
Deveria prosseguir com o escrito anterior, O parafuso e a porca, mas diante do ocorrido hoje, sinto-me instigado a adiar o tal escrito em favor do que verão logo abaixo.
Logo cedo, os primeiros raios solares invadiram à minha janela e atingiram de forma certeira o meu rosto, despertando-me das profundezas do indescritível mundo dos sonhos. A claridade ofuscava o olhar e de certa forma me atraia em direção à janela, que parecia querer se abrir e me mostrar algo. Deixei a razão sobre à cama e acompanhei os calcanhares do instinto. Ao estacionar o olhar entre uma fenda e outra pude observar que a janela do apartamento vizinho estava aberta e enquadrava uma garota seminua deitada num divã com um livro entreaberto sobre sua barriga. Diante do que via, não me contive e agradeci eternamente ao astro rei, que através dos seus raios invasores me mostrou que a realidade pode ser tão agradável quanto os sonhos.
Poucos metros me separavam de uma perfeita simetria: uma linda mulher e um livro, tudo de bom! Os considero vitais. Poucas visões são tão atraentes, excitantes, monumentais! A mão direita segurava o livro, enquanto que a esquerda explorava as perigosas curvas daquele corpo escultural. A direita, conservadora, racional, um porto seguro, já a esquerda, revolucionária, emocional, uma nau à deriva. O que será que ela lia? Que autor seria capaz de proporcionar-lhe tamanho deleite? Perguntas sem respostas. Mas para quê respostas diante do que via?
Com o olhar fixo e anestesiado perdi a capacidade de dissociar o livro, da garota. A epiderme e as laudas eram democraticamente uma só. Essa excitante comunhão refutava a inquestionável lei física que advoga que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Passei a mão sobre os olhos na tentativa de qualificar, ou melhor, aproximar a visão, mas foi em vão, lembrei-me que as retinas não são dotadas de lentes de aumento. Usei um hábito que me acompanha desde tempos remotos, que consiste em me colocar a partir do que vejo. Dessa forma, fiquei em dúvida se queria ser o livro e assim ter a capacidade de proporcionar tanto prazer a uma garota, ou se queria ser a garota e ser consumido pelo prazer advindo do livro. Não! Trocaria o ser pelo ter. Ao invés de ser um ou outro, preferiria tê-los comigo.
As páginas iam passando, passando, passando, até que infelizmente acabaram. Por mim, aquela história não teria fim, seria um eterno recomeço. Queria ultrapassar gerações contemplando aquela visão que tanto me proporcionava prazer, mesmo que para isso naufragasse no bravio mar da senilidade.
A garota se levantou, fez um charme com seus cabelos ondulados e negros que iam até seus largos quadris e fechou a janela. O astro rei, por sua vez, foi coberto por densas nuvens. É como se estivesse ali exclusivamente para iluminá-la. Voltei à escuridão do meu aposento.
Há algumas semanas fui convidado por um velho amigo a participar de uma festa em seu sítio. Diante de uma avassaladora indisposição em sair de casa, o questionei sobre à festa, tentando assim, criar um empecilho à minha ida. Ele por sua vez, me disse que os relacionamentos devem romper a esfera formal e se dirigir à informalidade, pois é nesta que as interações se reforçam. A justificativa era incomum e de certa forma abstrata, mas tinha seu valor. Quando se quer beber toda justificativa é válida. Aceitei! Ao chegar no local recebi, logo na entrada, um parafuso. Antes de perguntar ao porteiro o que significava aquela pequena peça de metal, ele me disse – Não se preocupe irão lhe explicar lá dentro - Me sentei à beira da piscina, à espera do cara que havia me convencido com uma justificativa abstrata a sair de casa naquela noite. Enquanto isso, pude observar que os homens ao chegarem recebiam um parafuso e as mulheres uma porca (pequena peça de ferro). Teria um sentido simbólico? Após minutos apertando o parafuso na mão direita, o coloquei no bolso sem, no entanto, deixar de pensar no que poderia representar. Seria uma senha? Uma lembrança? Um quebra-cabeça? Depois de tantas tentativas frustradas ignorei o parafuso e o deixei nas profundezas do meu bolso. Passei então a contemplar o local, repleto de árvores com galhos circundados de folhas que refletiam a luminosidade lunar. Havia uma música, mas não consegui identificá-la. O nível da piscina aumentava proporcionalmente à minha curiosidade em saber onde tinha me metido. Sai da previsibilidade do meu quarto e adentrei num mundo imprevisível. O frio na barriga me incitava. A incitação sempre me deixa com frio.
