
Para além dos discursos falaciosos e oportunistas é pertinente afirmar que se "X" tem um direito é porque "Y" tem um dever que o garante. O direito só existe como uma contrapartida de dever de alguém. Enganam-se os que pensam (ignorantes) ou fingem (desonestos) pensar diferente. Sob esta égide o Estado penaliza os "mais favorecidos", através de taxações exorbitantes, (que obstaculizam a produtividade) em prol das vítimas da realidade sócio-econômica. O objetivo é buscar o equilíbrio social e a contenção das desigualdades sociais.
Teoricamente o aparelho extrai de uns e repassa aos outros. Reparem que quanto maior a produtividade, a eficiência, o saber, maior a taxação. Logo o Estado contribui para o atraso, enriquecendo burocratas e políticos através da justificativa de justiça social. Emperra o crescimento dos que estão "em cima" e não incita o desenvolvimento dos que se encontram embaixo, o que nos faz crer que há um desvio de finalidade em relação a verba pública. O Estado tem sido ao longo do tempo eficiente na cobrança e desastroso no repasse. Basta olhar para a segurança, a saúde, a educação... O Brasil é hoje um país que pretende um dia estar no rol dos desenvolvidos mas que apresenta índices medíocres em tais áreas, que são estratégicas para o desenvolvimento. A violência urbana encontra-se numa escalada sem precedentes, as pessoas se espremem nos corredores dos hospitais e nossa educação é uma das piores do mundo com um índice de analfabetismo astronômico, mas as taxações continuam em ascendência.
Dessa forma é válido o seguinte questionamento: Que utilidade o Estado tem nessas circunstâncias? Antes que alguém me designe de anarquista, diria que sou favorável a existência de um aparelho estatal que não sofra de elefantíase crônica, como este que ai se encontra. É muito cômodo e atrai votos, se manifestar favorável a garantia de vagas aos negros na universidade ou advogar a gratuidade dos idosos, militares, dentre outros, nos transportes coletivos. Os que assim agem não costumam considerar que alguém vai pagar a conta, ou seja, que o direito concedido a estes corresponde a um dever direcionado a outros (não importando se estes querem ou não cumpri-lo). Um vereador teresinense propôs que durante os finais de semana os transportes coletivos da cidade circulassem gratuitamente. Lamentavelmente trata-se de uma autoridade, de um representante do povo. Ignorância? Não, oportunismo! Estudantes fluminenses fazem manifestação pelo transporte gratuito, quem irá contrariá-los? Um desconhecido escriba?
O mais grave de tudo isso é que o bem-comum rousseauniano tem sido utilizado com freqüência para angariar vantagens pessoais e não sociais, como nos fazem crer. Enquanto isso a demanda pelo social continua crescendo. Caso a extorsão persista, podemos supor que a carga tributária cheque a 100% da produção privada, pois a demanda não se extinguirá. Uma carga tributária acima de 20% do PIB não é justiça social mas sim estelionato. Não há país que regista a tamanho ônus.
Proudhon disse não haver revoluções, mas sim uma "Revolução permanente", no sentido de processo contínuo. Isso seria verdade? Sim, se excluirmos a Revolução Americana. Esta possui mais distinções que semelhanças quando comparada a Revolução Francesa e as demais revoluções que se seguiram. Se não vejamos. Na Revolução Americana os homens eram senhores dos seus destinos, ao passo que na Revolução Francesa, inspirada pela definição original de revolução extraída de Copérnico (o movimento cíclico dos corpos celestiais, que seguiam uma trajetória predeterminada e independente de qualquer ação humana) e ratificada por Marx (que vai da tribo ao comunismo e considera a revolução inevitável) o homem estava entregue a um destino preestabelecido e insensível às suas ações. Estavam, portanto, aprisionados, segundo Arendt, ao "automatismo e a pura transcorrência".
