
Estava a procura de algo ou alguém, sem saber o quê ou quem. Havia uma inquietação diária que me mantinha numa eterna e silenciosa busca. Ansioso ia de encontro ao desconhecido que insistia em se manter recôndito. Após dias sem destino a encontrei e me encantei. Fiquei cego, inerte e submisso ao peso de um relacionamento a dois, que mais parecia uma embarcação furada que aos poucos afundava sem que os seus tripulantes a abandonasse. Íamos aos mesmos lugares. Tínhamos os mesmos amigos. Nos ínfimos momentos em que estava só, as pessoas olhavam para todos os lados e ao não vê-la me questionavam sobre o seu paradeiro. A ditadura da convivência era tamanha que conseguíamos advinhar o que o outro pensava, desejava, sentia... Éramos refém um do outro. Em nosso restrito cativeiro não havia lugar para outras pessoas que não nós. Abdicamos da liberdade que nos acompanhava e nos enclausuramos num mundo a parte, insuportavelmente só nosso. Passei a cumprir rigorosamente os horários preestabelecidos por ela. Ia sempre à sua casa "bater o ponto" e ser lambido por seu cachorrinho que sempre me recebera bem. Constatei então que a minha vida não era mais minha, eu a entreguei a uma outra pessoa, que demonstrava não querer devolvê-la. Passei a ser uma posse. As imposições marcavam o prenúncio do fim de um relacionamento. Eis o peso.
As carícias foram gradativamente substituídas pelos arranhões, os sussurros pelos gritos e os presentes pelas promessas. Ciúmes e brigas tornaram-se a síntese do cotidiano. O desgaste natural da convivência nos atingiu de forma certeira e sem dó. Discutíamos por tudo que não valia nada. Nossa criatividade, a única arma que tínhamos contra o marasmo, sofrera um atentado fulminante e partira para nunca voltar. Diante disso, um certo dia a desencontrei e me desencantei. As chamas da paixão que pareciam eterna se apagaram após sete longos anos de temperaturas impensáveis. Após um profundo mergulho me encontrava devolta à superfície. Estava decretado o fim. Voltei a respirar um ar só meu. Eis a leveza.
O assunto tratado no post do dia 17 de março, que trazia o título "A que ponto chegamos?" merece ser mais uma vez referenciado, tamanha a importância que oferta aos dias em curso. O aludido post retratou através de um acontecimento cotidiano a intensa defasagem de relacionamentos entre as pessoas, que apesar de alardeadas revoluções na área da comunicação encontram-se afastadas, pelo menos em termos afetivos. Perdemos com isso a solidariedade, já que não há como se solidarizar com o desconhecido. Isto é, ninguém se comove com a drástica situação dos pedintes nas calçadas da infâmia, tendo em vista que não os conhecemos. Assistimos às notícias do atentado em Madri, deitados num sofá, bebendo coca cola e comendo pipocas. As duas centenas de vítimas nada representam além de um contingente de anônimos.
A tecnologia nos aproximou dos distantes, mas concomitantemente nos afastou dos próximos. Conheço Nicole, uma nova-orleanesa, com quem troco e-mail´s, mas no entanto, desconheço o nome do meu vizinho. Sei mais sobre uma garota que estar a milhares de quilômetros, do que sobre meu vizinho, que por sua vez encontra-se separado de mim por uma parede com alguns centímetros de espessura. Posso visitar a Torre de Pisa e a sua curiosa inclinação sem necessariamente sair do lugar. Esse comodismo nos impede de freqüentar ambientes físicos, o que gera a degradação do espaço público e os contatos sociais. Antes íamos a uma pizzaria, caso quiséssemos degustar a massa de origem italiana. Íamos ao supermercado em busca de mantimentos ou na farmácia comprar remédios. Hoje ligamos para o disk-pizza. O supermercado e a farmácia oferecem serviços a domicílio. O contato verbal e físico foi diminuído drasticamente.
Antes, porém, não era assim. Nas feiras de outrora as especiarias e objetos à venda não tinham preços prescritos, estes eram negociados na hora da compra, entre o interessado e o vendedor. Isso possibilitava, por intermédio da negociação, um contato entre eles. Hoje em dia, os produtos possuem seus preços e as pessoas pagam por eles sem dizer absolutamente nada, a quem os vende.
