
Senhor, que diferença há entre a casa e o lar?
Vês àquele pássaro a cortar o céu como uma flecha enfurecida?
Sim, o vejo perfeitamente!
Imagine-o numa gaiola...
Imaginei-o, senhor!
Pois bem, eis a casa dele!
E o lar, senhor?
O lar foi de onde você o tirou com a sua imaginação.
Então, diga-me senhor: se a casa é uma prisão, por que o prisioneiro canta, ao invés de cair em desilusão?
Talvez porque ele não saiba chorar, meu jovem!
Em cada passo noturno, um salto de luz; Em cada leve olhar, uma morada dos deuses; Entre paisagens escuras, límpidas lembranças; Ando quando os ponteiros estão inertes; Prisioneiro, invejo as folhas se lançarem em queda livre; A velha noite me lembra de esquecer as mágoas de um dia de infantilidades; Descubro que não é acelerando os passos que se alcança os calcanhares do futuro; Busco respostas, mas elas se afugentam em teus cabelos azuladamente negros; Encontro saídas no olhar cego dos guias, que guiam a inspiração de um ser improdutivo; Confuso, sou mastigado pela boca desdentada de um túnel; E assim, quando pareço encontrá-la, me perco na esquina das tuas pernas; Minha morosidade soprou tuas pegadas para debaixo do tapete do tempo; Mas na noite tudo acontece, inclusive você.
Não tenho tudo que preciso, mas procuro utilizar tudo que tenho: lápis, papel e uma reles imagem no céu; Não faço tudo o que gosto, mas me perco no gostar do que faço como correr em fuga do cansaço; Talvez não ame a vida como deveria, mas a amo sem dever, sem a imposição do ser; Quase sempre olho a lua, mas há tempos não a vejo em sua intimidade nua; Costumo presenciar o dia partir sem, no entanto, vê-lo regressar; Busco explicação num começo sem fim: em você sem mim; Sou marcado por idas, nunca voltas, perigo, nunca escoltas; Sou um pedaço contraditório: naus na terra e carros no mar, ventos alísios que não saem do lugar; Sinto falta de terminar uma poesia sem lançar à sarjeta o que escrevia, de fechar o livro sem esquecer o que lia, de concluir um sonho sem acordar, de lhe dizer o que sinto entre um gole e outro de vinho tinto, enfim, de falar sobre mim, sobre o que penso, sobre a leveza do denso; Sempre começo, mas nunca termino, sempre meço o infinito na passagem do rito; Perco a vontade de continuar e a continuidade do desejo, que sempre me abandona, me joga na lona; É hora de deixar, uma vez mais, tudo por fazer.
Nos países que cultivam forte apelo coletivista, a pobreza não somente se constitui numa bandeira de luta política, mas também no objeto predileto das análises de vários estudiosos. O resultado dessas reflexões é conhecido: o ódio à riqueza.
O equivocado ataque à riqueza deve-se ao seguinte veredicto: alguém é rico porque alguém é pobre, ou muitos são pobres porque poucos concentram a riqueza em suas mãos. Sendo assim, cabe à riqueza o ônus da pobreza. Se a riqueza é tão nefasta aos interesses dos povos, indaga-se: que tal um mundo totalmente paupérrimo? E agora, o que nos dizem os críticos da riqueza? É preciso conceber que o problema não é a riqueza, mas justamente a pobreza. É ela que impede as pessoas de desfrutarem das condições necessárias ao seu desenvolvimento.
A pobreza é o estado natural do ser humano, conforme se verifica ao longo da história da humanidade. Isso não impede o homem de superá-la. Trata-se, pois, de algo comum, enquanto que a riqueza é extraordinária. A riqueza, de modo geral, representa a ação, o progresso, o desenvolvimento, a produtividade, a divisão do trabalho, o empreendedorismo e, por fim, as permutas no mercado. A pobreza, por seu turno, representa o contrário, isto é, a inércia. Em suma, a pobreza não precisa do homem para ser criada, a riqueza sim.
Sim, há quem diga que o problema não é exatamente a riqueza, mas quem a detém, isto é, os ricos. O que fazer com eles? Desapropriá-los de suas posses, conforme propunha Marx com relação aos detentores das forças produtivas? Num país cujo Estado incita invasões às propriedades particulares, a idéia tem, apesar de retrógrada, vários e fervorosos adeptos.