Quanto ao ideal de revolução é salutar afirmar que os americanos buscaram do início ao fim do processo a liberdade, enquanto que os franceses objetivaram-na somente no início, direcionando, posteriormente, suas ações para a questão social, em especial a idéia de pobreza, que surgiu para o mundo no século XVIII, não mais como fator natural, mas sim político. Passaram então, a priorizar a felicidade dos pobres e negligenciaram o objetivo original da revolução. Dessa forma, os franceses passaram a almejar a superação da necessidade e os americanos mantiveram-se lutando pela liberdade. Isso não quer dizer que dentre os americanos não haviam pobres, haviam, mas não eram miseráveis.
Outra diferença é que os americanos tinham olhos políticos e os franceses, sociais. A propósito, Marx (que não era francês mas sim alemão, tinha como inspiração a Revolução Francesa e não a Americana) foi muito mais um historiador que um político. Os americanos achavam que o problema se encontrava na forma de governo, já os franceses acreditavam que o problema era de ordem social. Na Revolução Francesa a liberdade teve que se render à necessidade, ao processo vital, ao corpo, à pobreza. Dessa forma, os franceses perderam o "momento histórico" como admitiu Robespierre, um dos principais líderes revolucionários. E isso foi devido a assistência aos pobres ter se tornado o objetivo central do processo revolucionário. Enfim, a revolução havia sido desvirtuada, ou seja, mudou de rumo, não buscava mais a liberdade mas sim a felicidade do povo, a abundância. Os participantes da Revolução Americana eram atores do processo, isto é, influenciavam-no diretamente, ao passo que os partícipes da revolução de 14 de julho de 1789 eram meros espectadores entusiasmados e anestesiados com o espetáculo. Por fim, a Revolução Americana não foi seguida pela Revolução Francesa, que serviu de reflexo para as revoluções seguintes, que por isso mesmo, foram todas derrotadas, quanto às originais intenções revolucionárias.
Segundo Arendt em Da Revolução, "A triste verdade da questão é que a Revolução Francesa, que redundou em desastre, tenha feito história no mundo, ao passo que a Revolução Americana, tão triunfantemente vitoriosa, tenha permanecido um acontecimento de importância quase que apenas local". Este legado ainda hoje nos é prejudicial, já que os levantes da atualidade continuam baseados na Revolução Francesa ignorando e odiando a Revolução Americana, a única que realmente obteve êxito. Os revolucionários ao permanecerem assim estão condenados ao eterno e lamentável fracasso. As revoluções, a exemplo de outros conceitos, demandam novas interpretações com o passar do tempo, mas no caso da Revolução Francesa, isso não ocorre, ou seja, as revoluções hoje ensaiadas permanecem erroneamente à moda daquela.
Dessa forma, Proudhon estava equivocado, já que a Revolução Americana não teve seus parâmetros seguidos pela Revolução Francesa como muitos consideram.
A única forma do aludido pensador estar correto seria excluir o caráter revolucionário do processo americano, o que também seria um equívoco. Houve entre uma e outra um corte que as afastou de tal forma que em alguns pontos ela são inversamente proporcionais. Temos então, um exemplo exitoso e outro fracassado, nos resta escolhermos que caminho seguir: permanecer no fracasso ou nos direcionar ao êxito.
Me apoderei de um caminho que me levou a um destino inusitado. Mas agora vejo que não sei trilhar um outro caminho que não o meu. Volto aos passos que sempre dei em direção a um destino sem fim, mas com um sentido. Não diria, a exemplo do príncipe tupiniquim dos sociólogos, para esquecerem o que escrevi, mas por favor, não escrevam o que esqueci. Abandono o rumo que vinha seguindo, não em decorrência da presença das críticas, mas devido a ausência delas. A toda síntese há a necessidade de uma antítese. Sem esta os escritos se tornam enjoativos e desprovidos de vida. Sabia disso, mas preferi arriscar. Bem, por fim, estou de volta ao velho e clássico estilo.
Entre gritos e feridos chegamos ao final de semana. Espero poder encontrá-los na segunda-feira, se não, foi um prazer conhecê-los.
Abraços!
PS: ah, não se preocupem não irei atentar contra a minha vida!
PS II: Aos interessados gostaria de dizer que o primeiro capítulo da trama será finalmente publicado dia 24.