De repente ouço uma voz que me é familiar. Tratava-se do anfitrião pedindo a todos que se dirigissem até ele. Agradeceu inicialmente a presença de todos, depois agradeceu individualmente a cada um, citando nomes e referências – Um abraço ao amigo Camus. É difícil tirá-lo de casa mas eu consegui. Hoje ele trocará os livros pelas mulheres! - Foi então, interrompido, por um dos ouvintes que perguntou – o que significa esse parafuso? – Bem, observem, que cada homem recebeu um parafuso e cada mulher uma porca. Tanto os parafusos quanto às porcas possuem tamanhos diferentes. Cada parafuso tem seu par, ou seja, cada parafuso só se encaixará numa porca. Vamos começar a beber agora (eram 21:30h) e a partir de meia noite e meia tentaremos encontrar nossos pares. O que vem depois vocês decidirão. Fiquem a vontade – É difícil ficar a vontade numa situação como aquela. O meu par seria decidido na base da sorte. Busco nos outros o que de melhor encontro em mim (ou algo mais, desde que haja uma identificação). O que buscar em alguém que me é imposto pelo acaso?
Pensei em dizer ao velho amigo que iria embora, mas logo desisti, seria, talvez, uma descortesia. Ademais, alguém ficaria sem par. Me dirigi a ele – Boa noite! – Ele visivelmente bêbado me disse – Então, o que está achando da festa? – Na verdade ainda me sinto fora da festa – Beba um pouco e observe o que vai acontecer agora – Se afastou, o acompanhei com o olhar até onde não pude mais. De repente, o velho amigo reaparece e fala em alto tom – Atenção chegou o grande momento. Vocês têm 30 minutos para localizar seus pares. Logo depois voltarei a falar com vocês – Sumiu novamente. Mais uma vez não consigo identificar a música que estava sendo executada, a barriga, antes fria, agora se encontra congelada.
Enquanto homens e mulheres buscavam seus pares, me mantive reservado num canto do salão. De repente avisto uma mulher vindo em minha direção. Se ela lesse os meus lábios, talvez teria desistido, já que eu disse em voz baixa – tomara que não seja você – Escapei desta, a porca era incompatível com o parafuso que eu tinha. Mas não havia como fugir, logo seria capturado. Logo, logo, uma porca qualquer encaixaria naquele parafuso. Diante disso fui até o freezer e bebi rapidamente duas ou três cervejas. Repentinamente fiquei leve como uma pena e à espera do meu par. Olhei tonto para o salão e constatei que a maior parte dos pares já se encontrava formada. Ouvi alguém pedir – por favor, uma cerveja – procurei, mas não encontrei o proprietário da voz. Conclui que era o meu subconsciente pedindo mais álcool. Ele me conhece bem, ou talvez, eu o conheça mal. De todo modo, resolvi seguí-lo e bebi mais e mais. Olhei novamente para o salão e vi uma mulher distorcida, olhando para os lados, certamente em busca do seu par. Acenei para ela, que veio em minha direção. Na medida em que ela se aproximava, o meu coração acelerava e a imagem melhorava................... Notem que o texto ficou longo, logo prefiro continuá-lo amanhã.
Considerando que neste blog há mais leitores que ratos, venho através desta avisar aos interessados, que a partir de amanhã os escritos que permeiam o presente espaço serão atualizados.
Sobre os personagens
I – Os personagens, inclusive Caíque (viu Mac Moura?) logo estarão em cena.
II – Eu não sou Caíque, embora confesse que sejamos parecidos, certo Adriana?
III – O que há de mau em Marcelo ser homossexual? Com a palavra o Sr. Cláudio!
IV – Aos demais leitores: vejam que os personagens antes mesmo de atuarem, já estão envolvidos em polêmicas.
Sem mais, agradeço a atenção de todos ao tempo que lhes peço desculpas pelos eventuais transtornos, ou quem sabe, pelo "alívio imediato".