Tenho me deparado cada vez mais com pessoas, dentre as quais eu mesmo, praticando monólogos em vias públicas. Enfim, a ausência de contatos nos tornou seres insensíveis que não falam com ninguém, além de nós mesmos.
Outrora não gostava de fotografias. Sempre as achei ditatoriais por enclausurar as imagens, roubando-lhes a sublime liberdade do movimento e cobrindo-lhes da mais melancólica inércia. No entanto, atualmente tenho sobre minha escrivaninha uma fotografia. Ela expõe de forma fidedigna a imagem do meu irmão de um ano, com a sua peculiar seriedade mesclada com uma improvável tristeza, que deixa os curiosos com dó. Sempre gostei de crianças, mas à distância. A inquietação e os gritos de tais seres me deixava nervoso e profundamente incomodado. Já nos dias que correm me deleito com a grande companhia do pequeno irmão, que me observa como se fosse a única imagem que lhe fosse permitido olhar. Me tornei mais compreensivo, revi conceitos, enfim, me livrei do manto petrificado que desde sempre me circundava e me atirei na imensidão do mar de sentimentos. Quanto à fotografia, não há nada melhor. É a única forma de visualizar meu irmão quando ele se encontra à distância. Fixo o olhar no papel colorido como se fosse a única imagem que me fosse permitido olhar. Como é possível um pigmento humano operar tamanha transformação? A fotografia que um dia foi prisioneira, hoje me aprisiona o olhar e liberta minha imaginação que vai de encontro ao pequeno irmão.
Ontem me deparei com um velho amigo comunista. Sempre tivemos vastos embates por conta da disparidade entre os opostos pensamentos que cultuávamos. Mas ainda assim pudemos desfrutar de uma amizade como poucas que tive. O questionei sobre o comunismo, e ele de pronto me respondeu: "não sou mais". A realidade dos fatos o impedia de sê-lo. De toda forma ele sempre carregará este carma. Os comunistas nada mais eram (ou são) que entusiastas que acreditavam veementemente terem descoberto o caminho que os levariam ao paraíso, mesmo que para isso tivessem que matar. Mais tarde descobriram que o proclamado Éden não existia e que eles eram meros assassinos. Perguntei pelo casal de pastores que ele ostentava à época da escola. Ele me respondeu: "Lenin e Rosa Luxemburgo morreram, mas deixaram um legado de nome Tocqueville". Só mesmo na cabeça de um velho comunista, um casal tão exótico ter um filho liberal. De todo modo isso representaria fielmente a transformação que sofrera.
Após anos no jardim iniciei a alfabetização. Logo no primeiro dia de aula me deparei com um impasse, qual seja, as cadeiras eram condicionadas às pessoas destras. Como eu era canhoto, não havia como escrever a não ser me contorcendo, o que me ocasionou ao final do primeiro dia profundas dores na coluna. Eis a primeira vez, dentre muitas outras, em que me senti um ser estranho ao ambiente. Fui então, compelido pela professora Espírito Santo, a me tornar canhoto. Após meses escrevendo sempre com a mão direita, sobre a atenta vigilância da docente, aposentei a esquerda, que se tornou parcialmente inútil. Apesar do ocorrido me tornei amigo da odiada "tia", talvez devido as minhas notas, que sempre estavam acima da média e eram expostas por Espírito Santo como se fossem suas. Aliás, por conta do meu desempenho, ao final do ano, recebi a notícia que iria para o segundo ano, ou seja, não haveria necessidade de cursar o primeiro.
Minha mãe foi uma figura atuante nos meus estudos. Ela costumava me acordar às quatro da manhã para estudar, sempre sobre a justificativa de que naquele horário as pessoas teriam um maior poder de aprendizagem. Dizia ela: "É um momento calmo, silencioso e o nosso cérebro encontra-se descansado". Em pouco tempo me adaptei e passei a acordar e estudar sozinho. O fardo de antes se tornou prazeroso. Os anos que se seguiram foram promissores no que tange aos estudos. Devo isso a minha insistente mãe.