Ao abrir meu e-mail me deparei com o seguinte questionamento: O que faz com que alguém como você escreva tantas bobagens? Dizia ainda que não há relação entre meus escritos "políticos e sociológicos" veiculados em "portais e jornais", e este blog. Considerando que muitos possam pensar de maneira similar, resolvi responder neste espaço a indagação acima.
Em nenhum momento o juvenília se pretende "técnico". Não se trata de discutir, embora por vezes aconteça, política, sociedade... Diria que o blog é um devaneio, é um divertimento que comumente me satisfaz. Quando escrevo algo aqui é porque me encontro cansado da concisão, da lógica, da rotina. Não tenho obrigação de seguir uma forma de pensamento previamente definida ou coisa do gênero. Tenho total liberdade para escrever o que tenho vontade. Muitos podem não concordar, mas Voltaire há muito tempo já me concedia tal direito. Ponho os dedos no teclado e o texto é produzido sem nenhuma preocupação e muitas vezes desprovido de consistência. Enfim, o compromisso do juvenília é com a ausência de compromisso. Desculpas aos que pensavam de outra forma.
Bobagens? Claro que são bobagens, mas ninguém tem a obrigação de ler. Nesses instantes é melhor ouvir alguém que não este escriba.
Abraços.
James deu três pulos e socou o ar ao ser confirmado pelas Forças Armadas do seu país como comandante do desejado grupo de homens que iria participar de uma guerra. A ordem era: "Matem os cães!". Dias depois, a tropa de James chegou em terras desconhecidas carregada de ódio. Semanas de batalhas resultaram em incontáveis mortes para ambos os lados. Alguns dias de silêncio se seguiram. A poeira baixou e os escombros tornaram-se visíveis. Estava exposta a incrível capacidade de autodestruição que desde sempre persegue impiedosamente a espécie humana.
Certa noite, James diante de uma insuportável indisposição intestinal se afastou rapidamente do alojamento que havia sido improvisado no início do dia para pernoite da tropa. Ao encontrar um local reservado, conseguiu a obtenção do tão desejado alívio. Resolveu, então, caminhar um pouco. Lembrou de sua amada, com quem desfrutava noites e noites contemplando a lua, vendo as acrobacias dos morcegos, sentindo o vento da escuridão e falando do seu sonho em ter um filho. Após alguns minutos de passos sem rumos físicos, mas com direção sentimental, observou que havia um clarão logo adiante. Empunhou a arma e foi verificar do que se tratava. Seus olhos tensos, diante da possibilidade de perigo, presenciaram uma fogueira circundada por seis homens armados, que falavam um dialeto incompreensível. Logo concluiu que se tratava de um grupo de inimigos, que provavelmente em decorrência dos combates, havia se desligado da tropa ao qual pertencia. James camuflado pelas folhas, se pôs a observar os homens. Apesar das cenas violentas que havia presenciado nas últimas semanas, o sexteto ria, parecia feliz diante das baforadas. Os referidos homens davam tapas carinhosos uns nos outros, enquanto contavam histórias ou sabe-se lá o quê. Diante disso, James se surpreendeu com o grau de semelhança entre ele e aquelas criaturas, que pare ele, eram até então, no máximo, semelhantes à humanos. James os olhou com acuidade. Observou que eles não pareciam maus, nem diferentes, pelo contrário, eram incrivelmente semelhantes à ele. O comandante via sua própria imagem diante de seus olhos. Tinham vícios, gozavam uns dos outros, enfim, eram efetivamente humanos. Bebiam, comiam, arrotavam. James, ao longo de sua extensa história de guerras, nunca havia observado de tão perto seus inimigos. Nunca lhes disse nada, a não ser "Morram!". Nunca ouviu uma só palavra, mas sim barulho de rajadas cortando o ar. Sempre os viam como meros alvos a serem atingidos, não mais que isso.