Aos que atribuem aos ricos a responsabilidade pela pobreza de muitos, digo-lhes: a riqueza não é fixa, pode ser produzida e não somente expropriada. Distribuir a riqueza a quem nada fez para produzi-la não tem nada de justo, e mais: pune e desestimula os responsáveis pelo progresso, cerceando o desenvolvimento. Não se quer com isso advogar que somente os ricos contribuem para o progresso e nem muito menos que inexistam pessoas que realmente precisam de auxílio para se desenvolver. Assim, sob a desculpa de ajudar os miseráveis, através de políticas assistencialistas, os burocratas se nutrem cada vez mais. É um negócio rentável para os homens de Estado, nada mais. Afinal, conforme já foi dito: “O Estado é a grande ficção através da qual todo mundo se esforça para viver à custa de todo mundo”.
Estudar a pobreza é queimar neurônios à toa! Adam Smith sempre valorizou os seus, tanto é que a sua conhecida obra foi intitulada: Uma investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. Enfim, a riqueza deveria ser vista como algo desejável e necessário ao combate à pobreza.
É assim que desde a mais tenra idade denomino a morte. Uma velha senhora e não uma jovem principiante. Caso contrário, como explicar sua vasta experiência e perfeição? A uma iniciante não seria atribuído o cruel ofício de ceifar vidas. Já a certeza incerta deve-se à certeza da morte e à incerteza do momento de sua ocorrência.
Após personalizá-la, indaga-se: o que é a morte? Pode ser tudo ou simplesmente nada, depende do enfoque a ser utilizado. Tradições filosóficas contemplam exaustivamente tal fenômeno. Há quem o trate como um reinício; Há quem o considere o fim. Do ponto de vista orgânico nada mais é que a falência dos órgãos vitais. No geral, as pessoas o temem e não o querem por perto. Cultivam verdadeira ojeriza ao que consideram um mal.
Todavia, a morte pode e deve servir de mola propulsora para a vida. Explico. Já foi dito que a partir do momento que nasce o ser começa a morrer. A morte seria o destino da vida. A vida, por seu turno, se resumiria a uma fuga constante da morte. A tendência à morte pode ser verificada quando se entrega a vida a própria sorte. Um corpo que, por exemplo, não se alimenta, perece. É preciso que reiteradamente se faça algo para evitar a morte. O que fazemos diariamente é adiar, através de algumas ações, a sua manifestação. E ao agirmos assim, adivinhem, vivemos.
Seria, pois, a morte uma espécie de inimiga íntima, que carregamos conosco desde a nossa gênese? Reparem que ao evitá-la nos mantemos vivos. Assim, a possibilidade de morte, na verdade, nos força à vida. Não fosse ela, sabe-se lá, nos acomodaríamos. A sua constante pressão exige que façamos algo, isto é, nos movimenta, nos direciona à vida.
Imagine duas pessoas com as quais você pode estabelecer uma relação comercial. Uma delas é conhecida por cumprir religiosamente seus acordos. A outra, no entanto, tem um histórico que a remete a certa apreensão, considerando os acordos não cumpridos. Indaga-se, pois, com quem você prefere manter relações?
Países como Brasil e Venezuela já deixaram, desde 1824, de cumprir suas dívidas respectivamente sete e nove vezes, enquanto Canadá e Coréia do Sul sempre honraram as suas. O que justifica os calotes daqueles? O fato de não serem ricos? Se fosse assim, a Índia, que em se tratando de pobreza supera o Brasil, não teria honrado todos os seus compromissos. No Brasil, por exemplo, já se falou por diversas vezes e de maneira natural em calotes. Aliás, calote nesta terra ainda é apresentado como bandeira de luta e plataforma eleitoral.
É por isso, senhor presidente, que os riscos aos empréstimos e investimentos realizados no Brasil são superiores aos encontrados nos EUA. O país ainda carrega consigo essa triste e lamentável referência.
As pedras pontiagudas do caminho marcaram teus pés, deixando-os em carne viva; O lápis do tempo traçou linhas aleatórias em tua face quase morta; Onde estava eu, enquanto tu te esvaías? Não se sabe! Talvez contigo, talvez sem mim; O tempo passou sem que passássemos um pelo outro; Sem que cruzássemos olhares; Ainda assim nos imaginávamos juntos num universo paralelo, distante, talvez inexistente; Éramos um para o outro, frutos de uma imaginação insistente, porém improvável; Certa feita, contudo, o impossível driblou as leis que o obstruía e se manifestou; Foi-nos dada uma chance, esquecemos tudo e mergulhamos num primoroso nada. Este nada hoje para nós é tudo! Meu tudo está e sempre esteve além de mim; Em você, em lugar algum.