Parte dos alunos, na verdade os melhores, eram inseridos num grupo de jovem denominado JUSC – Jovens Unidos Servindo a Cristo. Passei a freqüentar o tal grupo e logo me tornei coroinha. Eu, a exemplo do meu amigo James, gostava de exercer a referida função, porque esta ocasionava respeito por parte dos colegas. Cabia ao grupo estudar a Bíblia e participar de atividades sociais, como por exemplo, gincanas para arrecadar alimentos aos necessitados. Certa vez, fomos encenar uma peça. Sem motivos aparentes, me deram a incumbência do papel mais importante, ou seja, Jesus Cristo. Justo eu, que era extremamente tímido, encenar o papel principal? Tentei questionar, mas não me deram ouvidos. Após semanas ensaiando chegou o grande dia. A matriz encontrava-se repleta como eu nunca tinha presenciado. Comecei a tremer, não sentia os pés, os poros exalavam suor, a tontura veio em seguida. Paradoxalmente, meu amigo Rener aguardava calmamente o momento de entrar em cena. Tratava-se de um ator nato, que havia incorporado efetivamente o seu personagem. Ele ao contrário do que fiz, passava parte do dia ensaiando a peça, logo estava preparado, eis o motivo da calma que lhe saltava à face.
Após algumas cenas em que só o narrador falava, era chegado a hora de Jesus se pronunciar. Trêmulo me esqueci das palavras sagradas. Rener ao desconfiar do meu súbito esquecimento me soprou as frases, que soaram incompreensíveis ao público. Durante a ceia fui beber o que seria o sangue de Cristo e me engasguei, me faltando o ar. Rener então, demonstrando a sua aproximação com o personagem gritou: "Jesus tá passando mal!". Alguns instantes incomensuráveis se passaram até que voltasse a respirar normalmente. Por pouco Jesus não morreu na Grande Ceia. Fui substituído pela professora de Religião, que por sua vez, sabia o texto decorado. A vergonha me acompanhou por dias. Me senti um antijesus.
Uma vez mais, a igreja me vem a memória. Este templo tido como local sagrado foi o ambiente em que cometi um ato profano. Certa feita, na companhia do amigo James, descobri onde o padre Luís guardava os vinhos a serem utilizados nas cerimônias. Ele ao constatar que havíamos descoberto o seu segredo nos disse, que o vinho era proibido. Desconsideramos as palavras do sacerdote e a exemplo de Eva fomos em busca do saber, mergulhamos no primeiro contato com o álcool. O poder nos deixou tontos, mas tão poderosos quanto o padre. Posteriormente fomos descobertos, mas não fomos expulsos do paraíso, apenas não pudemos mais comer da maçã ou melhor, beber da uva. Voltamos a clausura da fragilidade.
Tive o prazer de reviver um pouco da minha infância. Estive diante do prédio em que vivi dos quatro aos oito anos. Foi lá que ocorrera o primeiro beijo. Este se deu embaixo de uma cama com a vizinha do 302, a linda Bianca. Foi lá que sofri o primeiro acidente ao cair no banheiro e furar a cabeça. Foi lá que flagrei meus pais providenciando o nascimento da minha irmã. Enfim, o prédio é a lembrança mais remota que tenho. Lembro-me, que ao ir para escola olhava para o referido prédio e o achava imenso. Sempre que olhava para cima, tinha a impressão daquele monte de concreto está em movimento, quando na verdade o que se movimentava eram as nuvens. De volta ao presente, olho para o prédio e constato que ele é bem menor do que imaginava. Todas as minhas grandes lembranças tornaram-se pequenas. A estatura do meu pai diminuiu, bem como o campo de futebol da esquina. Isso me faz chegar a seguinte conclusão: quando pequeno via as coisas grandes, agora que cresci, as vejo pequenas.
Insisto em não olhar para ela, que insiste em chamar minha atenção. Sedutora, captura meu olhar com uma certa facilidade. Vou de encontro a ela, pensando no que dizer, mas no momento em que me aproximo, inexplicavelmente ela se afasta. Lembro-me que quando criança, fugia da onda para logo depois correr desesperadamente atrás dela. Desta forma, nunca nos tocávamos. Este episódio foi o primeiro de inúmeros. Sempre com o mesmo desfecho, qual seja, a fuga daquela linda garota.
Passei então, a pensar numa forma de me aproximar. Seria preciso ser um surfista e saber o momento certo da onda. Às vezes que tentei, não foram poucas, naufraguei. Certa noite, numa festa em Oran, fui contemplado como uma coragem sem precedentes. Fui até a garota e diante de uma canção dos alemães dos Scorpions, a convidei para dançar. Teria cerca de quatro minutos para lhe dizer o quanto a desejava. Os quatro minutos tornaram-se quarenta, parecia uma eternidade, mas ainda assim, não consegui dizer absolutamente nada. Ao final da canção ela olhou para mim e se foi.