Veio então, uma lembrança, que até aquela noite se encontrava recôndita na insensatez da guerra. Tratava-se de uma criança que foi morta pela tropa de James. Fez analogia entre tal criança e a que um dia queria ter com sua amada. Acreditou ter matado o filho que tanto desejara, ou quem sabe, o desejo de ter um filho. Diante do espontâneo sorriso dos homens, James chorava impulsivamente. A guerra o havia marcado para sempre de sangue. De repente um disparo, os morcegos voaram atordoados, o vento soprou gélido, a lua sumiu por entre as nuvens e um corpo foi de encontro ao chão.
Ao amanhecer, Marcos dedica-se fielmente ao hábito que desde tempos remotos o acompanha firmemente: olhar além de sua janela e assim, ser apresentado ao mundo que desabrocha no horizonte. Este breve olhar lhe fornece uma noção de como será o seu dia. O sol, a brisa, a desistência das folha em estarem ligadas aos galhos, a algazarra dos pardais ao acasalarem, enfim, tudo tem um sentido aos olhos de Marcos. Aos atrativos convencionais foi acrescido uma linda garota, batizada por Marcos como a "Deusa do livro". Esta também tem um hábito, qual seja, inaugurar as manhãs com sua encantadora e irradiante beleza, sempre com um livro às mãos, o que a torna ainda mais encantadora. Assim, o casamento entre os hábitos de Marcos e da deusa celebram todos os dias uma nova manhã, um novo dia, um novo mundo que já não é tão novo.
Certa vez ao acordar, Marcos fez o de sempre e se deparou com uma cama desarrumada, sobre ela, um livro aberto à espera de sua linda leitora, que o abandonara, mas que certamente não tardaria. O marcador posto entre as últimas páginas denunciava que a obra se encontrava em seu desfecho, logo, a deusa não tardaria. Marcos estava inerte e atento ao anunciado retorno. Precisava imprescindivelmente daquela visão para dar sentido ao seu dia, até então sem rumo, sem estímulos. "Vamos, vamos, apareça... deixe-me vê-la, mesmo que por um ínfimo instante". O passar do tempo torna a espera cansativa. As pálpebras do infeliz e fiel espectador se enfraquecem, as pernas tremulam e a desesperança se joga sobre ele de uma altura incomensurável. O encontro parece ter sido adiado, ou quem sabe cancelado, embora Marcos não tenha sido avisado. O ponteiro dos segundos gira sessenta vezes, Marcos conta dez pardais e cinco folhas. Há na parede, uma linha de formigas em forma de coração, seria isso um aviso? O livro continua lá, já a garota....
Resta a Marcos procurar o sentido do seu dia na ausência e não na presença. De todo modo é válido questionar: que garota é essa capaz de deixar um Voltaire permanentemente à sua espera? O que haverá de mais importante? Pergunte a Marcos, ou você acha que ele ficou a admirar Voltaire?
Felipe doava felicidade, tamanha a abundância desse sentimento naqueles dias. Acreditava que a liberdade estava na solidão, que definia, a exemplo de um dos personagens de Kundera, como "doce ausência de olhares". Podia fazer tudo sem que ninguém o visse. Os seus segredos eram só seus. Ia e vinha sem o triste fardo dos olhares. Enfim, era livre, completamente livre. Certo dia, a mãe de Felipe lhe disse imperativamente "Deus está lhe vendo. Não haja de forma errada". Não faça isso... não faça aquilo... Deus o via sem tréguas e estava disposto a puni-lo, caso desobedecesse a matriarca. Felipe não poderia esconder absolutamente nada, nem lhe mostrar algo, já que o soberano via tudo. A privacidade de Felipe foi invadida abruptamente. Suas intimidades violadas. Felipe se viu paralisado. Não mais podia ousar, agora estava entregue à submissão. Roubar as melancias da propriedade vizinha, nem pensar. A masturbação matinal fora abolida. Felipe estava preso aos olhos de Deus, sem reação diante de uma ação absoluta. Mal sabia ele que os seus pensamentos também haviam sido povoados.