Anunciei por diversas vezes o meu regresso. No entanto, frustrei reiteradamente as minhas próprias expectativas. Finalmente, resolvi alguns detalhes pendentes, que me impediam de escrever com a freqüência que a parceria entre o cérebro e os dedos deseja. Doravante, volto a pincelar o singelo juvenília como sempre o fiz: sem periodicidade definida, mas constantemente.
Já discorri diversas vezes sobre o aquecimento global, mais precisamente sobre a sua veracidade. Assim, por um lado, distingui certeza de crença. Os efeitos do aquecimento são crenças e não certezas. Por outro lado, expus a desconfiança, que merecia ser de todos, sobre o que disseram os supostos “cientistas” a despeito dessa nova bandeira. Mencionei alguns renomados especialistas e as suas posições céticas. Enfim, contrapus o exposto no palco ao ceticismo dos bastidores.
Não me consta ter visto na grande mídia algo referente à “Conferência Internacional sobre Mudança Climática - Aquecimento Global: Verdade ou Fraude?”, realizado em Nova York nos dias 2, 3 e 4 de março pelo Instituto Heartland, que juntou os céticos do meio ambiente. É bem verdade que não tenho acompanhado as notícias, mas caso algo desse tipo tenha recebido alguma menção foi de maneira terciária.
A grande conclusão apontada pelo aludido encontro foi a seguinte: o clima está, há tempos, em constante mudança, e continuará mudando independente da ação humana. Assim sendo, caros leitores, a mudança climática não é uma catástrofe; não há comprovação alguma (por mais que a mídia faça parecer o contrário) que o aquecimento é obra da ação humana. É óbvio que há o efeito estufa, caso contrário, conforme nos lembra Thomas Sowell, o lado do planeta que não estivesse voltado para o sol congelaria toda noite. O que ora se questiona são as implicações acerca das medições da temperatura.
Esses e outros tantos contrapontos precisam ser considerados para que possamos ter acesso ao outro lado da moeda. Tudo que se faz repetidamente parece correto, normal com o passar do tempo. Não aceite nada sem antes questionar, mesmo que isso lhe renda a alcunha de cético.
A essa altura me resta ofertar a todos os leitores deste blog, um feliz ano velho. Registro minhas escusas pelo atraso da oferenda. Sim, continuo lento, tão lento que pareço estático; A lentidão, digo-lhes, sou eu! Mas, segue um texto referente à maneira de pensar e atuar de alguns tantos.
A forma de um país pensar interfere decididamente no seu desenvolvimento. Uma pessoa de origem pobre, por exemplo, ao assassinar alguém tem ao seu favor o argumento de ser vítima da pobreza. Se assassino e assassinado são vítimas, indaga-se, quem é o algoz? Para muitos, especialmente para os representantes da inteligência tupiniquim, a pobreza é a grande vilã. O discurso é um estímulo ao vômito, mas há quem o defenda com unhas e dentes. Assim sendo, caros leitores, para dizimar a violência, ouçam bem, basta enviar todos os pobres para a ilha de Lost.
De quem é a culpa quando integrantes do governo usam cartões corporativos para fins impróprios? Alguém arrisca? De todos aqueles que se possa imaginar, menos de seus portadores. A ex-ministra da igualdade racial Matilde Ribeiro deixou o cargo depois da revelação sobre seus gastos irregulares com o cartão corporativo. O PT, em vez de repreendê-la ou abrir um processo interno, divulgou uma nota atribuindo sua saída ao preconceito das elites. Pressionei as duas mãos contra a cabeça, mas não foi o suficiente para compreender a complexa resposta do PT.
Agora, digam-me: como é possível alguém ter suas afirmações exaltadas simplesmente por se tratar de um autor de valorosa obra? Neste torrão, não são as idéias que importam, mas quem as defende. As afirmações do Niemeyer, mesmo quando advogam regimes liderados por facínoras, são dignas de inquestionável louvor, simplesmente por ter ele desenhado algumas colunas. Estranha forma de pensar!
Suponha-se que “Pirulito”, adolescente que vive em ambiente pobre e violento, diante da contradição que há entre o que lhe disseram ser possível e o que de fato pode conseguir, empreenda atitudes ilegais como forma de realizar-se. Indaga-se: seria esse um motivo aceitável para que o “Pirulito”, por exemplo, tirasse uma vida? É nisso que as “mentes iluminadas” desse país querem nos fazer acreditar. É matando, roubando, estuprando, enfim, cometendo atos ilegais que o “Pirulito” irá desfazer a imensa “dívida social” que o coloca em situação injusta? Não haverá, pois, nada de errado em, por exemplo, matar, assaltar e estuprar, desde que assassinos, assaltantes e estupradores sejam vítimas das injustiças sociais?