Meses depois a vi na companhia de um namorado. Na ocasião a sua prima veio a mim em tom de justificativa falar que a garota encontrava-se decepcionada com a minha omissão. Passei então, a me autofragelar num confinamento em forma de quarto. Dias depois me surpreendi com um convite. Tratava-se da festa de quinze anos da garota que mais desejei até hoje. O belo papel em forma de livro trazia no seu interior o seguinte: "Guardarei uma dança para você". Ela dançou sozinha ou com outra pessoa, já que eu não fui a festa.
Atualmente a garota encontra-se casada, quanto a mim, continuo fugindo das ondas para depois correr atrás delas. Fico pensando como seria se eu domasse a minha omissão e me dirigisse a garota. A propósito, para efeito de informação não sei nadar.
O ser humano encontra-se, embora não se dê conta, lamentavelmente cada vez mais distante das coisas singelas da vida. A complexificação da urbes desfez alguns costumes e inseriu outros no cotidiano das pessoas. Antes era comum o escambo entre vizinhos, hoje, porém, não conhecemos os nossos vizinhos. Não sabemos quem mora ao lado. Somos anônimos que, por vezes, passamos por vários anônimos sem se quer a eles dedicarmos um singelo, mesmo que tímido "bom dia". Sentamos ao lado de alguém no cinema, no ônibus e não nos dispusemos a menor menção no sentido de lhes dizer algo, nem mesmo um simples "oi". Perdemos muito por não falar com as pessoas, que são verdadeiros caldeirões de experiências. Por fim, ainda preferimos a companhia da tv, que fala, mas não nos escuta, por mais que queiramos falar.
Tudo isso me serve de nota introdutória para descrever o ocorrido ontem. Tomei um ônibus e como de costume paguei a passagem sem olhar para o condutor, que por sua vez, me surpreendeu ao se direcionar a mim dizendo: "Bom dia senhor! Seja bem vindo". Não sei onde andei todos esses anos, mas nunca imaginei que um simples "bom dia" fosse soar tão estranho. Pasmo, olhei para o cobrador, o respondi e para minha surpresa constatei que não se tratava de um louco. Me dirigi então, ao final do ônibus e comecei a meditar sobre o que acabara de presenciar. Naquele momento tive uma noção da distância que separa as pessoas, apesar das inovações que permeia o campo das comunicações. Todos que passavam pela catraca reagiam mecanicamente como eu ao "bom dia" do condutor.
A propósito, dirigir-se a uma pessoa desconhecida tornou-se tão incomum, que quem assim proceder, certamente, ganhará um atestado de loucura. A que ponto chegamos?
Diante dos meus sete anos de idade, o meu tio, avô, tia e a minha bisavó, padeceram em curto espaço de tempo, que por não ter a noção exata não vou especificar. Márcio, meu tio, herdou os dotes políticos do pai, coronel Silva, tornando-se ainda jovem, prefeito da pequena cidade de Oran. A conclusão do promissor mandato de Márcio à frente do executivo municipal, foi barrada, por um problema que até hoje não entendi, tirando-lhe a vida misteriosamente. Após uma festa comemorativa do aniversário da cidade, o jovem prefeito foi repousar em sua casa e nunca mais acordou. A pequena cidade perdia um grande líder e o seu povo às esperanças de melhoria. O coronel Silva, que também havia sido prefeito, não se conteve, entregando-se a um estado depressivo. A mim nada restava, a não ser tentar reanimar meu avô, o meu melhor amigo, àquele que me ensinou pôr a boca diretamente nas mamas da vaca para sugar o leite. Não lembro mas deveria ser horrível. Costumava ir com o coronel Silva visitar suas terras. Na sua presença vi cenas inesquecíveis, como numa manhã de domingo, quando ao chegarmos em uma de suas fazendas e na presença do conformado marido, o coronel Silva se apossou de sua mulher, a levando para um quarto. Como conseqüência de tais atitudes, tenho várias tias naquela cidade, mas por lá todos preferem não comentar, a não ser o meu pai, irônico como sempre, afirma ao ver uma das bastardas de meu avô, "filho dê benção a sua tia", deixando-me a exemplo daquela, bastante constrangido. Mas o meu avô sempre me dedicou carinho. Qualidade e defeitos à parte, a depressão foi mais forte levando-o também.