Um abraço a todos e até amanhã.
Enquanto os personagens (Caíque, Marcelo, Selma e Márcia) da trama que será em breve descrita neste blog não entram em cena, me contentarei em falar brevemente sobre os personagens (ou melhor, sobre o procedimento que adotaram em relação ao pecado original) mais antigos que se têm conhecimento: Adão e Eva. Bem, antes deles havia Deus, mas este é mais diretor (aliás, um diretor contrariado pelo desfecho de sua trama) que personagem.
Questiono-me, às vezes, se tais personagens teriam errado ao provar do "fruto proibido". Segundo as leis em vigor, sim! Mas algumas considerações correlatas podem atuar de forma pertinente e contrária à presente conclusão. O estado em que vivia o casal era o da natureza, este marcado pela sensibilidade, a ignorância, enfim, pela submissão à ordem vigente instituída por Deus. Toda transformação se dá em função de uma desobediência, contrariedade, ousadia, perante o que se encontra estabelecido. Tal postura agride tanto a ordem vigente, que os seus beneficiários respondem de maneira punitiva aos revoltosos. Um exemplo representativo foi a inquisição, que enviou inúmeros vultosos espíritos à fogueira (observe que o mesmo ocorreu com o casal em tela). Todas os mecanismos utilizados como forma de conter o ímpeto transformador (serpente) dos homens falharam.
Adão e Eva tinham tudo, mas lhe faltava algo fundamental: a liberdade, a razão, enfim, a sede por transformação. Quanto maior a ignorância, maior a submissão. Quanto maior a razão, maior a liberdade. Eis a troca que o seleto casal fez. Diante disso volta-se à pergunta: Eles realmente erraram? Sinceramente acho que não. Adão e Eva foram os primeiros revolucionários. Diga-se de passagem, os prefiro à Guevara, Castro, Prestes.....
A partir de hoje estarei me rendendo a um procedimento comum entre os escritores (não sou bem um, mas...), qual seja, criar personagens. Um dos personagens de Kundera em O livro do Riso e do Esquecimento, disse que o romance é ilusório, já que faz com que o autor tenha a sensação de que pode compreender os sentimentos de seus personagens. Não tenho tal pretensão. Não saberia executar o papel de um Deus imponente que determina os destinos de suas criaturas, até porque os meus personagens são reais e não fictícios, tem vida própria, desejos e valores particulares (cabe a mim apenas relatá-los), distantes às minhas mãos por mais longos que sejam os meus braços. Ademais, tal procedimento enriquecerá os escritos já que não se limitará à primeira pessoa.
É digno de nota afirmar que as elucubrações sobre o que ocorre ("várias variáveis") ou ocorreu ("Resquícios de uma vida") com este escriba, bem como a sua forma de pensá-las serão mantidas.
Os personagens são os seguintes: Caíque, Selma, Marcelo e Márcia. É provável que dois personagens sejam posteriormente inclusos no ilustre rol das criaturas que irão permear este blog. Abaixo uma sinopse de um deles.
Caíque
Profissão: professor universitário;
Características físicas: alto, magro, cútis morena, olhos grandes, negros e fundos;
Condição: mora sozinho por opção (e parece se sentir bem por isso) num condomínio de classe média;
Ideais: árduo defensor das diferenças. Encontra-se sempre disposto a contrariar, mesmo que se torne ridículo, o que é inquestionavelmente aceito. Se lhe disserem que determinada postura ou idéia é correta, ele prontamente pergunta o porquê, e normalmente escuta "porque sim". Essa imposição é inaceitável aos seus olhos. Defende o direito de escolha num mundo sem alternativas.
Hábitos: há cinco caminhos que o levam à universidade, dessa forma ele opta por seguir um a cada dia da semana, a fim de não torná-los monótonos. Compra pães em padarias distintas, dificilmente bebe no mesmo bar e troca de namoradas com uma certa freqüência, já que a permanência com a mesma garota o sufoca, de todo modo, Selma, por vezes, persiste em seu caminho. Por fim, procura "não criar laços, sobre pena de se deparar com um nó" como ele mesmo vocifera.
