. Talvez eu seja meramente um elemento inanimado que resolveu tentar se animar com questionamentos fúteis.
Como sair do labirinto da inconsciência? Há realmente saída? Não suporto a monotonia, embora esteja condenado a ela. O que fazer então? Algo me diz que estou dentro de mim e a procura de alguém que está fora de si. Mas como encontrar alguém se não há ninguém? Estou envolto de dúvidas, inclusive em relação a minha existência. Novamente sou incitado por algo desconhecido a procurar meu complemento. Tudo é escuro, não há norte, nem sul. Não há tempo nem espaço.
Baseado em Descartes chego a conclusão que existo, já que penso. Se sou um ser pensante tenho vida. Aristóteles nos disse que não há como viver sozinho, logo preciso de alguém. Por infelicidade das circunstâncias, a lógica para por ai, tendo em vista, que não sei quem devo encontrar, muito menos se há alguém além de mim. O que seria da razão sem a emoção? Se é possível pensar, imagino ser possível sentir. Tentarei então, sentir com inteligência e pensar com emoção como diria Gessinger.
Decepção, desespero, imobilismo. Pareço um utópico militante com causas inquestionavelmente perdidas. A pasta densa e escura que preenche minha retina não foi suficiente para me impedir de descobrir a razão e a emoção. Depois disso, o que me falta? Posso pensar e sentir. Sinto o pensamento e penso o sentimento. Sendo assim, posso responder que o que me falta é você! Você tem que existir! Por ironia, a procurei em todos os lugares e você sempre esteve em mim. De repente a sinto, a vejo impecavelmente linda. A escuridão torna-se repentinamente uma longínqua lembrança. Você passa a ser a luz que tanto procurava e que passará a me guiar.
A sua iluminada beleza me envolve e me consome. Finalmente estou completo. Uma vez abraçados, fugimos para não mais nos desencontrarmos. Somos dois num só!
Diante dos meus sete anos de idade, o meu tio, avô, tia e a minha bisavó, padeceram em curto espaço de tempo, que por não ter a noção exata não vou especificar. Márcio, meu tio, herdou os dotes políticos do pai, coronel Silva, tornando-se ainda jovem, prefeito da pequena cidade de Oran. A conclusão do promissor mandato de Márcio à frente do executivo municipal, foi barrada, por um problema que até hoje não entendi, tirando-lhe a vida misteriosamente. Após uma festa comemorativa do aniversário da cidade, o jovem prefeito foi repousar em sua casa e nunca mais acordou. A pequena cidade perdia um grande líder e o seu povo às esperanças de melhoria. O coronel Silva, que também havia sido prefeito, não se conteve, entregando-se a um estado depressivo. A mim nada restava, a não ser tentar reanimar meu avô, o meu melhor amigo, àquele que me ensinou pôr a boca diretamente nas mamas da vaca para sugar o leite. Não lembro mas deveria ser horrível. Costumava ir com o coronel Silva visitar suas terras. Na sua presença vi cenas inesquecíveis, como numa manhã de domingo, quando ao chegarmos em uma de suas fazendas e na presença do conformado marido, o coronel Silva se apossou de sua mulher, a levando para um quarto. Como conseqüência de tais atitudes, tenho várias tias naquela cidade, mas por lá todos preferem não comentar, a não ser o meu pai, irônico como sempre, afirma ao ver uma das bastardas de meu avô, "filho dê benção a sua tia", deixando-me a exemplo daquela, bastante constrangido. Mas o meu avô sempre me dedicou carinho. Qualidades e defeitos à parte, a depressão foi mais forte levando-o também.
A minha mãe, perdão, a minha tia, é que a tia Socorro enquanto viveu, cuidava de mim, era uma verdadeira mãe. Costumava dizer: "Nesse menino ninguém toca". Entristeço-me por não ter a oportunidade de dedicar-lhe o amor que sempre tive por parte dela. Assim, inexplicavelmente, aos trinta anos ela se foi. Lembro-me do seu caixão, mas a ausência de coragem me impediu de olhar o corpo que ali estava, talvez por temor de constatar o obvio. Preferi guardar sua imagem viva e alegre, obrigado tia.
Morei cerca de quatro anos em Recife, adorava a praia, sobretudo porque ressecava a pele e no dia seguinte tinha prazer em descasca-la. Os dias de sol eram comuns, mas certa vez na praia, o sol se ocultou, foi quando conheci um amigo de nome esquisito, o que me impedia de pronunciá-lo, louro, branco, me fazia lembrar o sol, então o batizei de sol. A partir de então, começamos a cultivar uma amizade, que se reforçava a cada manhã, quando nos encontrávamos na praia para brincar. Certo dia, meu amigo sol não apareceu, entrei em desespero, as mortes na família tinham sido recentes, não queria que ele morresse. Continuei a freqüentar a praia em busca do amigo sol, que não mais apareceu. Resolvi não mais ir à praia, que ficava próxima ao condomínio onde morava. Certa vez as nuvens cobriram o sol, corri à praia na esperança de reencontrar o amigo, que não apareceu, então conclui que ele havia morrido, pelos menos para mim, já que nunca mais o vi.