Aviso aos navegantes
Os personagens são únicos e inimitáveis, que surgem do nada que há naqueles que lhes servem de base. Eva surgiu da costela de Adão, Fênix das cinzas e Vênus da espuma. Fiz o mesmo com meus personagens, ou seja, extrai a costela, as cinzas e a espuma de algumas pessoas para constituí-los. É provável que vocês (leitores) se deparem com características, atitudes, gestos que lhes aproximem dos personagens, mas isso não quer dizer que são vocês. Diante de 80 bilhões de terráqueos (incluindo os que já se foram) seria impensável a existência de personagens sem características conhecidas. A propósito, não são as pessoas que possuem as características, são estas que possuem as pessoas. Há mais pessoas que gestos, logo é perfeitamente compreensível a repetição destes em pessoas diferentes.
Enfim, me resta dizer que quarta-feira será relatado o primeiro capítulo da trama.
Malditos decibéis
Gustavo tenta superar as primeiras linhas do romance do final de semana. Tenta, tenta mas não obtém êxito diante do insuportável barulho de motores, buzinas, gritos, ruídos indescritíveis (alguns descritíveis, mas que não valem a pena serem descritos) seguidos por algo que dizem ser música. No quarto vizinho, a irmã de Gustavo sorrir, acompanhada de uma amiga, sem motivo aparente. Falam da noitada maravilhosa, do sapato apertado da abestalhada da Roberta, dos olhos verdes do Caio, do novo carro do Thiago....e blablablá. Tudo a base de gritos e gemidos. Trata-se da incrível necessidade de se fazer barulho. Criaturas superficiais que mais parecem frascos de produtos de segunda. Em tom extremamente inferior ao do barulho emitido, Gustavo diz – Que droga! Há tempos não ouço as batidas do meu coração, se é que ainda tenho um – Desiste então do romance e espreme inutilmente a cabeça entre dois travesseiros. Daria tudo por um instante de silêncio. O que é possível até mesmo em campos de futebol é impossível no quarto do pobre Gustavo. Nada somos além de um amontoado de barulho.
Só resta a Gustavo os versos de Goethe:
"Sobre todos os cumes
É o silêncio
Na copa de todas as árvores
Você sente
Apenas um suspiro
Os passarinhos se calam na floresta
Tenha paciência, logo você descansará também".
Enfim, Gustavo obteve o que tanto desejava: SILÊNCIO. Descanse em paz!
Certamente, você já ouviu que a educação é a base da sociedade. Provavelmente concordou prontamente, aliás, quem não concorda? Considerando tal axioma, o Brasil estaria sem base, isto é, seria um conglomerado de analfabetos e/ou semi-analfabetos pairando no ar com destino a nenhum lugar, que não à miséria e a violência. É preciso conceber que a educação não é meramente uma alternativa, mas sim, o caminho viável que temos, caso queiramos um dia nos desenvolver e suplantar problemas milenares e patéticos como o subdesenvolvimento.
O problema é que a educação por si só não resolve a equação que há tempo nos foi apresentada. Se assim fosse, as camadas letradas não estariam submetidas às drogas, desemprego, violência, dentre outros elementos detratores do complexo social. Tudo bem, acredite que a educação é o caminho, porém, nunca se esqueça quem têm influências sobre tal caminho. Observe que os responsáveis pela normatização das regras que regem à educação não têm nenhum interesse em tornar os dominados seres conscientes, sobre pena de ter seus interesses particulares questionados. Enfim, aqueles que constituem a base do que acreditamos ser a solução são justamente os causadores (ou pelo menos mantenedores) dos problemas. A escolha de bons representantes depende de um certo grau de consciência, e este, por sua vez, carece necessariamente daqueles. Infelizmente nos encontramos num ciclo vicioso que nos deixa viciado no comodismo, que gradativamente nos consomem sem dó nem piedade.