Ódio: da multidão, não suporta ser comparado à massa. Costuma dizer que a coletividade assalta as diferenças individuais, nos tornando iguais, sem características próprias, ou seja, mais um, simplesmente mais um, nada mais. "Sendo meramente mais um, minha ausência não será sentida, logo, não há motivos para continuar." Segundo Caíque o que mantém o homem vivo é sua utilidade (isso se encontra nas diferenças). Se não for útil não há porque viver.
Triste daqueles que não os têm? Ainda bem que os tenho, embora isso não me conceda um passaporte com destino ao estado de plena alegria, até porque ele não existe, a não ser em fábulas cristãs e ideologias marxistas. A propósito, eis uma das coisas úteis escritas pelo médico Lair Ribeiro: "os problemas são nossos melhores amigos". O princípio da antítese nos oferta pertinentes indícios de compreensão: sem problemas não haveriam soluções, da mesma forma que sem a luz não haveria escuridão ou ainda, sem a vestimenta inexistiria a nudez (basta lembrar do casal que habitou efemeramente o paraíso) enfim, algo só existe devido ao seu contrário (quando tenho dúvida da minha existência olho para o espelho e me vejo de forma invertida). Careço de problemas para demonstrar a mim mesmo o meu poder de superação e conquista. Só conquistamos algo mediante a existência de problemas, se eles não existissem, como atingiríamos as conquistas? Seríamos consumidos pela monotonia e pela ineficácia e nunca saberíamos ao certo do que seríamos capazes.
O singelo juvenília acaba de se deparar com algo inesperado. Trata-se de sua indicação ao "Selo Diamante" do blog http://osescolhidos.zip.net Quem diria que alguém o leria? Imaginava-se que ele seria entregue "à crítica roedora dos ratos". Ao invés de pegadas de miomorfos, comentários de leitores.
Mas o que faz com que Bárbara e Mac Moura, por exemplo, visitem este blog? Seriam figuras dantescas em busca de um habitat ou, paradoxalmente, anjos da guarda em busca de boas ações? O que fizeram de mal para virem se penitenciar aqui? Não se sabe ao certo, talvez nunca se saberá. O fato é que eles reiteradamente estão aqui.
Não quero trocar a atenção de meia dúzia de leitores (suficiente para vencer um batalhão de ratos) pela desatenção de inúmeros leitores. O sucesso tem um preço, o ostracismo não. Sei que os leitores têm o poder de nos enviar aonde bem entendem, mas sinceramente não me preocupo com isso. Foi no desconhecido que sempre habitei.
Pensava-se em monólogos, nunca em diálogos. Em ratos e não em leitores. Em escrever não em ser lido. De todo modo, o presente posting tem o intento de agradecer o ocorrido. Muito obrigado aos idealizadores de "os escolhidos".
Infinitos abraços aos corajosos leitores deste blog, que com suas flautas foram capazes de atrair os ratos para fora do juvenília. Agradecimentos: Bárbara Morgana (http://guerreiraonline.blogspot.com) em seu Pensando Alto e Mac Moura (http://confabulancias.zip.net). Obrigado pela insistência.
Há alguns dias, em uma caminhada sem direção pelas quentes e estreitas ruas teresinenses, me esquivando de um e de outro transeunte que passava com premência em busca do desconhecido, me deparei com o relance de uma figura que se esvaiu tão repentinamente quanto apareceu. Os olhos, embora ofuscados pela intensa claridade, foram capazes de denunciar o ocorrido, tratava-se da reaparição de um grande mestre, o professor Francys Musa Boakari. Por instantes me tornei um ser extremamente ditoso diante de sua inesperada presença.
A caminhada prosseguiu, dessa vez com um destino: retornar ao inesquecível período universitário e relembrar das deleitáveis lições que me foram ensinadas por aquele grande guru. Sempre que tinha oportunidade procurava ser seu discente, o que ocorreu em cinco disciplinas. Foi ele quem pela primeira vez me alertou para publicar algo de minha autoria. É bem verdade que não publiquei - talvez por comodismo ou quem sabe, por insegurança - o que me pedira, mas, o mais importante para mim não seria a tal publicação e sim, o fato de ter ouvido daquele mestre, que os meus textos poderiam ser devidamente propalados. A minha alegria encontrou-se flagrante perante as pessoas que sempre me viam triste.