Voltando ao Estado em que nasci, conheci a minha bisavó. Duas coisas me intrigavam nela, o seu nome, Didi, e a sua idade, noventa e nove anos, velhinha e imóvel disse que adorou me conhecer, confesso que eu também. Ao sair de lá indaguei à minha mãe, "Como é que uma pessoa fica tão velha e não morre"? A minha mãe respondeu que o destino gostava da Didi, pelo menos até aquele momento, já que no dia seguinte, a Didi faleceu.
Parecia que o motivo das mortes seria minha presença. Tentei então, o impossível, me afastar das pessoas. A morte parecia atingir a todos que me circundava e o próximo parecia ser eu. A impiedosa senhora de certezas incertas, não se dando por satisfeita, quase me fez vítima prematura e indefesa do seu ofício, enviando um carro desgovernado que por pouco não me atingiu, tendo que me jogar sobre a calçada, machucando o braço. Desde então, perdi o medo da morte, não me parece válido ter medo do inevitável. Desfrutarei dos prazeres da vida realizando os meus objetivos básicos, depois, estarei a sua espera, impiedosa senhora, não tarde pôs não quero ficar velhinho, entregue ao desprezo, ocupando os outros e me embriagando com a monotonia. A vida é um fantástico laboratório, onde nos deparamos com um estágio, quero ser aprovado e como conseqüência receber o meu diploma, ou seja a merecida e inevitável morte. Agora, não teime em me levar daqui, antes do meu dever cumprido, lembre-se, falhou uma vez e falhará inúmeras outras, caso tente.
Essa história que irei relatar agora, me tornou o que sou hoje, embora não saiba exatamente o que eu seja. Diante disso pergunto-me: que sentimento devo cultivar em relação a minha querida lua? Agradecimento? Fúria? Torpor?
Sexta-feira, tarde do dia 20 de Julho de 2001. Após uma viagem estafante, em que contei setenta e cinco porcos pelo caminho, me deparei com uma imagem que me chamou atenção logo que detectei incontáveis diferenças entre ela e as demais formas ao seu redor. Simplicidade, felicidade, divertimento, originalidade e beleza, eram alguns atributos inerentemente seus. Tratavam-se de qualidades que enriqueceria qualquer mulher e que certamente foram as principais responsáveis pelo meu envolvimento irremediavelmente imediato. Não conseguia deixar de olhar para ela, é como se por alguns segundos só existisse eu, ela e uma avassaladora vontade de tocá-la e conhecê-la. Esta fantástica exultação durou até o momento em que saiu de cena, se desfez no ar entre um piscar e outro das pálpebras. Mantive-me com a esperança de voltar a vê-la, mesmo que por alguns comensuráveis segundos.
Cai a noite na cidade de Oran e durante uma tradicional festa local, meus olhos felizes voltam a refletir a bela imagem, como da vez anterior, alegre e divertida. A partir de então lhe perseguia com o olhar, por todos os lugares em que fosse, alguém olhava para ela, e esse alguém era eu, sempre e impulsivamente eu. Em um determinado momento, finalmente a capturei com o olhar e ela passou então, a olhar para mim com suas lindas retinas verdes. Os olhares se cruzaram várias vezes, mas a nossa timidez, a nossa fraqueza diante de um inexplicável e fortalecido sentimento, nos impediu de nos aproximarmos. Pensei várias vezes, que infelizmente não seria possível conhecê-la, teria que me satisfazer em admirá-la à distância. A felicidade estava ao alcance da mão e ao mesmo tempo inacessível, denunciando assim, o cúmulo do limite. Os obstáculos eram mais fortes que a minha coragem, que por vezes, é batida pela mais frágil dificuldade. Estava prestes a desistir e me arrepender por infinitos dias, quando a amiga dela, Dalva, a quem até hoje devo muito, se aproximou e falou o que eu mais queria ouvir naquela noite:
--- a minha amiga quer falar com você, o que acha?
Sem hesitar aceitei de imediato, mas antes da amiga se direcionar a ela, foi ela quem veio até nós, perguntando o que já sabia:
--- o que ela falou? --- disse-nos.
Sua voz soou calmamente, numa deliciosa e aguda harmonia. Não acreditava, mas ela estava ali diante de mim, seus lindos olhos refletiam a minha cambaleante imagem. Procurei mil palavras e não encontrei uma só, o meu silêncio espalhou-se pela noite e só foi interrompido por sua afetiva e inconfundível voz:
--- Não vai me dizer o que ela falou? –- Insistiu sorrindo.