A minha mãe, perdão, a minha tia, é que a tia Socorro enquanto viveu, cuidava de mim, era uma verdadeira mãe. Costumava dizer: "Nesse menino ninguém toca". Entristeço-me por não ter a oportunidade de dedicar-lhe o amor que sempre tive por parte dela. Assim, inexplicavelmente, aos trinta anos ela se foi. Lembro-me do seu caixão, mas a ausência de coragem me impediu de olhar o corpo que ali estava, talvez por temor de constatar o obvio. Preferi guardar sua imagem viva e alegre, obrigado tia.
Morei cerca de quatro anos em Recife, adorava a praia, sobretudo porque ressecava a pele e no dia seguinte tinha prazer em descasca-la. Os dias de sol eram comuns, mas certa vez na praia, o sol se ocultou, foi quando conheci um amigo de nome esquisito, o que me impedia de pronunciá-lo, louro, branco, me fazia lembrar o sol, então o batizei de sol. A partir de então, começamos a cultivar uma amizade, que se reforçava a cada manhã, quando nos encontrávamos na praia para brincar. Certo dia, meu amigo sol não apareceu, entrei em desespero, as mortes na família tinham sido recentes, não queria que ele morresse. Continuei a freqüentar a praia em busca do amigo sol, que não mais apareceu. Resolvi não mais ir a praia, que ficava próxima ao condomínio onde morava. Certa vez as nuvens cobriram o sol, corri à praia na esperança de reencontrar o amigo, que não apareceu, então conclui que ele havia morrido, pelos menos para mim, já que nunca mais o vi.
Voltando ao Estado em que nasci, conheci a minha bisavó. Duas coisas me intrigavam nela, o seu nome, Didi e a sua idade, noventa e nove anos, velhinha e imóvel disse que adorou me conhecer, confesso que eu também. Ao sair de lá indaguei à minha mãe, "Como é que uma pessoa fica tão velha e não morre"? A minha mãe respondeu que o destino gostava da Didi, pelo menos até aquele momento, já que no dia seguinte, a Didi faleceu.
Parecia que o motivo das mortes seria minha presença. Tentei então, o impossível, me afastar das pessoas. A morte parecia atingir a todos que me circundava e o próximo parecia ser eu. A impiedosa senhora de certezas incertas, não se dando por satisfeita, quase me fez vítima prematura e indefesa do seu ofício, enviando um carro desgovernado que por pouco não me atingiu, tendo que me jogar sobre a calçada, machucando o braço. Desde então, perdi o medo da morte, não me parece válido ter medo do inevitável. Desfrutarei dos prazeres da vida realizando os meus objetivos básicos, depois, estarei a sua espera, impiedosa senhora, não tarde pôs não quero ficar velhinho, entregue ao desprezo, ocupando os outros e me embriagando com a monotonia. A vida é um fantástico laboratório, onde nos deparamos com um estágio, quero ser aprovado e como conseqüência receber o meu diploma, ou seja a merecida e inevitável morte. Agora, não teime em me levar daqui, antes do meu dever cumprido, lembre-se, falhou uma vez e falhará inúmeras outras, caso tente.
Anteontem, sob uma linda e florescente lua, que banhava com sua envolvente luz um lugar esquecido, avistei uma menina, tão inocente quanto atraente. Em instantes incalculáveis fomos apresentados por alguém que não me lembro quem, tamanha a inoperância do meu olhar periférico. Minha visão ia de encontro a um só foco: a tal menina. O meu olhar tornou-se escravo de sua imagem e o meu corpo adormeceu diante de sua efervescência.
Como de costume, me afastei, talvez por temer as fortes sensações que a ninfeta emitia. A fuga que sempre me acompanha esbarrou ao nos tangenciarmos e se esvaiu no momento em que nos colidimos. O abrir e fechar dos seus lábios resultou na seguinte pergunta:
— De quem tu foges?
Respondi impulsivamente: — De ninguém além de mim!
Neste instante a beijei e sinceramente, não me lembro de mais nada, a não ser do seu semblante ao aceitar o meu ósculo e das minhas mãos deslizando sobre suas perigosas curvas... A lua se foi, a garota também e eu continuo à deriva.