Certa vez, ao final de uma de suas saudosas aulas, o mestre despachou à todos, com exceção de mim, a quem ele preferiu dar uma lição, de certo, uma das mais belas que até hoje recebi. Ele observou com propriedade que eu me encontrava impaciente com os debates ocorridos em sala de aula. Confesso que lamentavelmente tive ataques internos de estrelismo. Não suportava aquela retrograda discussão incitada por alguns alunos, já que preferia explorar o mestre e a sua sapiência de uma forma mais conveniente. Ele então disse-me para ser mais humilde, pois aquela não era uma atitude digna. Assim pude observar o quão absurdo estava sendo ao tentar, mesmo que silenciosamente, cercear a opinião alheia. Isso me fez lembrar Voltaire, outro grande mestre, ao dizer que até poderia não concordar com o que alguém dissesse, mas defenderia até a morte o direito da livre manifestação.
Enfim, não há como esquecer de dois acontecimentos hilários, embora não menos instrutivos, pelo menos para mim. Após nos passar uma atividade a ser entregue posteriormente, Francys se dirigiu à todos dizendo: "Vocês podem fazer o trabalho manuscrito, com exceção do sr" e apontou para mim. A minha grafia sempre foi incompreensível, até mesmo para o paciente mestre, que afirmava: "Não escreva para você e sim para os outros. Não adianta você compreender o que escreve é preciso que os outros o compreenda". Noutro dia, numa aula sobre a obra do sociólogo Emile Durkheim, nos falava sobre causa e efeito. Disse-nos então: "Nem sempre onde há fumaça, há fogo. Nas boates, por exemplo, há fumaça, mas não há fogo". Se referia ao gelo seco que normalmente é expelido naqueles ambientes. Era preciso buscar a causa verdadeira das coisas, nos afastando do que o outro Francis, dessa vez o Bacon, designou de noções vulgares (notionos vulgares) ou pré noções (praenotiones).
Eis um grande mestre! Coerente, humilde, responsável, amigo, dentre outra gama de atributos que lhe é visivelmente inerente. Sei que ninguém aprende o suficiente, mas diante dos ensinamentos do professor Francys, pude efetivamente aprender e apreender o imprescindível. Muito obrigado mestre por ter tornado minha vida acadêmica tão prazerosa e exitosa. Peço-lhe então, que da próxima vez, não se desfaça no ar, pois assim teremos a oportunidade de conversar. Estou ávido por novas e necessárias lições.
Em uma visita ao local onde trabalha o meu tio, me surpreendi com a presença do meu avô. Há tempos não o via. Trata-se de um senhor com 91 anos, lúcido como um jovem e teimoso como uma criança. Após alguns minutos de um saboroso diálogo, ele me pediu que o deixasse a quatro quarteirões de onde estávamos. Levamos aproximadamente trinta minutos para superar a distância que nos separava do seu destino. Tudo isso? O motivo dos passos curtos e vagarosos é uma artrose alojada na sua perna. Renato Russo cantou que "tempo é tudo que somos". Eis a referência para as nossas ações cotidianas. A morosidade comumente nos leva à impaciência, mas dessa vez foi diferente. Observei que embora o corpo do velho estivesse cansado, o cérebro mantinha-se intacto e com um funcionamento esplêndido. Num trajeto de quatro quarteirões viajei pelos quatros cantos do mundo. O meu avô falou do Iraque, da Rocinha, da Segunda Guerra Mundial, da copa de 58, do seu grande amor: a minha avó, enfim, do quanto gosta de conversar com as pessoas mesmo sabendo que elas não gostam de ouvi-lo, por desinteresse ou ausência de tempo. Entre irrisórios trinta minutos e nove décadas, optei por estas. Sábado (17) irei encontrá-lo novamente, pena que falta tanto tempo.......
Após alguns anos tive que me despedir da pequena Oran, que me acolheu de braços abertos e sorriso fácil. O motivo era a incompatibilidade entre o ensino ministrado pelas escolas locais e as minhas ambições, ou melhor, as ambições da minha família – ou de parte dela - em relação ao meu futuro, que nada tinham de locais. Na verdade a trajetória da minha vida estava definida por meus familiares desde a época da gestação. Era um feto e o meu destino já estava traçado nos díspares e antagônicos sonhos dos meus pais. De todo modo teria que trilhar um caminho que não escolhi. Aliás, o que não nos é imposto? Parecemos ter uma tendência à arbitrariedade. Me puseram um nome, me mandaram à escola, me disseram o que era certo e errado, sem nunca me pedirem uma única opinião. Eis a socialização, que não deixa de ser em parte, uma servidão. Isso me faz lembrar Stuart Mill ao afirmar que "a primeira lição da civilização é aquela da obediência". É difícil sair deste labirinto já que somos detentores de um instinto de submissão tão proeminente quanto a sede de poder.