Diante de uma coragem inesperada disse-lhe:
--- Ela me disse o que você desejava me dizer e o que eu almejava ouvir!
O seu suspiro em tom de satisfação mesclado com alívio povoou a minha face. Não carecia dizer mais nada, mesmo que quiséssemos não poderíamos, as mãos já estavam entrelaçadas. Aquela perfeita noite nos proporcionou intermináveis momentos felizes, nos sentíamos bem em estarmos juntos em sermos um só. Foi lindo ver o raiar do amanhecer ao seu lado, ver a substituição do frio da noite pelo calor do astro rei.
No dia seguinte, a felicidade estava estampada no meu semblante, agora poderia vê-la de mais perto, poderia tocá-la e assim saber que tudo era real. Voltamos ao cenário em que a conheci, só que dessa vez, estava desde o início ao seu lado. A encantadora noite por mais dois dias nos faria companhia, presenciando momentos em que dois seres se complementam, confundindo até mesmo a mais perfeita visão, que não sabia onde começava um e terminava o outro. Não havia nada ao nosso redor, além de beijos, abraços, sussurros, carícias, é como se não houvesse a necessidade de algo mais.
Dia 23 pela manhã, a ausência repentina daquela que tanto procurei me deixou dilacerado. Me senti perdido e comecei a achar que tudo resumiu-se a um belo sonho que passou e não voltará mais, que me escapou como a areia da praia por entre meus finos dedos. Vários foram os dias difíceis, até que ela entrasse em contato e rejuvenescesse a minha felicidade. Como ela conseguiu me encontrar? Isso não importava, mas sim o fato de tê-la novamente.
Disse-me que iria me visitar e depois sua voz calou. Não tive tempo nem para dizer o quanto sentia sua falta. Passei a olhar para o céu e imaginá-la todas as noites. As nuvens se transformavam em suas curvas, o vento soava no meu ouvido como se fosse sua voz, a noite me revestia como se fosse os seus abraços. Foi assim que passei vários dias. Foi assim que vários dias passaram por mim. Não a via em sua essência real, mas a sentia sempre. Minha memória era revitalizada todas as noites, mas as lembranças dos repentinos momentos em que a tive ao meu lado estavam devidamente intactas.
É ela que desde então, contemplo toda as noites. Me tornei um ser lunático.
Era noite. Acabava de chegar ao ponto de ônibus, que se encontrava em frente a uma igreja, quando avistei uma criança conversando com a sua mãe. "Olha mãe, lá está Deus", apontando para o espaço entre as duas torres da matriz. Olhei, mas não avistei nem sequer a barba do "todo poderoso". A mãe, a exemplo de mim, parecia não ver a imagem exclusiva aos pequenos olhos da criança, mas ainda assim, balançava a cabeça afirmativamente, afim de não frustrar o filho. "Olha mãe ele está sorrindo". Talvez estivesse sorrindo de mim por não poder vê-lo. "Agora está acenando, olha mãe". Puxava o braço da mãe e batia com os pés no chão, para que ela não perdesse nenhum lance majestoso do todo poderoso. Me lembrei da minha época de criança, quando juntamente com alguns amigos, ia para o meio da rua e apontava o céu dizendo "Olha, o que será aquilo?" Os transeuntes curiosos erguiam os olhos aos céus mas não viam nada. Não tinham o olhar diferente das crianças, que vêem o que querem, quando querem. Cresci e minha visão diminuiu. Quando era pequeno via as coisas grandes, agora que cresci, as vejo pequenas. Ah, o ônibus do garoto chegou e antes que ele, juntamente com a sua mãe, adentrasse no transporte, abriu um largo sorriso, sacudiu a mão direita e disse "Tchau Deus". Fiquei minutos a olhar o ínterim entre as torres da matriz, mas Deus não me deixou vê-lo. De todo modo é lindo o olhar de uma criança ao ver Deus, pena que não posso dizer o mesmo do olhar de Deus ao ver uma criança, já que não o conheço, ou pelo menos não me lembro da época que o via.
Encontro-me preocupado com o que se tem dito em relação a política. A crítica não consegue discernir a política dos políticos. A classe política acumulou, em alguns casos, merecidamente, um descrédito visível perante a população e isso foi automaticamente transferido para a política. São inúmeras as denúncias de corrupção, de malversação do erário público, por fim, da mais abrupta incompetência administrativa envolvendo políticos. Enquanto isso, os problemas se tornam mais complexos, e consequentemente mais difíceis de serem solucionados. Mas será que a saída para a situação ora exposta, seria escarnecer a política?