O uso de uma situação de cunho sócio econômico como justificativa para atos ilegais é algo ridículo e agressivo à inteligência das gentes. Mas é justamente isso que o establishment e a intelligentzia tupiniquins afirmam. É como se injustiça se combatesse com injustiça.
O último post provocou comentários da leitora Daise, a quem agradeço, bem como a todos os que com as suas naus por aqui aportam, por suas indispensáveis manifestações.
Visando evitar más interpretações a despeito do que expus, como houve no caso ora mencionado, seguem algumas considerações elucidativas.
Em nenhum momento, como parece sugerir os comentários, critiquei a diversidade de pensamento. Em verdade a incito constantemente, mesmo num torrão carente de idéias contrárias ao pensamento da intelligentzia. Aliás, a frase de Voltaire citada pela comentadora foi empregada neste juvenília reiteradas vezes;
Os comentários parecem extrair dos relativistas uma característica que lhes é inegavelmente comum, direcionando-a para aqueles que se manifestam contrários a eles: a imposição de posicionamentos. Criticar o posicionamento de alguém não significa cercear o seu direito de expressão. Sou contrário à ideologia, digamos, homossexualista, mas isso não significa que advogo a censura aos gays. O que não admito é transformar idéias estapafúrdias em leis sem uma discussão séria;
Estabelecer algum tipo de comparação entre valores universais e idéias primárias a respeito do formato da terra é um despropósito, certamente indigno de quem o escreveu. Falo de vida e liberdade, por exemplo, não das contrariedades sofridas pelas idéias de Colombo, Galileu e Copérnico;
Quem falou em valores unânimes socialmente aceitos? Refiro-me a valores imprescindíveis à manutenção da humanidade, o que não quer dizer que sejam acatáveis majoritariamente. A sua valia não se deve à quantidade de pessoas que o apóiam, mas às condições humanas indispensáveis que eles promovem. Os valores a que me refiro não são, por exemplo, estéticos – as mulheres tidas como verdadeiras epifanias na renascença hoje seriam consideradas exageradamente gordas. O estalão de beleza mudou, nada mais. Isso não abala a existência humana. Refiro-me, repito, a algo mais profundo como os valores indispensáveis à permanência da humanidade. Ao afirmar que a vida é um bem (ou um valor como queira) a ser preservado refiro-me a algo verdadeiro, certo? Isso deixará de ser verdade? Pode até ser, mas caso isso aconteça a humanidade estará eminentemente em risco. Eis a diferença entre o que é uma verdade cara à humanidade, independente de tempo, valores e circunstâncias e padrões ocasionais. Inserir a relatividade nessa discussão é admitir o contrário. Tal admissão é um suicídio. E para discutirmos se a verdade é ou não relativa precisamos respirar; carecemos de uma verdade que é a nossa vida. Veja que não há como comparar uma questão fundamental com uma idéia de época. Há vidas em outros planetas? Sim? Não? Se houver (aqui entra a questão fundamental) teremos o direito de destruí-las?
Também não tratei a diversidade como um crime contra a liberdade, conforme a comentadora equivocadamente assegurou. Por favor, sejamos justos, especialmente em épocas de vultosa injustiça. O que disse foi: “A imposição da diversidade é um crime contra a liberdade”. Há uma diferença brutal e passível de ser verificada, inclusive por um leitor desatento, tal qual é a sua evidência;
Deixo-vos, por fim, com um questionamento, qual seja: idéias ou valores contrários à permanência da vida e da liberdade, por exemplo, devem ser encorajados ou criticados?
É comum ouvir, especialmente no auge de uma acalorada discussão, algo do tipo: “o que é errado para uns pode não ser para outros”. Trata-se, parte das vezes, de uma postura covarde adotada por quem quer encerrar um embate sob pena de perdê-lo.
Se relativizo tudo, nunca estarei errado. Não estando errado não há porque me corrigir. Não me corrigindo, permaneço como estou. E se estiver errado? Há uma visível falta de comprometimento com a verdade. No aludido contexto a verdade não importa, mas o fim a ser buscado, seja através de mentiras, verdades, fatos, mitos, papai Noel ou chapeuzinho vermelho. A finalidade de Al Gore, por exemplo, é fazer com que as pessoas acreditem que são culpadas pelo aquecimento global. Para isso, não lhe importa plantar mentiras como sendo verdades irrefutáveis.