Não culpo meus pais por definirem certas coisas por mim, que pais não agem assim? Com a justificativa de que querem o melhor para os descendentes acabam por tornarem suas, a vida do filho. O problema é que há filhos que se rebelam e escolhe caminhos alternativos àqueles apontados pelos pais, o que desemboca numa profunda frustração por parte destes. No meu caso especificamente os objetivos dos meus pais em relação a mim eram divergentes. Enquanto meu pai queria que eu ficasse em Oran à sua disposição, minha mãe defendia a minha saída para a capital onde poderia aprofundar meus estudos. Minha mãe driblou o patriarcalismo da família e concretizou com maestria sua vontade. Fui então, enviado à capital.
Me deparei com intensas mudanças. O modo de vida antes tão singelo tornou-se artificial e irritante. Passei a contar os amigos nos dedos de uma só mão e ainda me restavam dedos. A distância ao colégio, outrora medida em passos se tornou imensa e passou a ser verificada em intermináveis minutos. Os riscos tornaram-se alarmantes, fui barrado por jovens delinqüentes, ao lado da escola, mas como não tinha nada de valor, me deixaram ir (não sabem eles que o grande valor da vida encontra-se em nós). Em Oran sempre andei pela madrugada, atirando pedras e as ouvindo trincar e cuspir fogo no paralelepípedo, já na capital isso me tornaria um Kamikaze. Enfim, o calor, o barulho, a inquietação, tudo era (in)suportavelmente novo. As noites repletas de nostalgia me levavam à Oran e os dias me traziam de volta. Não há como fugir de grades abstratas.
De tudo isso o que mais me chateava era a superficialidade das relações. Os contatos pessoais eram raros e deprimentes, já os formais freqüentes. Os primeiros, parte das vezes eram desprovidos de conteúdo e repletos de inutilidades. Gradativamente pude perceber quanto valia a pacatez de Oran. Infelizmente, na maior parte das vezes, só passamos a valorizar algo quando não o temos mais, ou seja, quando é tarde demais.
Fui matriculado numa escola freqüentada por pessoas de classe média alta. A primeira aula foi ministrada pela professora de português, que a propósito, era uma epifania. Até que fim, estava diante de algo belo e cristalino num mundo horripilante e opaco. Eis uma figura que me deixava inerte todas as vezes que se dirigia a mim. Esquecia da minha ojeriza por algumas coisas da cidade ao lembrar das suas retinas verdes, do seu nariz empinado e dos seus largos quadris que emprestava a forma de violão ao seu corpo. Como desejei não desejá-la, mas foi em vão. A fixação era tamanha, que mais parecia um transe, talvez por isso tenha ficado em recuperação (pela primeira vez). Até hoje acho que não atingi a média propositadamente, pois assim ficaria ao lado da diva com quem eu sonhava todas as noites e em quem eu pensava todos os dias. Eis a primeira besteira que fiz por uma mulher. Depois tiveram tantas outras, mas esta eu não me esqueço. As pessoas normalmente lembram do primeiro beijo, da primeira professora, eu, lembro da primeira besteira. Mas apesar de tudo, não me arrependo. Para a minha infelicidade as aulas de recuperação foram ministradas por uma outra professora. Que decepção!
A sala de aula gradativamente foi dividida em grupos de acordo com as afinidades dos seus partícipes. Eu, por mais que tenha buscado me socializar, fiquei isolado. Era uma espécie de Robinson Crusoé, a sala era a ilha e os alunos o mar (quase sempre bravio) que a cercava. Estava desprotegido, desprezado e no meio do nada. Tenho uma incrível tendência a solidão (sentimento que adoro quando o procuro, mas que odeio quando por ele sou procurado). Ando, ando e ao final do caminho não encontro ninguém, embora me depare com a luz. As pessoas, em sua maioria conformadas, não toleram um ser questionador, perturbador e que agride os tímpanos da permanência. Sou um grupo de um só participante (talvez por isso na Universidade eu tenho tido tanta aversão aos grupos). Até no campo de futebol ocupava um espaço só meu, no gol. Era reserva e como o titular nunca se machucava, eu me mantinha à distância, como um mero espectador.