A política é algo vital para os indivíduos e para a sociedade. O homem é um ser político. É através da política que se torna possível a "convivência entre diferentes", como dizia Hannah Arendt. Esta filósofa política alemã, defendia que o sentido da política é a busca da liberdade e é justamente a liberdade que distingue o convívio dos homens das demais formas de convivência. Somente por intermédio da política é que somos iguais (isonomia). Dessa forma, o fato dos políticos estarem padecendo de uma rejeição tão grande, não quer dizer que devemos condenar a política e assim nos aprisionar. É preciso distinguir, por exemplo, a democracia, enquanto sistema formal, dos atos de seus representantes.
A Política vem de polis, cidade grega. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro e ordenado, onde os homens se dedicavam à busca da felicidade. O político seria aquele que zelaria esse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade. Política é portanto, ação, prática, realização.
O atual problema não se encontra na política, mas sim, em parte dos políticos ou dos falsos políticos. É preciso ter vocação para a política. É preciso muito mais viver para a política, do que viver da política, como ocorre nos dias em curso. Vocação é diferente de profissão. Na vocação a pessoa encontra a felicidade na própria ação. Na profissão, o prazer se encontra não na ação, mas sim no ganho que dela se deriva. O homem movido pela vocação é um amante. Faz amor com a amada pela alegria de fazer amor. O profissional não ama a sua amante, mas sim o dinheiro que recebe dela. É preciso amar a política e não amar o ganho que ela proporciona.
Sim, houveram frustrações com a Nova República de Sarney; com o desastroso governo Collorido; com a ausência de criatividade do governo Itamar, com a realidade social ocasionada por algumas políticas da era FHC; com a ausência de realizações do governo Lula, mas isso não quer dizer que o ideal é não votarmos nem nos envolvermos com a política. Cabe a nós tirarmos os maus políticos do poder e não deixarmos a atividade política nas mãos de falsários, que acabam por desvirtuar a política.
Em visita à pequena Oran, me deparei com um amigo de infância. De pronto o questionei:
- Então, casou?
Ele me respondeu sorrindo:
- Sim! Esta cidade nos oferece duas opções: Casar ou ir embora. Eu casei e você foi embora!
Nos pusemos a relembrar os amigos de infância e seus destinos até então, e constatamos que, realmente, todos eles haviam casado ou deixado à cidade. O curioso é que não há meio termo, isto é, não há aqueles que ficaram na cidade sem constituir matrimônio, como também não existem os que partiram e se casaram. Isso seria uma coincidência ou se trataria de um evento com causa e efeito? O que Oran nos propõe, além de um céu noturno mais luminoso? Pouco, infelizmente muito pouco. Não há estudo, ocupação ou lazer. Diante disso, o que fazer? Fora de Oran é possível encontrar os três atrativos. Estes, segundo o amigo de infância, não são compatíveis com o matrimônio. Seria isso uma verdade? Não! Há casais, embora em pequeno número, que estuda, trabalha e se diverte. Bem, o fato é que ele me disse:
- Se eu tivesse ido embora, também não teria casado.
Eu, por minha vez, disse-lhe:
- quer dizer que se eu tivesse ficado eu teria casado?
- Claro que sim – respondeu. Vai me dizer que você não teria casado com a linda Lucema?
Suspirei e disse o que me veio à mente
- Ela era realmente linda!
Fiquei intrigado. Será que eu teria mesmo casado? O que me impediu de constituir matrimônio foi uma questão geográfica? Aliás, é válido lembrar que a linda Lucema, passou anos longe de Oran, mas ao voltar, casou.
Sendo assim, quando me decidir casar vou a Oran, a cidade do matrimônio.
Logo, logo, eu e você seremos no máximo, lembranças mútuas, ausência de logos; Cobaias de estudo, que não dizem nada; Ondas sem ventos, praia sem mar; Vidas que se entrelaçaram mas que não conseguem se achar, que não se constituíram em nós, que não foram feitas pra nós; Árvores com frutos inalcançáveis, caules sem raízes, pensamentos sem matizes; Catarina sem força, guilhotina sem forca; Águas que correm, pingos que caem, vento que vai; Não há permanência num mundo passageiro; Não há pontos, só vírgulas o tempo inteiro; As correntes se quebram; As cores acinzentam; As epidermes são povoadas por vermes famintos; A insistência desiste; Caio aonde todos caíram; O que me resta? Só lembranças! Dança sem música; Timbre sem voz, guerras sem enfermeiras; Sua composição se descompõe diante de mim; Você se quebra e me corta, se enferruja e se desfaz no ar, se rasga, desnudando o sentimento, se vai pra nenhum lugar; Investi sentimentos em um fantasma; O que me resta? Talvez só lembranças... mais que lembranças... mas que lembranças? Preciso de uma consoante entre duas vogais para dizer o que sinto, mas ela se encontra na escuridão da tua inexistência.