Eis o único casal da trama formalmente constituído. Roberto tem cútis negra, estatura baixa e um invejável corpo atlético, resultado de duas horas diárias de malhação. Costuma dizer que o corpo humano possui uma linguagem própria e ele se gaba de conhecê-la. Diz saber o que uma mulher deseja simplesmente olhando para o seu corpo. "Elas falam com o corpo". É administrador de uma empresa, onde elabora e testa formas de gerenciamento. Também é um renomado conferencista e usa suas experiências como inspiração para suas palestras. Têm alguns hábitos estranhos como por exemplo, usar um relógio em cada braço e utilizar gravatas com imagens de engrenagens (jogo de rodas denteadas). Tais costumes são decorrentes de sua vociferada admiração pelo francês René Descartes, filósofo e matemático do século XVII. Vive muito bem com sua parceira, a quem dedica doses representativas de amor, embora, por vezes, se sinta tentado a traí-la. Vive o dilema de querer ter outros casos, mas concomitantemente não acha justo, trair a "inocência" de sua mulher. Disse certa vez a Caíque, quando este o questionava sobre a possibilidade de vir a ter um caso, "É estranho saber que nunca irei beijar outra boca que não a de Júlia. Que nunca irei dividir uma cama com outra pessoa que não Júlia". Na verdade o que mais gosta em sua parceira é o seu lado intelectual, apesar desta também ser impecável do ponto de vista estético.
Júlia, por sua vez, é branca, tem cabelos curtos e castanhos e é um pouco mais alta que o seu parceiro. Adora usar saltos, mas quando sai com Roberto acaba por dispensá-los. Tem tendência a engordar, o que a faz lutar diariamente contra a balança para manter o seu corpo apreciável. É escritora de romances e coordena um teatro, além de prestar assessorias a algumas livrarias de grande porte. É visivelmente apaixonada pelo marido, mas possui uma postura mais independente em relação ao parceiro, quando comparada com Selma e Márcia, que são obstinadas no que diz respeitos aos seus pares. Quando Roberto está viajando, por conta das conferências, Júlia costuma sair com as amigas para "fugir da entediante solidão", que tanto a atemoriza. De todo modo, vive feliz ao lado do marido e se sente realizada.
O casal em tela é o mais harmônico entre os apresentados. Vende felicidades e adora trocar carícias, promessas de amor e é claro, discutir teorias, comportamentos e manchetes jornalísticas. Júlia ajuda Roberto a elaborar suas palestras e este, por sua vez, a auxilia na definição do desfecho dos romances que produz. Enfim, são seres que se complementam de tal forma que Roberto costuma dizer que ele estar para Júlia como os ponteiros estão para o relógio. Baseado nisso, Caíque costuma provocar Roberto dizendo-lhe "Há relógios sem ponteiros, mas será que há ponteiros sem relógios?"
Tenho o honroso prazer de apresentá-los às duas principais personagens femininas deste blog. O espaço reservado para elas é menor que o dos homens, mas isso é justificado pelo amplo espaço que elas ocuparão não só na trama, como também nas mentes e corações de seus pares.
Selma
Loura, olhos verdes, alta e dona de um belo par de pernas (principal atração aos olhos de Caíque, que refém de resquícios da influência africana no país, quase sempre olha as mulheres a partir dos membros inferiores). Selma administra uma empresa de confecção. Trata-se de alguém que vive unicamente para o seu trabalho. Vai à empresa todos os dias, inclusive, domingos e feriados. Se viciou em trabalho e segundo ela, não há remédio para tal vício. Tem o hábito de comprar móveis, sonhando um dia colocá-los sob o teto que irá abrigá-la juntamente com Caíque, apesar deste demonstrar resistências ao matrimônio.
Enquanto Selma quer estabilidade, seu affaire prefere não se comprometer. Eis o principal motivo das constantes discussões geradas entre eles. Selma é bastante exigente, ciumenta, por vezes autoritária. O mais incrível é que ela cobra ciúmes de Caíque, que não os têm e prefere que ela não os tenham em relação a ele. Selma acha que quem ama sente ciúmes, isto é, o ciúme é um termômetro do amor. Enfim, trata-se de alguém amada e odiada por Caíque, embora este costume dizer que gosta tanto de sua parceira que não casaria com ela.