Fala-se em várias verdades, diversas percepções. Esticam tudo, mesmo o inexistente. Se há diversas verdades aonde está a mentira? Simplesmente não há mentiras. Se estou certo sobre algo e você, embora diga exatamente o contrário, também, então volto a indagar: aonde está a mentira? Há, contudo, algo interessante, a saber: os defensores da diversidade não aceitam a unicidade, que faz parte do rol da diversidade. O azul, a única tonalidade que considero bonita, faz parte da diversidade de cores que compõem o arco-íris. Não há com isso nada de errado em desgostar das demais cores. A imposição da diversidade é um crime contra a liberdade. Não há nada de errado, por exemplo, em ser contrário ao homossexualismo. Sendo livre o meu pensamento, tenho o direito de lucubrar diferente. Não estou com isso atentando contra qualquer valor caro à humanidade.
É de se perguntar: aonde quer chegar este escriba? Há princípios morais universais, sabiam? Acredito nisso piamente. Há o certo e o errado! Não me venham dizer que mutilar o clitóris de uma mulher é errado para uns, mas pode ser certo para outros. Digo-lhes que é errado em qualquer lugar ou circunstância, independente de costumes, épocas e culturas. O exemplo talvez seja exagerado, mas o exagero, por vezes, se faz necessário. Há momentos que somente uma grande onda consegue nos molhar por inteiro e, finalmente, nos acordar do que, equivocadamente, consideramos um sonho ingênuo.
Após um profundo e quase interminável mergulho, regresso à superfície. Afinal, ainda necessito respirar. Segue, conforme anunciado, a segunda e, possivelmente, última parte do texto pretérito.
Inicio retomando a indagação que findou o post do distante dia 13 de julho, a saber: o que faz com que uns pratiquem o mal em detrimento do bem? A partir dessa pergunta surgem outras tantas: O que norteia a má ação? A atitude, seja ela má ou boa, é uma determinação ou uma escolha? Fatalismo ou livre arbítrio? Resultado de fatores sociais ou individuais? O fito do presente post não é responder a tais inquietações, mas ofertar uma mensagem comumente ignorada em solo pátrio.
Recorro, pois, a duas abordagens clássicas, quais sejam: a sociocultural e a da escolha intencional. A primeira advoga que a ação independe da vontade do indivíduo, além de ser estabelecida por forças externas, que, por seu turno, se originam na sociedade. A segunda, contrariamente, considera que a ação resulta de uma escolha deliberada, feita pelo agente.
A pressão social gerada pela expectativa de afluência, segundo Robert Merton, faria com que os indivíduos buscassem quaisquer meios, inclusive maus e ilegítimos, para atingir as expectativas que a sociedade internalizou em suas mentes. A ação das pessoas seria orientada pela contradição que há entre a expectativa social e a, digamos, capacidade individual. O fosso que separa tais extremos geraria sentimentos como frustração e revolta. Segundo tal pensamento, se não me são ofertadas as condições necessárias para que tenha dinheiro e bens desejáveis, me resta tomar. A propósito, Oscar Wilde afirmou que pedir é mais indigno que tomar.
Entrementes, tal abordagem apresenta uma visível limitação traduzida na seguinte pergunta: por que nem todos os indivíduos submetidos às mesmas forças sociais tornam-se motivados para a prática do mal? Há moradores de locais pobres e violentos que são seguidores da retidão. É razoável acreditar que a partir das influências recebidas, cada indivíduo escolhe entre as alternativas disponíveis. Muitas vezes as pessoas agem com se espera que elas ajam. No entanto, estas mesmas pessoas podem agir de maneira diferenciada, isto é, contrariando uma expectativa social. Então, o que de fato leva alguém a agir de uma determinada forma? Uma série de fatores! Influências externas, decisões internas baseadas no que vem de fora, mas também no que parte de dentro. Não se pode perder de vista que o indivíduo não é somente um instrumento das ações, mas também um articulador e praticante de atitudes. Não consigo me imaginar, talvez por ausência de criatividade, a serviço de uma força oculta, designada de sociedade, como querem alguns célebres pensadores tupiniquins. Considerar os indivíduos meros pacientes e inferiorizar drasticamente a sua importância no complexo social é um absurdo que, talvez, nem Camus, o argelino, entenderia.