Os alunos, quase sempre me repugnavam, já uma pequena gama de alunas se aproximavam, talvez por ser "enigmático" como uma delas disse-me certa feita. O problema é que as aproximações tinha como desfecho o meu afastamento, não por questões estéticas, as garotas eram impecáveis, mas sim por ausência de conteúdo. Frasco e capa ao invés de perfume e livro é depreciável. Enfim, estava num outro mundo. Restava-me então, tentar apreciá-lo com acuidade e moderação para não expulsá-lo de mim.
Em um dos passeios ao nada, que ultimamente têm se tornado constantes, me deparei com Márcia, uma garota de um só braço, mas que parece nos abraçar com mais calor e proteção que as demais pessoas. O seu semblante denunciava uma áspera tristeza. Disse-me que acabara de ouvir que ela era "feia, imprestável e anormal". Alguém no trabalho a taxou inclusive de "braço de radiola". Após me dizer isso começou a chorar de forma incontrolável. Fiquei pasmo diante da cena. Tentei inicialmente pedir que se acalmasse, mas ela não se continha. Os transeuntes nos olhavam com ar de curiosidade mesclada de incompreensão. Finalmente após incontáveis soluços, levantou o rosto e disse – Você também acha isso? – De pronto respondi negativamente – Claro que não. A inexistência de um membro não a torna pior. Você deveria considerar que as imperfeições são responsáveis por caracterizar as pessoas. São elas que nos identifica, que aponta nossas marcas, que define nossas identidades, enfim, que nos tornam diferentes – Ela incerta do que havia ouvido retrucou – As imperfeições nos cicatriza, nos deixa marcas que sempre serão lembradas pejorativamente pelas pessoas que nos quer o pior – Se formos considerar tudo que nos é dito... A propósito é sempre bom desconfiar dos elogios, bem como das críticas.
Não me contive e disse à Márcia – Sem as imperfeições seríamos todos iguais e perderíamos o que temos de melhor, ou seja, nossas diferenças. Sou único e isso me envaidece. Ademais, o fato de ser desmesurado e magro, por exemplo, não me deixa menos capaz, pelo contrário, me credencia a ser único, me ajuda a construir traços que me diferencia da multidão, me dá uma face num mundo sem rosto – Márcia disse-me – Não compare suas imperfeições com as minhas, você não sabe o que é a ausência de um braço – Disse-lhe então – De fato não sei, tanto é que ao me abraçar sempre tenho a impressão que você tem dois braços, trata-se de uma presença oculta – Márcia, após alguns instantes de reflexão, desistiu da discussão, me deu um abraço, daqueles que nos deixa com uma incrível sensação de proteção, e partiu.
Prefiro as quatro paredes do meu quarto ao barulho, insegurança e superficialidade das ruas. No quarto só ouço a minha voz, mas é compreensível, ao passo que nas ruas várias vozes ecoam, mas de forma incompreensível; no quarto estou sozinho sem ninguém, nas ruas estou sozinho a dois, a três, a quatro, enfim, no meio da multidão; no quarto sou o único, nas ruas sou mais um; no quarto sou soberano, nas ruas sou vassalo; no quarto o mundo me pertence; nas ruas eu pertenço ao mundo; no quarto eu controlo, nas ruas sou controlado; no quarto leio Camus, Kundera, Popper, Weber, nas ruas outdoors com a última moda; no quarto tenho todas as mulheres, nas ruas não tenho nenhuma; no quarto sou a evidência, nas ruas sou o anonimato; no quarto sonho, nas ruas tenho pesadelos; no quarto estou livre, nas ruas preso; no quarto a leveza, nas ruas o peso; do quarto vejo as ruas, das ruas não vejo o quarto. Chega! Não há como viver sozinho. O pequeno príncipe trata-se de um mero desenho e Robinson Crusoé nada mais é que uma lenda.