Márcia
Muito parecida com Selma. Uma estar para outra da mesma forma que Caíque estar para Marcelo. Porém, Márcia é mais exigente que Selma e Marcelo é menos compreensivo que Caíque. Em síntese, o par formado por Márcia e Marcelo é mais instável que aquele constituído por Selma e Caíque. Márcia é morena, cabelos negros e ligeiramente abaixo dos seus largos ombros. Olhos castanhos e bastante expressivos. Diria que ela fala com os olhos e envolve aqueles que a ouvem. Estatura e massa medianas. Enfim, é uma linda mulher.
Tem como ofício ensinar (ela prefere o termo orientar). É professora secundarista. Mora distante de Marcelo, mas quer vê-lo diariamente, o que o irrita. Liga sempre para o seu parceiro, que por vezes, a ignora, já que não suporta o que designa como "policiamento ostensivo".
De todo modo, quando ambos esquecem suas desavenças, parecem se completar, pelo menos aos olhos dos outros. Márcia se gaba de conhecer como ninguém, seu parceiro. Acha que este envolvimento é incomum, por isso, deve ser considerado, mesmo que para isso seja necessário admitir coisas que não toleraria em circunstâncias normais, como por exemplo, aceitar que Marcelo namore outra pessoa, desde que não a deixe definitivamente. A exemplo de Selma, Márcia objetiva constituir matrimônio, o que a condicionaria a realização de um sonho qual seja, ter uma filha. Marcelo, a exemplo de Caíque, tem ojeriza a tal idéia.
Agora, nos faltam apenas o casal Roberto e Júlia, além dos personagens periféricos.
O que dizer sobre o aludido personagem? Antes, porém, vou reprisar o que já foi dito pelos "criativos" leitores, que ofertaram várias formas a um personagem que só agora começa efetivamente a nascer. Em síntese, Marcelo foi caracterizado das seguintes maneiras: comunista e católico (como isso é possível?); homossexual e repleto de mulheres (isso sim é possível, mas não é o caso); mora sozinho, mas por vezes, foge de casa (cúmulo da revolta?) Enfim, trata-se, à luz dos leitores, de alguém extremamente complexo (digno do divã freudiano), filho de uma transa entre a polêmica e..... não se sabe quem é o pai, a polêmica estava bêbada e não conseguiu reconhecê-lo. O fato é que Marcelo existe e assim permanecerá até o final da trama (a não ser que.... deixa pra lá), embora alguns defendam veementemente a sua morte. Aos que assim pensam, diria que não haveria trama sem Marcelo, já que ele será assíduo freqüentador da maioria das cenas que serão relatadas.
Contudo, agradeço os comentários sobre Marcelo, embora (acredito eu) eles não sejam condizentes com a realidade. Dessa forma, segue abaixo as "verdadeiras" característica do Sr Marcelo. É válido enfatizar que o perfil deste personagem só será amplamente conhecido, mediante o desenrolar dos fatos.
Marcelo tem aproximadamente 35 anos, estatura mediana, encontra-se ligeiramente acima do peso, tem cútis clara, cabelos castanhos e olhos verdes (bastante elogiados pelas mulheres). É advogado bem sucedido e tem um atrativo por causas consideradas perdidas. Mora (na casa herdada dos pais) sozinho por imposição do destino que o privou ainda cedo do convívio dos seus familiares.
Vai a igreja aos domingos, onde relembra o seu passado como seminarista (voltar ao passado é uma forma de ter, por instantes, de volta a presença de sua família). Por vezes, bebe algumas cervejas na companhia de Caíque. Tem um caso (um caso ou um acaso?) com Márcia, que o adora de tal forma que não consegue se controlar... Marcelo vive cingido por lindas mulheres, que ele prefere chamar de "as garotas". Enfim, eis Marcelo! É provável que sua descrição tenha decepcionado parte das pessoas, mas reitero que não sou um "Deus imponente", que dirige a vida de seus personagens, mas sim um mero relator dos fatos (é obvio que estes serão, por vezes, atacados por juízos de valores, até porque admito a impossibilidade de a propalada neutralidade vir à tona). Agora, faltam Selma, Márcia, provavelmente um casal (Roberto e Júlia), além dos personagens periféricos.
Até a próxima descrição.